29 de fevereiro de 2004

para lá
do corrupio das nuvens
do voo dos pássaros
do fragor do mar

demora-se o estio

e com ele
o júbilo dos dias

28 de fevereiro de 2004

neva

o vento espalha
sobre a serrania
a pele branca do frio

como uma página trémula

27 de fevereiro de 2004

a jornada dos dedos
inflama o desejo
na polpa das ancas

alvoroço dos corpos
entre o fogo e o gelo

26 de fevereiro de 2004

onde a flor de papel
se entregou
às carícias do fogo

um punhado de cinzas
e o odor da ausência

24 de fevereiro de 2004

a barca da lua
navega comigo
no grande mar de breu

um casulo de luz
que se move
ao ritmo dos passos

mão cheia de nada
com destino
a parte incerta

22 de fevereiro de 2004

Carnaval barroco



A máscara branca
da lua de Veneza
brinca nos canais.

Traz entre as mãos o
coração de Pierrot.

21 de fevereiro de 2004


(Foto de Carlos Fernandes)
Depois da devastação do fogo, vem a água fustigar as encostas do monte. Sem a protecção da cobertura vegetal, consumida pelo incêndio do final de Verão, a enxurrada galga as vertentes com devoradora fúria. Arrasta consigo tudo o que apanha pela frente, rasgando até o próprio ventre da terra. Uma crença antiga afirma que os pecados dos homens acirram a ira dos deuses. A verdade é que os erros dos humanos recaem muitas vezes sobre a própria natureza e, depois desta, em si próprios…

Após o fogo -
O monte é fustigado
Pela fúria das águas.

O ímpeto da enxurrada
Rasga o ventre da terra.

20 de fevereiro de 2004

Camomilas
bordando a ponto cruz
o verde dos prados.

Entre pétalas brancas
a face breve do sol.

19 de fevereiro de 2004

na silhueta das mãos
movem-se os
pássaros da alvorada

são as palavras
desfilando
no dorso do poema

18 de fevereiro de 2004

no espelho de água
tremula a tua imagem
sob a acção da brisa

entrego o meu olhar
ao voo raso das aves

17 de fevereiro de 2004

a mão na fronte
confirma
a fadiga do corpo

na claridade parda
dos olhos
só o poema se agita

16 de fevereiro de 2004

angústia

...
agitas um punhal de lava

sonhas o golpe que rasga
a amargura cruel da carne

algo obscuro ferve
no mais íntimo do sangue
e te impede de respirar

como um animal acossado
...

15 de fevereiro de 2004

A luz da aurora
rasga o ventre da noite
ébria de poemas.

A insónia das palavras
arde nos olhos
e na boca dos poetas.

14 de fevereiro de 2004

No doce sussurro
do casal de namorados -
o júbilo das aves.

Trocam-se beijos e flores
debaixo da velha tília.

13 de fevereiro de 2004

pousas a cabeça
no macio da almofada

os olhos afrouxam

um delírio de asas
vem atiçar os sonhos

12 de fevereiro de 2004

No alto da escarpa
Ausente sob o nevoeiro -
O castelo dorme.

A penumbra matinal
Envolve a cidade opaca.

11 de fevereiro de 2004

Sorriso aberto -
estende a mão à caridade
a criança suja.

Ecoa o «cante» andaluz
na voz limpa do cigano.

10 de fevereiro de 2004

Rendas cor-de-rosa
sobre um corpo sinuoso.

A árvore nua
cede às carícias do sol
e antecipa a Primavera.

9 de fevereiro de 2004

O beijo do sol
deixa pérolas de luz
na erva orvalhada.

Resplandece
a manhã clara
na moldura
dos teus olhos.

8 de fevereiro de 2004

As palavras
habitam as pessoas
que habitam as casas.

As casas envelhecem
com as pessoas
que as habitam.

As palavras permanecem
jovens e eternas
no refúgio do poema.

7 de fevereiro de 2004

A cidade acorda
embrulhada em névoa.

Torna-se difuso o que
é concreto e concreto
o que é difuso.

6 de fevereiro de 2004

Bola fugitiva
jazendo no meio do chão -

Nos fragmentos do
vidro quebrado, espelha-se
o sol em mil reflexos.

5 de fevereiro de 2004

No pátio da escola -
O perfume das mimosas
Satura a brisa

E envolve meigamente
O beijo dos namorados.

4 de fevereiro de 2004

o riso cheio
da lua
fita a rosa do poente

namoro
ao entardecer

3 de fevereiro de 2004

abro as vestes
ao sopro morno da brisa

ao doce afago do sol

e afugento
as angústias do Inverno

2 de fevereiro de 2004

mergulho as mãos
no desalinho das letras
(negras de tinta)

na alvura do papel
o rasto do poema

31 de janeiro de 2004

eu digo, tu dizes

eu digo:
o poema é uma espécie de sussurro
mordendo a carne do verbo.
tu dizes:
as aves da tarde rasgam a mordaça,
soltando as palavras adormecidas.
eu digo:
nas carícias da árvore, o vento rende-se
à melodia que enche as ruas de cinzas.
tu dizes:
sob a página líquida da névoa,
a quimera do sol refugia-se no sono das pedras.
eu digo:
a escova dos dedos
penteia os nervos da erva.
tu dizes:
com o palpitar dos sexos,
dissimula-se a indolência das papoilas.
eu digo:
o céu abre-se, pródigo de chuva mansa
e açoita ternamente o corpo dos amantes.
tu dizes:
na água que me escorre dos cabelos
ocultam-se as lágrimas que não chorei.
eu digo:
não beijes as sombras
que se escoam com o entardecer.
tu dizes:
não supliques, não confesses,
não perdoes.
eu digo:
deixa-me mergulhar os olhos
na areia quente das tuas pernas.
tu dizes:
a tua saliva é como o gelo
endurecido na alvura das pétalas.
eu digo:
da chaga das minhas mãos
verte-se o desejo cálido das manhãs.
tu dizes:
os teus beijos falam de ilhas
perdidas no oceano das palavras.
eu digo:
o teu corpo
é o meu poema ardente.
tu dizes:
a minha carne
é a tua carne.
eu digo:
partamos, embalados pelos odores
na espuma da maré baixa
tu dizes:
partamos, até que a alvorada
nos pese nas pálpebras.
no doce pergaminho
da tua pele

traço com as unhas
o mapa inacessível
do meu desejo

30 de janeiro de 2004

Um cavalo
galopa entre as nuvens
do entardecer.

Traz a brisa nos cascos
e o fogo do sol poente.

28 de janeiro de 2004

Pombas pousadas
na pauta
aérea dos fios

treinam solfejo na
escala dos arrulhos.