24 de novembro de 2003

Pipilar de pássaros.
No ar frio da manhã,
O sol espreguiça-se.

A brisa traz o odor
De laranjas descascadas.

23 de novembro de 2003

Aves migratórias -
Passam as nuvens no céu
Ensombrando o sol.

22 de novembro de 2003

Pinheiro ao crepúsculo -
O vermelho do horizonte
Incendeia as nuvens.

Adormece na penumbra
O vulto sereno das casas.

21 de novembro de 2003

Povoando a turfa -
Com as chuvas de Outono,
Acordam os fungos.

Tracejado a giz -
Um anel de cogumelos
Na clareira aberta.

Na cúpula rubra,
Salpicos de «chantilly» -
O sonho de Alice.

20 de novembro de 2003

Passeio no bosque –
Na luz velada da tarde,
O manto de musgo.

O melro debica as bagas
Rubras do medronheiro.

19 de novembro de 2003

Vénia matinal -
Cedem as folhas das canas
Ao peso do orvalho.

18 de novembro de 2003

9h20

No passeio público,
À procura de migalhas –
Pardal solitário.

13h00

O vento sacode
As folhas do velho choupo –
Chuva de confeitos.

18h00

Serpente de luz –
A fila de automóveis
De regresso a casa.

17 de novembro de 2003

09h00

A chuva de Outono
Vestiu os campos de verde –
Ovelhas no pasto.

14h00

Tráfego voraz –
O cadáver de um cão
Na beira da estrada.

17h00

Sombras no riacho –
Abraçados, os ulmeiros
Mergulham na água.

21h30

A noite arrefece –
Solta-se o odor da cinza
Do lume apagado.

16 de novembro de 2003

O vento agita
A roupa no estendal -
Bandeiras içadas.

Na brancura dos lençóis,
Um manifesto de paz.

15 de novembro de 2003

Laranjal no Outono -
Acorda a luz do Verão
Entre as folhas verdes.

Ignorando a chuva -
Nos braços da laranjeira
Há sóis pendurados.

Na mesma ramada -
Convivem os frutos antigos
Com as laranjas novas.

14 de novembro de 2003

Nas pedras do monte
Viceja o alecrim -
Verde eremita.

13 de novembro de 2003

Despoja-se o plátano


Despoja-se o plátano -
O tapete de folhas secas
Geme sob os pés.

12 de novembro de 2003

Fim de dia: a luz sumida do crepúsculo. A brisa mal se faz notar, é quase um suspiro. O nevoeiro estende-se lentamente, como um véu gigantesco que tudo abafa. O seu abraço húmido e pardo confere um tom irreal à paisagem. Na berma da estrada, as árvores imóveis são vultos fantasmagóricos de braços estendidos. Vigiam a chegada da noite.

Espectros calados -
As oliveiras antigas
Na névoa de Outono.

11 de novembro de 2003

Canto ao vinho novo

Canto o vinho novo
Gorgolejando das pipas
Ofegante na trasfega

Canto o suor da labuta
Misturado na dorna
Ao sangue das uvas tintas

Canto o odor da adega
Plena de ventres bojudos
De venerável madeira

Canto a memória dos cestos
Encostados à parede
Fantasiando a vindima

Canto o travo da terra
E o brilho vermelho do sol
Nos jarros de barro liso

Canto a dança dos copos
Tinindo saudações
Aos frutos da novel colheita

Canto e bebo um trago
Olhando a nudez da vinha
Aspirando o ar da tarde

10 de novembro de 2003

Ressentem-se os ossos
Na humidade do dia –
Outono do corpo.

9 de novembro de 2003

A luz do luar
Avoluma o mistério
Da árvore quieta.

A nuvem abranda
A sua marcha vagabunda -
Emudece a brisa.

O beijo da treva
No rosto lunar da deusa -
É noite na noite.

Cala-se o rumor
Da nocturna criatura -
Eclipse da lua.

8 de novembro de 2003

Tanka – Ursinho verde

Sentinela atenta
Da infância longínqua:
O ursinho verde.

