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30 de abril de 2007

Procissão



FOTO: Carlos Fernandes


O estoiro dos foguetes faz vibrar no ar um apelo a que novos e velhos dêem continuidade à tradição. Repetem-se os gestos ancestrais da gente circunspecta, reclamando a protecção divina. Os passos devotos, regidos pela cadência dos sinos, conduzem o andor da padroeira pelas ruas da aldeia. Sobre a cabeça das mulheres, entre arranjos garridos de flores de papel, as rimas de bolos reforçam um voto de prosperidade. Assim vai a procissão…

Repicam os sinos
espalhando a notícia -
Sai a procissão!

Pelas ruas da aldeia
o povo pede amparo.

31 de março de 2007

bandeira hasteada


FOTO: Carlos Fernandes

No alto da sua esguia forma, a velha palmeira solitária rivaliza com os mastros vazios da modernidade. Agita mansamente as suas folhas roçagantes como uma bandeira sempre hasteada, oscilando ao sabor da brisa. Espectadora do frémito que anima as gentes que flúem a seus pés, reivindica um lugar na memória da urbe. Tantas casas que já viu erguer e derrubar para de novo levantar... e tantas vidas…

bandeira hasteada
sobre os telhados da urbe
ao sabor da brisa

- na palmeira ancestral
vive a memória das casas

3 de março de 2007

O enigma do gafanhoto


FOTO: Carlos Fernandes

Que novidades trazes tu, gafanhoto saltarelo? Diz-me o que se passa por esse mundo fora, enquanto descansas num fio de erva embalado pela brisa. Fala-me da quentura dos desertos, da verde humidade da densa floresta, do sobressalto constante da savana, do eco das aves de rapina estremecendo a neve da montanha. Fala-me das grandes tempestades que rasgam os céus de espanto, das catástrofes que ensombram o coração das gentes, da demência que lança irmãos contra irmãos, das sete pragas do Egipto, das mil e uma quimeras…
Não és tu o incansável viajante que tudo viu e tudo sabe? Ou serás apenas um pobre bicho provinciano que nasceu e há-de morrer dentro dos limites do meu quintal?

descansa na brisa
baloiçando com as ervas
este gafanhoto

- que coisas sabe do mundo
para lá do meu quintal?

3 de fevereiro de 2007

O sorriso do arco-íris


FOTO: Carlos Fernandes

Nenhuma ave se aventura sob o céu de chumbo e os insectos já calaram as cegarregas - apenas o vento se faz soar entre as ervas. As nuvens ameaçam os últimos raios de sol que brincam sobre as pedras e há um odor a tempestade dominando o horizonte. Mas, ao longe, um rasto colorido começa a ganhar consistência, desafiando a borrasca…

nem voos nem trilos
desassombram a paisagem

sob o céu de chumbo
apenas o arco-íris
desafia a tempestade

1 de janeiro de 2007

o desígnio do gesto


FOTO: Carlos Fernandes

O vigor do aço indaga a matéria informe, desnudando o perfil da própria mão que a afeiçoa. Na alvura do calcário se dá sentido ao desígnio do gesto. Pela força da mão se transfigura a pedra, em luz e sombra, como se da sua original substância nada mais restasse que a polidez de um espelho.

molda-se a pedra
ao paciente labor
do rude cinzel

no aconchego da mão
se retrata o humano afago

1 de dezembro de 2006

entre a luz e a sombra


FOTO: Carlos Fernandes

Soltam-se braços e pernas, cabeças e torsos, entre a luz e a sombra. Inebriados pela melodia, agitam-se os corpos síncronos, entregues à dança, no fulgor da juventude. Gestos delicados e gráceis, como um sortilégio, enchem o espaço e prendem o olhar. Deixam no ar um augúrio, uma promessa, uma certeza…

volteiam os corpos
num rito de encantamento
entre a luz e a sombra

- a sedução do olhar
na sincronia da dança

29 de outubro de 2006

janela fechada


FOTO: Carlos Fernandes

Lá fora, o sol brinca sobre as telhas, simulando no rebordo das sombras o rendilhado da trapeira. A lacónica brisa joga às escondidas entre as chaminés e faz vibrar os mastros das antenas. No entanto, por detrás dos vidros baços, o silêncio passeia-se na casa fechada, só contrariado pelo marulhar dos insectos xilófagos. Para quando o dia em que de novo se ouvirá o palpitar dos passos no soalho e uma lufada de ar fresco desfraldará a janela?

p’ra lá da vidraça
só o silêncio habita
a casa vazia

até que um dia a janela
se abra de par em par

1 de outubro de 2006

fila harmónica

filarmonica.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

Em cadência lenta, marcada pela percussão, avança a filarmónica, agitando a rua com o trinado dos clarinetes e das flautas. De vez em vez, insurgem-se os trompetes, rivalizando com os fliscornes, os saxofones e os trombones. Ripostam as trompas e as tubas. E logo estralejam os pratos, no seu brado metálico, a pôr ordem na melodia. Responde o assisado bombardino que é dia de devoção, mas também de folguedos e alegria.

o sopro dos músicos
enchendo a rua de sons
- é dia de festa -

e a gente acorre à janela
a ver a banda passar

3 de setembro de 2006

Mimese

mimese.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

O escultor traz nas mãos o frémito de uma ideia. E o barro dócil cede à pressão dos dedos, às carícias da fantasia. Da massa inerte emergem as formas de um corpo mítico, como um poema feito substância. Recria-se o mundo num gesto sereno. Celebra-se, na mimese, o acto da Criação.

