22 de março de 2004

Num rude afago -
o vento agreste despenteia
os canaviais.

21 de março de 2004

«a emergência livre da palavra*»

(no Dia Mundial da Poesia)

há quem se roje no chão em desespero
há quem erga as mãos ao céu e reze

há quem pinte quadros
há quem medite
há quem árvores plante
livros semeie

eu reservo apenas
em cada dia
um sítio para as palavras
em liberdade
e me entrego nú em suas mãos

sereno
assim enfrento
na exaltação da poesia
o desenlace incerto dos amanhãs

* Da mensagem de Koichiro Matsura, director-geral da UNESCO.

20 de março de 2004

Primavera

Enche-se de risos o bosque
Onde as ninfas festejam
O sol primaveril.

Em louca cavalgada
Sobre o dorso dos faunos
A nudez das musas
Evoca a inocência
Dos tempos antigos.

O sopro de Zéfiro
Vibra na flauta de Pã.

Incitando a arremetida
Selvagem dos sátiros
Dionísio acende
A loucura perene
No ventre das bacantes.

A brisa fecunda
As flores da Hélade
Com a memória do mito.

19 de março de 2004

mar bravo

o baque das ondas
atordoa a noite

a exaltação da espuma
salga o vento agreste

há mulheres
de pele enrugada
nas sombras da praia

guardam a memória
dos antigos náufragos
sob os xailes negros

Praia da Nazaré

18 de março de 2004

pelos olhos do poema
sou actor
e testemunha

no teatro
branco e negro
das emoções

17 de março de 2004

A Nau Catrineta nunca voltou

Ao poeta Joaquim Evónio

aprendiz de marinheiro
lanço meu repto ao mar

espero a Nau Catrineta
que um dia há-de voltar

meus olhos vogam nas ondas
mas não chego a embarcar

e sobre a areia da praia
fico sentado a sonhar

só me restam as palavras
com que teço o meu cantar

16 de março de 2004

no vão da escada
clandestino
o amor

a faina dos corpos
incendeia a penumbra

enche a casa deserta
de súplicas

ofegante
rendido
jaz

o amor
clandestino
no vão da escada

15 de março de 2004

Desejo de ave
no papagaio de papel
voando na praia

e que em vã correria
tenta seguir as gaivotas.

14 de março de 2004

Amanhece o sol
Sobre os galhos partidos
Pela tempestade

Tornam-se douradas
As flores do tojo

Os ternos salgueiros
Encostam as cabeleiras
Em longas carícias

Balançam suavemente
Os cachos dos lilases

O eco dos pássaros
Volta a encher o bosque
De alegres trinados

Árvores flores e aves
Entoam um hino à vida

13 de março de 2004

um piano é uma ave
que despiu as asas
na metamorfose do ébano

entre o marfim e o aço
ensaia o voo
sem largar o solo

12 de março de 2004

Os mártires de Guernica acordaram em Madrid

«El sueno de la razon produce monstruos»
(título de uma gravura de Francisco Goya)


Os mártires de Guernica acordaram
em Madrid

os corpos trucidados dão notícia da guerra
mesmo em tempo de paz

os carniceiros firmam as suas causas no desespero
na morte, no horror e no medo

e prestam culto ao grande bode do baile das bruxas
imolando as mesmas vítimas de sempre:

os inocentes.

Carlos Alberto Silva
11 Março 2004

11 de março de 2004

o vento arrasta o pólen

Ao rei trovador D. Dinis

Num ligeiro remoinho
o vento arrasta o pólen
das flores do verde pino.

E traz consigo a memória
do velho rei trovador:
- Ai flores do verde pino.

Quem suspira mansamente
pelos pinhais do litoral?
Será o vento ou o mar?

Ou serão ainda os ecos
duma cantiga de amigo?
- Ai flores do verde pino.

Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão
soa a mágoa do poeta:

- Ainda ouvis minha voz?
Ainda vos lembrais de mim
ó flores do verde pino?

Mas só responde o murmúrio
do vento que arrasta o pólen
das flores do verde pino.

10 de março de 2004

mênstruo telúrico -
a flor púrpura do trevo
sangrando na erva

9 de março de 2004

aqueço a voz
na imperfeita ponte
da palavra

gaivota sem rumo
entre ilhas solitárias

8 de março de 2004

voa borboleta -
os meus olhos vão contigo
de flor em flor.

7 de março de 2004

quando bebias
a água cristalina
dos riachos

e enfeitavas as orelhas
com a alvura
da flor do sabugueiro

e guardavas as palavras
apenas para
os momentos graves

eu ouvia mais
no teu silêncio
que no canto persistente
das aves

6 de março de 2004

acima do arrazoado
do tráfego

o voo delicado
da garça

por um momento
tudo pára

tudo paira

e os olhos batem asa
no rasto oblíquo
da ave

5 de março de 2004

as gotas de chuva
sobre o lírio boquiaberto

contas de cristal
no veludo roxo
da paixão

ou lágrimas talvez

4 de março de 2004

acordam as árvores
num orgasmo vegetal
rendidas ao cio

rodopia no ar denso
a penugem dos salgueiros

2 de março de 2004

volátil é a palavra
tecida
na periferia da boca

libertando-se da tinta
entranhada
nas fibras da página

palavra dita
palavra viva

29 de fevereiro de 2004

para lá
do corrupio das nuvens
do voo dos pássaros
do fragor do mar

demora-se o estio

e com ele
o júbilo dos dias

28 de fevereiro de 2004

neva

o vento espalha
sobre a serrania
a pele branca do frio

como uma página trémula

27 de fevereiro de 2004

a jornada dos dedos
inflama o desejo
na polpa das ancas

alvoroço dos corpos
entre o fogo e o gelo

26 de fevereiro de 2004

onde a flor de papel
se entregou
às carícias do fogo

um punhado de cinzas
e o odor da ausência

24 de fevereiro de 2004

a barca da lua
navega comigo
no grande mar de breu

um casulo de luz
que se move
ao ritmo dos passos

mão cheia de nada
com destino
a parte incerta

22 de fevereiro de 2004

Carnaval barroco



A máscara branca
da lua de Veneza
brinca nos canais.

Traz entre as mãos o
coração de Pierrot.

21 de fevereiro de 2004


(Foto de Carlos Fernandes)
Depois da devastação do fogo, vem a água fustigar as encostas do monte. Sem a protecção da cobertura vegetal, consumida pelo incêndio do final de Verão, a enxurrada galga as vertentes com devoradora fúria. Arrasta consigo tudo o que apanha pela frente, rasgando até o próprio ventre da terra. Uma crença antiga afirma que os pecados dos homens acirram a ira dos deuses. A verdade é que os erros dos humanos recaem muitas vezes sobre a própria natureza e, depois desta, em si próprios…

Após o fogo -
O monte é fustigado
Pela fúria das águas.

O ímpeto da enxurrada
Rasga o ventre da terra.

20 de fevereiro de 2004

Camomilas
bordando a ponto cruz
o verde dos prados.

Entre pétalas brancas
a face breve do sol.

19 de fevereiro de 2004

na silhueta das mãos
movem-se os
pássaros da alvorada

são as palavras
desfilando
no dorso do poema

18 de fevereiro de 2004

no espelho de água
tremula a tua imagem
sob a acção da brisa

entrego o meu olhar
ao voo raso das aves