Na mesa-de-cabeceira,
Uma migalha do tempo.

7 de novembro de 2003

Bruma arroxeada -
Flores tardias da urze
Na berma da estrada.

6 de novembro de 2003

Sob a acção do vento, o salgueiro que cresce encostado à ponte afaga a cabeça dos peões apressados que atravessam o rio, com os seus longos, finos e verdes ramos.

Verde agitação -
Os cabelos do salgueiro
Debruçado no rio.

Passeia o vento
Nos ramos em desalinho -
Amante inquieto.

Carícias maternas -
Na cabeça dos passantes
O afago da árvore.

5 de novembro de 2003

Numa das ruas da cidade, uma árvore largou todas as suas folhas, redondas e amarelas, que atapetam o chão do passeio como pequenos sóis muribundos...

Reflexo amarelo
do pálido sol de Outono -
A folha no chão.

4 de novembro de 2003

Flores na muralha -
Odores de Primavera
Em pleno Outono.

3 de novembro de 2003

Chuva

Seio transparente
Deslizando na vidraça -
A gota de chuva.

Lágrima de amor?
Gota de água sensual
Na janela fechada.

2 de novembro de 2003

Tanka

As musas do Lis*
Morreram assassinadas
Às portas da urbe.

Jazem no fundo do rio
Submersas pelos detritos.

*Líseas era o nome dado às ninfas inspiradoras do Lis, o rio que nasce (e morre) próximo de Leiria, transformado num esgoto imundo.

Enxurrada

Do ventre da terra
Brotam as águas do rio -
Tímido regato.

O impulso da chuva
Açoita as águas do rio -
Cresce a enxurrada.

O bramir do vento
Excita as águas do rio -
Bicho acossado.

A curva da várzea
Acanha as águas do rio -
Irrompe das margens.

O beijo da terra
Tempera as águas do rio -
Fecunda a planície.

Um desejo ardente
Fustiga as águas do rio -
O abraço do mar.

1 de novembro de 2003

Surpresa de Outono -
Após a chuva nocturna,
O dia lavado.

Depois do fogo


(Em memória do incêndio que devastou a Senhora do Monte, Cortes - Leiria, no final do Verão de 2003)

A chuva corrói
As chagas negras do fogo
Na encosta do monte.

Sob o aguaceiro,
Um longo traço a negro
Varre o horizonte.

Há cinza no chão,
Cinza no céu carregado,
Na água que corre…

No pranto da chuva,
A morte cruel das árvores.
Não mais vão florir.

Perdido no fumo,
O voo gracioso das aves.
Não mais vão cantar.

Fantasmas sem voz.
Os esqueletos calcinados
Da vegetação.

Sementeira de pedras.
Arrebatada na torrente,
A alma da terra.

31 de outubro de 2003

1
Saraivada forte.
A chuva enlouquece o tráfego
À hora de ponta.

2
Lágrimas geladas
Abatem-se sobre os carros.
Verte-se o pedraço.

3
Queda de granizo.
As duras mágoas do mundo
Transbordam do céu.

30 de outubro de 2003

A árvore da árvore



A árvore dourada
passou todo o Verão
injectando sol nas veias.

No fim do estio,
as cores quentes do sol
sobem à orla da árvore.

A árvore troca
a verde indumentária
por um soberbo vestido de gala:

amarelos magníficos,
laranjas opulentos,
vermelhos arrebatados.

Com o Outono,
tornam-se escarlate profundo
todas as folhas da árvore

A árvore despede-se
das cores que acumulou na seiva
e fica nua, absorta.

Indiferente à borrasca,
oculto no seio da árvore,
o vigor de um sonho primaveril.

29 de outubro de 2003

pausa na poesia

bloqueio da inspiração
pelo cansaço do dia

(a musa foi demitida)

28 de outubro de 2003

As pedras imóveis
Ignoram a chuva forte
Lavando a rua.



Falsas mariposas.
No turbilhão da borrasca,
Voam folhas mortas.



Chaga incurável
Na encosta da montanha -
Rasgão de pedreira.