27 de maio de 2004

nos braços do ocaso -
numa ingenuidade rósea
desfalece a tarde

23 de maio de 2004

as mãos em abandono
celebram o oriente

o delírio da pele
ardendo nos dedos

e uma sede oblíqua
exaltando o sangue

na maciez da erva
bebo dos teus lábios
o orvalho matinal

22 de maio de 2004

o gorjeio das aves
despede-se da trovoada

enche-se a manhã de ecos

e o sol brilha já
em cada gota de chuva

enche-se o vale de reflexos

21 de maio de 2004

na arte do ar
o mistério das palavras

a doce lucidez das aves
germina em segredo

um perfume arrancando
das sombras em carne viva

assim respira o poema
sob um tecido de bruma

19 de maio de 2004

na arte do fogo
se engendra o poema

da forja em chamas
emergem as palavras

e o verbo
no peito se incendeia

a voz se consumindo
em ouro e cinza

18 de maio de 2004

abraça-se a roseira
ao tronco descarnado
da árvore morta

e veste-a com as suas folhas
e enfeita-a com as suas flores
e envolve-a no seu perfume

assim permanecerão
- nuas, mas erectas -
quando a roseira morrer também

17 de maio de 2004

induziste o grilo
com o caule do feno
a abandonar a sua toca

e ele entoa agora
numa gaiola de cana
trovas à liberdade

16 de maio de 2004

quanta poesia
pode conter o aroma
de um fruto maduro

e o beijo do sol poente
na tua pele inquieta

15 de maio de 2004

maduras como beijos

as palavras
acordam o âmago da página

e o poema diz adeus
ao terno regaço da Primavera

13 de maio de 2004

parido entre musgos e penedos
o rio alisa o limo dos cabelos
com os dedos cristalinos da torrente

num langor de sereia prateada
inflama a planície em verde orgasmo
embalado pelo suspiro dos pinhais

corre então a saudar o sol poente
e prostrado se esvai na maré vaza

11 de maio de 2004

os cachos dourados
da nespereira
invocam as tuas carícias
à luz cálida
do sol de Verão

10 de maio de 2004

o poeta é
um grão de areia
na consciência do mundo

o poema é
a consciência do mundo
num grão de areia

a poesia é
o grão de areia
a consciência e o mundo

9 de maio de 2004

a palavra «azul»
não torna o arco-íris mais perene

a palavra «amanhã»
não torna a noite menos escura

a palavra «água»
não torna a sede mais suportável

a palavra «amor»
não torna a morte menos brutal

«azul», «amanhã», «água», «amor»
não são mais do que palavras

mas as palavras são o fermento do poema

8 de maio de 2004

colho da tua boca
o travo aromático das uvas

e bebo na tua voz
o sussuro verde da videira

enquanto as minhas mãos
se embriagam
com o vinho doce do teu corpo

7 de maio de 2004

o sol atiça o branco da cal
que veste as casas
estremunhadas pela bruma

o ar cheira a erva cortada
e o eco do sino traz consigo
o desassossego das aves

5 de maio de 2004

o ventre da névoa

 o ventre da névoa
regurgita lentamente
o perfil das árvores

e desvenda sem pudor
a curva ténue dos montes

4 de maio de 2004

Bailado frenético –
no sopro da ventania
esbracejam as árvores.

Gravetos, folhas e pétalas
riscam o céu num tumulto.

30 de abril de 2004

a flor do nenúfar



a flor do nenúfar
lembra os lábios lívidos
de Ofélia
engolida pelas águas
de um amor cruel

e o som do regato
traz o suspiro da sua voz

29 de abril de 2004

verde mansão


(Foto de Carlos Fernandes)

Testemunha de uma história secular, a velha árvore estende a fronde sobre o bosque e abre os braços às gerações de aves, insectos e outros animais que nela buscam abrigo e alimento. Na sua vocação maternal, a todos tolera com a mesma brandura e generosidade.

Nos braços abertos
do carvalho secular
se aninham os bichos

como uma verde mansão
que a Primavera povoa.

28 de abril de 2004

acorda

ouves o calor
afagando as pedras?

o grilo
exalta no seu cântico
o hálito róseo da madressilva

27 de abril de 2004

da húmida placidez
do caracol
restam apenas
a hélice da concha

e um rasto brilhante

25 de abril de 2004



A tarde ensolarada convida a um passeio a pé. Os campos estão já engalanados com as grinaldas da primavera. O ar rescende como uma donzela perfumada. Sob um renque de árvores frondosas, a sombra sugere uma pequena pausa. Os olhos depressa se habituam à penumbra. E descobrem uma massa escura entre os ramos de um arbusto baixo, fincado numa barreira do caminho: um ninho! Um segredo mal guardado, que a curiosidade tenta não perturbar, nem comprometer ...mas não resiste a uma espreitadela.

três ovos azuis
aguardam o calor da ave
ausente do ninho

a brisa da tarde vela
com cuidado maternal

23 de abril de 2004

Maré rosa e branca -
No pomar de macieiras
um manto de flores.

16 de abril de 2004

sorrateira
como chegou

a névoa retira-se

fugindo
dos avanços tímidos
do sol

15 de abril de 2004

Já se vê a lua -
Não adormece o jasmim
Nem o seu perfume.

Está escutando o ensaio
Da orquestra dos insectos.

14 de abril de 2004

mudar de casa é também
reencontrar velhas memórias
no fundo do baú

- os objectos da infância
os poemas da juventude
as fotos de sempre -

(quase) ilesas
da corrosão do tempo

13 de abril de 2004

[Em cada grão de poeira]

(À Isabel)

Em cada grão de poeira
volteando feito luz,
em cada praia desnuda,
em cada gesto, na sede,
evoco a tua memória,
meu amor, e emudeço.

Na flor da espuma rasgada,
nos teus olhos, meu amor,
nos gritos-ritos das mãos,
no beijo que se amotina,
nas cinzas do amor desfeito,

oiço o teu corpo sonhar,
oiço o meu sangue fluir,
meu amor, e emudeço.

É cada sorriso cheio
que desdobras nos meus braços
mais um sinal descerrando
o meu peito feito mar

É por ti o fôlego
é por ti a luz
é por ti a força

É por ti o amor

Carlos Alberto Silva
1984

12 de abril de 2004

enches as mãos de terra


enches as mãos de terra
e dedicas-te ao milagre
da multiplicação das plantas

há em ti o mesmo enlevo
com que geraste os filhos

crianças e plantas
encontram abrigo
no teu regaço telúrico

11 de abril de 2004


era Abril e fazia frio

os corpos vergavam-se
ao rigor de um longo Inverno

tangia-se a tristeza
pelas vielas de um povo
de alma moribunda

novos e velhos
amordaçavam o desejo

e o sangue secava
enclausurado
na certeza do martírio

depois, um dia
soltou-se uma canção fraterna

o sol amanheceu sorrindo
e os rostos desabrocharam
e as espingardas floriram

era Abril
e a Primavera tinha saído à rua

10 de abril de 2004

o que ficou na casa vazia

rectângulos claros
na parede
em lugar de quadros

riscos a lápis
assinalando o crescimento
das crianças

ecos antigos
de riso e choro

e um cheiro único
que levou anos
a fabricar

nada disso coube
na camioneta das mudanças