No baile do Equinócio, as árvores de folha caduca exibem os seus vestidos de tule verde-leve. Penteadas pelo vento, agitam os braços numa saudação:
- Bem-vinda sejas, Primavera!
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
20 de março de 2019
12 de fevereiro de 2019
Folha ou pássaro
Uma folha
ou um pássaro
adeja nos braços
irrequietos do vento
Um pássaro-folha
de asas nervosas
rabiscando a tela
do horizonte
Uma folha-pássaro
de bico ávido
sorvendo o azul
saboreando a luz
Se folha
se pássaro
tanto faz
O que importa
é a vertigem do voo
que me fascina
e seduz
ou um pássaro
adeja nos braços
irrequietos do vento
Um pássaro-folha
de asas nervosas
rabiscando a tela
do horizonte
Uma folha-pássaro
de bico ávido
sorvendo o azul
saboreando a luz
Se folha
se pássaro
tanto faz
O que importa
é a vertigem do voo
que me fascina
e seduz
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20 de novembro de 2018
16 de novembro de 2018
11 de novembro de 2018
Um país

Um país nunca é apenas um país.
É muitos mais.
É o país dos ricos
E o país dos pobres.
É o país dos cultos
E o dos ignorantes.
É o país dos nativos
E o dos migrantes.
Dos que cá nasceram
Mas aqui não moram
E o dos que aqui moram
Mas não nasceram cá.
É o país dos citadinos
E o dos provincianos
(mesmo que os primeiros
vivam no campo
e os segundos na cidade).
É o país dos homens
E o país das mulheres
E o das crianças.
É o país dos adultos.
É o país dos adúlteros.
É país dos mansos
E o dos violentos.
O país dos crentes
O dos ateus
O dos agnósticos
E o dos assim assim.
É o país dos católicos
E o dos protestantes
E o dos muçulmanos
E o dos budistas
(mesmo que estes sejam
uma ínfima minoria).
É o país dos camponeses
E o dos operários
O país dos banqueiros
E o dos ladrões
(que os há em todas
as classes e profissões).
O país dos doutores
E dos engenheiros
E o dos almeidas
E dos coveiros.
O país dos heteros
E o dos homos
E o dos bis e o dos polis
E o dos assexuais.
É o país dos cromos
E o das vedetas.
O país da verdade
E o das grandes tretas.
O país onde se desfalece de fome
E se morre de obesidade.
O país dos que sofrem de solidão
E o dos que tentam espantar
Uma solidão maior
No meio da multidão.
O país dos sem abrigo
E o dos que passam ao largo
Em carros topo de gama
(mesmo que estes não tenham
mais nada a não ser dinheiro
e outras coisas que não digo).
...
Por isso, um país nunca é
Apenas um país.
Mas, só na amálgama
De todos estes outros países
E mais alguns de que não se fala aqui
Um país
Poderá ser verdadeiramente
Um país.
4 de dezembro de 2017
O sono de Ícaro
acordei com o odor
da tua ausência
coloquei as asas
e fui em busca de ti
pelos insondáveis
labirintos do mundo
resistindo
à vertigem do sol
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género livre
17 de outubro de 2017
O vento arrasta a cinza
Em 2004, quando foi escrito, este poema tinha as palavras «o pólen» no lugar das palavras «a cinza». Fica a homenagem aos que combateram e sofreram com os incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017, em particular no Pinhal de Leiria.
Num ligeiro remoinho
o vento arrasta a cinza
das flores do verde pino.
E traz consigo a memória
do velho rei trovador:
- Ai flores do verde pino.
Quem suspira mansamente
pelos pinhais do litoral?
Será o vento ou o mar?
Ou serão ainda os ecos
duma cantiga de amigo?
- Ai flores do verde pino.
Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão
soa a mágoa do poeta:
- Ainda ouvis minha voz?
Ainda vos lembrais de mim
ó flores do verde pino?
Mas só responde o murmúrio
do vento que arrasta a cinza
das flores do verde pino.
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género livre
18 de maio de 2016
quando eu morrer não tragam flores
![]() |
| Foto de Carlos A. Silva |
quando eu morrer
não tragam flores
que flor cortada
logo fenece
e morto por morto
basta no esquife
o cadáver que arrefece
não tragam sequer
lamento e pranto
que a morte
- porque certa -
não vale o espanto
nem a mágoa da perda
que o peito descerra
tragam histórias
e canções
e canções
e poemas vibrantes
com as memórias felizes
dos dias de antes
perenes como as flores
de pé na terra
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género livre
24 de outubro de 2014
25 de abril de 2014
havia naquela manhã de abril
[A Salgueiro Maia, nos 40 anos do 25
de Abril]
havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade
eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade
havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas
eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas
havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida
e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida
Carlos Alberto Silva
25-04-2014
havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade
eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade
havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas
eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas
havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida
e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida
Carlos Alberto Silva
25-04-2014
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5 de fevereiro de 2014
Ácidas sinetas
Ácidas sinetas -
Um tilintar amarelo
Ao sabor da brisa.
Lampejos de primavera
Salpicando os verdes prados.