cede o barro dúctil -
a força de uma ideia
vertendo das mãos

assim brotam as palavras
da matéria do poema

1 de agosto de 2006

o vagar das pernas

pernas.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

Pernas, para que vos quero? Para dar asas ao medo? Para sacudir o jugo dos tiranos e dos importunos? Para me conduzirdes, sem delongas, pelos trilhos deste mundo? Ou, simplesmente, para entrecruzar com outras pernas, na elementar consumação do descanso? …

repousam as pernas -
os caprichos da fortuna
numa inércia breve

enganosa indolência
de uma vida andarilha

2 de julho de 2006

a vida é agora

bola.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

O tempo corre veloz, como uma bola rolando na calçada. Mas as crianças, embrenhadas no prazer do jogo, de tudo se alheiam, crendo no riso sem limites. Esquecem que, tal como eles, o trigo continua a crescer, indiferente aos remoinhos da aragem e o voo das aves se precipita em obscuros abismos. E isso, que importa? A bola rola, redonda e lesta, na alegria do aqui e agora.

que nos diz a bola
rolando pela calçada?

- a vida é agora
que importa a hora que passa
se a alegria nos demora?

4 de junho de 2006

Filho do vento

caval1.jpg
[Foto: Carlos Fernandes]

Sou filho do vento e trago o fogo no peito. Se aqui me vês de freio na boca, ajaezado e submisso, nada te diz do tempo que passo calcorreando montes e prados, saltando valas e silvados, as crinas ao sabor da brisa. Por breves instantes, te pareço o que não sou. Mas o meu verdadeiro ser não tem peias nem amarras e o meu secreto nome é apenas conhecido por quantos amam a liberdade.

de crinas ao vento -
sob as patas do cavalo
a terra estremece

um clamor de liberdade
ecoando na planície

3 de abril de 2006

memória de abril

25abril.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

Que música silenciou as armas naquele distante dia de Abril? Lembro-me que havia sorrisos ornando as faces da gente que acudiu à rua, a confirmar a urgência daquele grito de liberdade. Havia ecos de canções proibidas retinindo nas praças. E o clamor das palavras reprimidas, enfim voando entre as pombas alvoroçadas. E lembro-me que havia um aroma de cravos de todas as cores perfumando o ar.

calaram-se as armas
engalanadas de cravos
- fez-se Primavera

e um grito de liberdade
riscou o azul do céu

26 de fevereiro de 2006

bailarico estremenho

bailarico.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

A alegria permanece no âmago da gente, silenciosa e queda como um animal em hibernação. Mas de vez em quando é preciso esquecer mágoas e canseiras. O riso vem ao de cima e toma conta dos rostos cismáticos e frios, fazendo-os vibrar como as cordas de uma viola. Surge das entranhas e apodera-se do peito, das pernas e dos braços, activando-os numa explosão vital. E nas gargantas se ateia o canto e os corpos irrompem numa dança enérgica, trazendo do fundo dos tempos os ritmos e as melodias do bailarico dos nossos avós.

há festa na eira -
valseiam os bailadores
ao som da tocata

dando asas à alegria
contra mágoas e canseiras

28 de janeiro de 2006

a arte de tricotar a pedra

tricotarapedra.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

Ensina-me a arte de tricotar a pedra e a tecer o cordame dos navios na brancura leitosa do calcário. Quero apartar da massa amorfa a saga barroca dos marinheiros de antanho. Partir de cinzel na mão em busca das plantas e dos bichos exóticos das Índias Orientais. Navegar entre as volutas dos capitéis com a clarividência do sol nascente. Lançar âncora no imaginário de um porto longínquo. E, por fim, assinar nas lajes polidas pelo tempo com as sombras do entardecer.

quero entretecer
o cordame dos navios
com o meu cinzel

e navegar à bolina
num mar de pedra calcária

1 de janeiro de 2006

O jogo do Tempo

jogodotempo.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

Acabou a partida. Cartas na mesa, vamos a outra, que a sorte está de novo lançada.
Tudo é de novo possível, que nem sempre ganha quem mais trunfos tem. E não é preciso trazer cartas na manga ou fazer batota rasteira. Basta abrir os olhos e afinar uma estratégia franca e corajosa. E os «ases», as «biscas», os «reis», as «damas» e os «valetes» voltam a embainhar as «espadas», arrecadam os «paus», fecham-se em «copas» …e são obrigados a abrir mão dos «ouros», devolvendo-os a quem de direito.
Pode ser assim o jogo do Tempo!

No jogo do Tempo
não há batota que vingue
- nem cartas na manga.

Só ganha quem enfrentar
a «má sorte» cara-a-cara.

4 de dezembro de 2005

a festa dos olhos

olhos.jpg
(Foto de Carlos Fernandes)

É dia de aniversário e a impaciência da menina mal consegue aguentar as etapas do ritual festivo: o soprar das velas, o cortar do bolo, a abertura das prendas. Com o corpo tolhido pelas convenções dos adultos, a pequena antecipa as surpresas a que tem direito. E os seus olhos irrequietos saltitam como dois passarinhos debicando migalhas sobre a mesa.

olhos de menina -
são estrelas cintilantes
brilhando no escuro

passarinhos curiosos
saltitando sobre a mesa

31 de outubro de 2005

o sorriso dos meninos

arame_farpado.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

Para lá do arame farpado, os rostos dos meninos a quem roubaram o sorriso, suspensos numa pergunta: o que foi que aconteceu?
Que loucura foi esta que nem o olhar límpido das crianças foi capaz de suster? Porque é que, depois de tantos anos, tanta dor, tantas lágrimas, tantas palavras sentidas, o arame farpado continua a estar ali, aqui, além, roubando o sorriso dos meninos?

já não há sorrisos
nos rostos por detrás
do arame farpado

apenas um olhar
apenas uma pergunta