19 de junho de 2004

Pregão


do ardor da carne
emerge a palavra

na ebulição do sangue
sublimada

disputando o vento
corre o horizonte

sorvendo o ar frio
na praia serena

reclina-se um pouco
sobre o areal

tomando alento
no beijo da espuma

e ao sol do crepúsculo
ateia o poema

18 de junho de 2004

o perfume da maresia
envolve o corpo
em abandono

e cintila sobre a pele
como um queixume

anunciando a madrugada
no arrepio da brisa

17 de junho de 2004



Escondido nas pétalas
de um rubro botão de rosa -
O primeiro beijo.

16 de junho de 2004

como água
beijando
os sulcos da pedra

como vento
alisando
a palidez da areia

água e vento
o meu olhar em ti

15 de junho de 2004

alentejo


calam-se as aves

adormece na planura
o bafo do estio

só a água do regato
quebra o silêncio da tarde

e desmente a sede

14 de junho de 2004

olhos acesos na bruma
silenciosas e quedas
à beira da estrada

as criaturas da noite
farejam
o hálito das máquinas

mas destas
nem rasto nem rosto

apenas a vertigem do álcool

11 de junho de 2004



alucinação -
um rebanho de papoilas
pasta em silêncio

10 de junho de 2004

A Camões



Chorai ninfas do Tejo
e do Mondego
que o fraco batel do Poeta
naufragou

quando em apagada
e vil tristeza
a pátria que ele amava
se afogou

caladas estão a lírica
e a epopeia
que um dia à gente surda
ele cantou

das lívidas mãos
tombaram já
a dura espada e a doce pena
que empunhou

chorai ninfas, chorai,
chorai bem alto,
que o fraco batel do Poeta
naufragou

9 de junho de 2004

magra silhueta
de amarelo e verde
vestida

ao longo do tortuoso
caminho da serra -
o suave aceno da giesta

8 de junho de 2004

Insónia:

um animal aziago
devora as entranhas
da noite

e enche os olhos
de névoa e sal.

6 de junho de 2004



a alvura das pétalas
ilumina o verde silêncio
da magnólia

saberá a flor que
basta uma centelha
para acender o dia?

5 de junho de 2004



amarelo vibrante
entre o verde das ervas

o bater das asas
da borboleta

talvez o último

3 de junho de 2004

Saturnal

descem pelas dunas
os ébrios ventos
o ardor do cio atiçando o olhar

nos lábios molhados
uma prece pagã
zunindo na areia à luz do luar

em louca folia
correm praia fora
fecundando a noite co'a espuma do mar

2 de junho de 2004

armadilha do tempo
- a espera -
onde o devir se consome

o futuro já foi
e o passado
não chegou a ser

29 de maio de 2004

O espelho da eternidade


(Foto de Carlos Fernandes)

À sombra de um frondoso pinheiro, imóvel sobre a colina, o busto de bronze observa a paisagem polvilhada pela brancura das casas. Na esteira desse olhar, o íntimo declive dos montes abraça um horizonte sem nuvens. E o espelho quieto das águas reflecte o azul intemporal dos céus. Como se a eternidade fosse agora.

O busto contempla
- olhar cavado no bronze -
o vale soalheiro.

Nas águas quietas do tanque
o tempo adormeceu.

28 de maio de 2004

à beira do rio -
dorme o pescador à linha
esquecido da cana

canta a brisa no salgueiro
que lhe acaricia o rosto

27 de maio de 2004

nos braços do ocaso -
numa ingenuidade rósea
desfalece a tarde

23 de maio de 2004

as mãos em abandono
celebram o oriente

o delírio da pele
ardendo nos dedos

e uma sede oblíqua
exaltando o sangue

na maciez da erva
bebo dos teus lábios
o orvalho matinal

22 de maio de 2004

o gorjeio das aves
despede-se da trovoada

enche-se a manhã de ecos

e o sol brilha já
em cada gota de chuva

enche-se o vale de reflexos

21 de maio de 2004

na arte do ar
o mistério das palavras

a doce lucidez das aves
germina em segredo

um perfume arrancando
das sombras em carne viva

assim respira o poema
sob um tecido de bruma

19 de maio de 2004

na arte do fogo
se engendra o poema

da forja em chamas
emergem as palavras

e o verbo
no peito se incendeia

a voz se consumindo
em ouro e cinza

18 de maio de 2004

abraça-se a roseira
ao tronco descarnado
da árvore morta

e veste-a com as suas folhas
e enfeita-a com as suas flores
e envolve-a no seu perfume

assim permanecerão
- nuas, mas erectas -
quando a roseira morrer também

17 de maio de 2004

induziste o grilo
com o caule do feno
a abandonar a sua toca

e ele entoa agora
numa gaiola de cana
trovas à liberdade

16 de maio de 2004

quanta poesia
pode conter o aroma
de um fruto maduro

e o beijo do sol poente
na tua pele inquieta

15 de maio de 2004

maduras como beijos

as palavras
acordam o âmago da página

e o poema diz adeus
ao terno regaço da Primavera

13 de maio de 2004

parido entre musgos e penedos
o rio alisa o limo dos cabelos
com os dedos cristalinos da torrente

num langor de sereia prateada
inflama a planície em verde orgasmo
embalado pelo suspiro dos pinhais

corre então a saudar o sol poente
e prostrado se esvai na maré vaza

11 de maio de 2004

os cachos dourados
da nespereira
invocam as tuas carícias
à luz cálida
do sol de Verão

10 de maio de 2004

o poeta é
um grão de areia
na consciência do mundo

o poema é
a consciência do mundo
num grão de areia

a poesia é
o grão de areia
a consciência e o mundo

9 de maio de 2004

a palavra «azul»
não torna o arco-íris mais perene

a palavra «amanhã»
não torna a noite menos escura

a palavra «água»
não torna a sede mais suportável

a palavra «amor»
não torna a morte menos brutal

«azul», «amanhã», «água», «amor»
não são mais do que palavras

mas as palavras são o fermento do poema

8 de maio de 2004

colho da tua boca
o travo aromático das uvas

e bebo na tua voz
o sussuro verde da videira

enquanto as minhas mãos
se embriagam
com o vinho doce do teu corpo