25 de janeiro de 2004

Apanhas laranjas -
A laranjeira envolve-te
de flores brancas.

Misturam-se com o teu
os odores da árvore.

24 de janeiro de 2004

O cantar do vento
Embala a dança das árvores -
O sol adormece.

Solta-se do teu corpo nu
Um perfume de poema.

23 de janeiro de 2004

Pardo entardecer -
Uma humidade espessa
Cobre o horizonte.

Refugia-se o gato
No aconchego da casa.

21 de janeiro de 2004

esvoaçam pombas
no incêndio do poente

verso a verso
vai ardendo
a página de mais um dia

20 de janeiro de 2004

o sol da manhã
brilha nos teus olhos

flutua na brisa
o teu bafo quente

meu corpo estremece

19 de janeiro de 2004

entre as colinas
do teu corpo

com gotas de suor
escrevo
o meu nome

18 de janeiro de 2004

palavras
dispersas no éter

as estrelas
compõem
o poema celeste

17 de janeiro de 2004

No cerne da folha -
A brancura do papel
Reclama o poema.

Relembra o murmúrio doce
Do vento na árvore.

16 de janeiro de 2004

Nervuras azuis
Alastram
Sobre o papel encharcado.

Dissolve-se o poema
Na água da chuva.

15 de janeiro de 2004

Derrama-se a lua -
Pirilampos cor de mel
Nos olhos do gato.

14 de janeiro de 2004

13 de janeiro de 2004

O musgo afaga
O tronco nodoso e rude
Da velha oliveira

Velando a terra adubada
Pelo suor de gerações.

12 de janeiro de 2004

Memória de pedra
Cunhada na concha remota
Pelo afinco do tempo:

A palavra -
Matéria ancestral
do poema.

11 de janeiro de 2004

O cio dos gatos
Enche a noite de ecos.

Felina sedução
Feita de lamentos e garras
E ternas rendições.

10 de janeiro de 2004

o reflexo do sol
raspa o zebre das palavras
do riso mudo das estátuas

poema submerso
pelo musgo do tempo

9 de janeiro de 2004

soltam-se as palavras
à desfilada
na praia deserta

rumor de corcéis
sorvendo a maresia

8 de janeiro de 2004

a centelha do
poema dorme num
punho fechado

abre-se a mão
torna-se ave
Fugindo da chuva -
Vou ao ritual do café
Espantar o sono.

Amarga-se-me a boca
Por este dia cinzento.

7 de janeiro de 2004

Na aragem gelada -
O choupal à beira rio
Agita os braços.

Dedos esguios e nus
Interpelam a cidade.

6 de janeiro de 2004

Ave com raiz -
Balouça a longa couve
Numa pata só.

5 de janeiro de 2004

Abriga-se o muro
Num manto de trepadeiras
Do rigor do Inverno.

O sol rasante da tarde
Encandeia os transeuntes.

4 de janeiro de 2004



No prado de azedas -
Oscilam sinetas mudas
Sobre a erva baixa.

A brisa fria da tarde
Suspira entre a folhagem.

3 de janeiro de 2004

Luar de Janeiro -
A deusa empalidece
Na teia de névoa.

Os gatos entoam longos
Cânticos de sedução.

2 de janeiro de 2004



Bola de sabão -
Caleidoscópio de sonhos
Ao sabor da brisa.

Reflecte-se o mundo todo
Nos olhos de uma criança.

1 de janeiro de 2004

A noite ilumina-se
Com o fogo de artifício -
Presságio dos céus.

O barulho dos foguetes
Afugenta o ano velho.

31 de dezembro de 2003

Horizonte opaco -
Embaciado de chuva
Se despede o ano.

30 de dezembro de 2003

Pincelada verde
Sobre a trama avermelhada
Dos telhados baixos.

Uma horta clandestina
Alastra por entre as telhas.

29 de dezembro de 2003

A Marcel Marceau



Abres o corpo à
Clarividência dos gestos.
Dás voz ao silêncio.

Das tuas mãos brota um rio
Donde bebo a vida inteira.

26 de dezembro de 2003



Passadas as águas do Outono, o Inverno vem encontrar lavadas da cinza as pedras dos montes ardidos no último Verão. Entre os troncos enegrecidos, as covas deixadas pelas fumarolas e algum lixo, também ele sinal da incúria dos homens, a vida volta a manifestar-se com todo o vigor. Rebentam os carrascos, as moitas e os eucaliptos; despontam os alhos-porros e os fetos; florescem o alecrim, as dedaleiras e as margaridas campestres.
No frio do Inverno, sob um ar denso de névoa, à luz de um sol tímido, a Natureza antecipa a Primavera com um sopro de esperança renovada. É Natal.


O verde da esperança
Brotando no tronco negro
Da árvore queimada.

Desperta o vigor da seiva
Numa espiral de rebentos.

25 de dezembro de 2003

Noite de Natal -
No espelho da geada
O brilho das ‘strelas.

O som dos sinos acorda
Ecos na rua deserta.