11 de março de 2004

o vento arrasta o pólen

Ao rei trovador D. Dinis

Num ligeiro remoinho
o vento arrasta o pólen
das flores do verde pino.

E traz consigo a memória
do velho rei trovador:
- Ai flores do verde pino.

Quem suspira mansamente
pelos pinhais do litoral?
Será o vento ou o mar?

Ou serão ainda os ecos
duma cantiga de amigo?
- Ai flores do verde pino.

Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão
soa a mágoa do poeta:

- Ainda ouvis minha voz?
Ainda vos lembrais de mim
ó flores do verde pino?

Mas só responde o murmúrio
do vento que arrasta o pólen
das flores do verde pino.

10 de março de 2004

mênstruo telúrico -
a flor púrpura do trevo
sangrando na erva

9 de março de 2004

aqueço a voz
na imperfeita ponte
da palavra

gaivota sem rumo
entre ilhas solitárias

8 de março de 2004

voa borboleta -
os meus olhos vão contigo
de flor em flor.

7 de março de 2004

quando bebias
a água cristalina
dos riachos

e enfeitavas as orelhas
com a alvura
da flor do sabugueiro

e guardavas as palavras
apenas para
os momentos graves

eu ouvia mais
no teu silêncio
que no canto persistente
das aves

6 de março de 2004

acima do arrazoado
do tráfego

o voo delicado
da garça

por um momento
tudo pára

tudo paira

e os olhos batem asa
no rasto oblíquo
da ave

5 de março de 2004

as gotas de chuva
sobre o lírio boquiaberto

contas de cristal
no veludo roxo
da paixão

ou lágrimas talvez

4 de março de 2004

acordam as árvores
num orgasmo vegetal
rendidas ao cio

rodopia no ar denso
a penugem dos salgueiros

2 de março de 2004

volátil é a palavra
tecida
na periferia da boca

libertando-se da tinta
entranhada
nas fibras da página

palavra dita
palavra viva

29 de fevereiro de 2004

para lá
do corrupio das nuvens
do voo dos pássaros
do fragor do mar

demora-se o estio

e com ele
o júbilo dos dias

28 de fevereiro de 2004

neva

o vento espalha
sobre a serrania
a pele branca do frio

como uma página trémula

27 de fevereiro de 2004

a jornada dos dedos
inflama o desejo
na polpa das ancas

alvoroço dos corpos
entre o fogo e o gelo

26 de fevereiro de 2004

onde a flor de papel
se entregou
às carícias do fogo

um punhado de cinzas
e o odor da ausência

24 de fevereiro de 2004

a barca da lua
navega comigo
no grande mar de breu

um casulo de luz
que se move
ao ritmo dos passos

mão cheia de nada
com destino
a parte incerta

22 de fevereiro de 2004

Carnaval barroco



A máscara branca
da lua de Veneza
brinca nos canais.

Traz entre as mãos o
coração de Pierrot.

21 de fevereiro de 2004


(Foto de Carlos Fernandes)
Depois da devastação do fogo, vem a água fustigar as encostas do monte. Sem a protecção da cobertura vegetal, consumida pelo incêndio do final de Verão, a enxurrada galga as vertentes com devoradora fúria. Arrasta consigo tudo o que apanha pela frente, rasgando até o próprio ventre da terra. Uma crença antiga afirma que os pecados dos homens acirram a ira dos deuses. A verdade é que os erros dos humanos recaem muitas vezes sobre a própria natureza e, depois desta, em si próprios…

Após o fogo -
O monte é fustigado
Pela fúria das águas.

O ímpeto da enxurrada
Rasga o ventre da terra.

20 de fevereiro de 2004

Camomilas
bordando a ponto cruz
o verde dos prados.

Entre pétalas brancas
a face breve do sol.

19 de fevereiro de 2004

na silhueta das mãos
movem-se os
pássaros da alvorada

são as palavras
desfilando
no dorso do poema

18 de fevereiro de 2004

no espelho de água
tremula a tua imagem
sob a acção da brisa

entrego o meu olhar
ao voo raso das aves

17 de fevereiro de 2004

a mão na fronte
confirma
a fadiga do corpo

na claridade parda
dos olhos
só o poema se agita

16 de fevereiro de 2004

angústia

...
agitas um punhal de lava

sonhas o golpe que rasga
a amargura cruel da carne

algo obscuro ferve
no mais íntimo do sangue
e te impede de respirar

como um animal acossado
...

15 de fevereiro de 2004

A luz da aurora
rasga o ventre da noite
ébria de poemas.

A insónia das palavras
arde nos olhos
e na boca dos poetas.

14 de fevereiro de 2004

No doce sussurro
do casal de namorados -
o júbilo das aves.

Trocam-se beijos e flores
debaixo da velha tília.

13 de fevereiro de 2004

pousas a cabeça
no macio da almofada

os olhos afrouxam

um delírio de asas
vem atiçar os sonhos

12 de fevereiro de 2004

No alto da escarpa
Ausente sob o nevoeiro -
O castelo dorme.

A penumbra matinal
Envolve a cidade opaca.

11 de fevereiro de 2004

Sorriso aberto -
estende a mão à caridade
a criança suja.

Ecoa o «cante» andaluz
na voz limpa do cigano.

10 de fevereiro de 2004

Rendas cor-de-rosa
sobre um corpo sinuoso.

A árvore nua
cede às carícias do sol
e antecipa a Primavera.

9 de fevereiro de 2004

O beijo do sol
deixa pérolas de luz
na erva orvalhada.

Resplandece
a manhã clara
na moldura
dos teus olhos.

8 de fevereiro de 2004

As palavras
habitam as pessoas
que habitam as casas.

As casas envelhecem
com as pessoas
que as habitam.

As palavras permanecem
jovens e eternas
no refúgio do poema.

7 de fevereiro de 2004

A cidade acorda
embrulhada em névoa.

Torna-se difuso o que
é concreto e concreto
o que é difuso.