*
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haicais
1 de fevereiro de 2014
Uma espada chamada Maria
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
Cai a noite. Um vento de temporal reproduz os ecos de
Aljubarrota. Ao longe, entre o tilintar das armas, uma voz entoa:
- Às armas! Às armas! Pelo povo de Portugal. Contra os Andeiros,
marchar, marchar.
Ecoam no vento
O estrépito das armas
E gritos remotos
- É a bravura dos avós
Nos campos de Aljubarrota.
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imagens faladas
2 de janeiro de 2014
O deus dos ladrões
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
Os gregos chamavam-lhe Hermes, os romanos, Mercúrio. Mensageiro dos deuses, tinha nos pés umas pequenas asas, que lhe permitiam descolar-se à velocidade da luz. Atribuíram-lhe mais funções que a qualquer outra divindade da mitologia, mas é conhecido sobretudo como o deus da eloquência, dos comerciantes e dos ladrões. Três atributos muito em voga nos tempos que correm, a lembrar certas personalidades que decidiram não deixar pedra sobre pedra, neste recanto de gente pacífica. Embora de moral duvidosa, Hermes conseguiu sempre o apoio dos Poderosos. E os que por cá lhe seguem o exemplo, parece que também.
É o deus dos ladrões -
Traz na mão o caduceu
E um chapéu alado.
Voa, sem sair do sítio,
Sob o pó acumulado.
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imagens faladas
1 de dezembro de 2013
O futuro ausente
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
Bates à porta. Pegas no batente e desferes três sonoras
pancadas, que ressoam no sossego da casa. Ficas à espera e nada. Voltas a
bater, desta vez com mais força. Logo que o eco das pancadas se esbate, lá
dentro nada bule. Esperas um pouco mais. Não está ninguém, concluis. Preparas-te
para virar costas, mas um som vago chama-te a atenção. Afinal, está alguém,
pensas tu. Voltas a bater, agora gentilmente, não vá esse alguém assustar-se.
Silêncio. Desistes e vais embora.
Bateste à porta do futuro. Não sabes que, neste país adiado,
o futuro está ausente.
Ao bater da aldraba
Só o silêncio responde.
No velho solar
Nem o vento se demora.
Porque ali já ninguém mora.
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imagens faladas
3 de novembro de 2013
Um país de marinheiros
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
Tal como as gaivotas -
Quando perdem terra à vista
Voltam a aportar
Somos um povo marinheiro
Que virou costas ao mar
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31 de agosto de 2013
No rasto do pincel
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
No rasto do pincel, tomam forma ruas serpenteantes, casas
alinhadas, planícies verdejantes, prados floridos, montes nevados, falésias abruptas,
ondas encrespadas e outros fragmentos pictóricos da realidade. Ora mais figurativos,
ora mais abstractos, filtrados pela emoção do pintor, são os breves registos de
um tempo que se não repete.
Rebrilhando ao sol da tarde, ficam então expostos ao olhar
dos passantes, tentando despertar o interesse de um eventual comprador. E a
troco de algumas notas, mais do que o seu labor, o artista cede um pouco das
suas próprias memórias.
Manchas coloridas
Sob a poeira do tempo
- Memórias felizes.
Resplandece a luz do sol
Na tela do pensamento.
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1 de agosto de 2013
Fábula
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
Por detrás do enorme portão gradeado de uma casa senhorial,
um feroz cãozarrão tomava-se de razões perante um minúsculo ratinho:
- Mas quem és tu, insignificante criatura, para te atreveres
a pisar a minha sombra? Saberás, por acaso, com quem estás a lidar? Olha para o
meu porte, para a imponência dos meus músculos, para os meus possantes colmilhos,
sinais inequívocos da minha força, da minha bravura e da minha nobreza. Fica
sabendo que sou macho premiado nos mais concorridos certames caninos, desejado
e farejado por tudo quanto é cadela de raça…
Sem perder a compostura, embora sentindo o coraçãozito
agitado como folha em dia de vendaval, o ratinho ia recuando disfarçadamente em
direcção ao portão. Vendo que o atroz canídeo cerrava os olhos, embriagado pelos
arroubos do auto-elogio, logo se escapuliu por entre o gradeamento. E, já do
outro lado, fez ouvir a sua vozinha:
- De que te servem agora a tua nobreza, a tua bravura e a
tua força, prisioneiro que és dessas grades, ó cão? Posso ser pequeno e insignificante,
indigno até de pisar a tua sombra, mas ao menos sou livre! Poderás tu dizer o
mesmo?
O cãozarrão baixou as orelhas e meteu o rabo entre as
pernas. O ratinho lá foi à sua vida.
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30 de junho de 2013
A lenta erosão do tempo
![]() |
| FOTO: Carlos Fernandes |
Ferro e pedra, arrancados ao seio da terra, são os materiais
preferidos dos construtores de cidades. Moldados pelo fogo, com eles se armam
as silhuetas das vertiginosas estruturas que recortam o horizonte. Robustos e
poderosos, são imunes aos ímpetos do vento e da chuva em dia de temporal e resistem
firmes aos próprios abalos telúricos. Na soberba dos homens, são presumidamente
eternos. Mas o tempo é um bicho paciente que tudo devora. Ferro e pedra, como a
efémera carne de servos e reis, tudo tornará um dia à poeira primordial.
Irmãos da ferrugem
Que rói o duro metal
- os fungos na pedra.
Agentes e testemunhas
Da lenta erosão do tempo.
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