20 de julho de 2004

O eco dos passos


Foto: Carlos Fernandes 
 
Na penumbra da charola de Tomar, o eco dos passos acorda o eco de outros passos mais antigos, mais solenes; o som das vozes evoca o murmúrio de outras vozes mais profundas, mais austeras: os passos e as vozes dos monges cavaleiros que empenharam tudo na busca dos grandes segredos da fé. E por isso se perderam, aniquilados pela cupidez dos poderosos. Do longínquo Oriente nos legaram os símbolos, as formas e as cores, plasmados numa arquitectura de grande devoção. Aqui, o seu testemunho permanece vivo e inspirador.
 
Há vozes e passos
vibrando na luz coada
da capela mor.
 
São os ecos dos Templários
em busca de Santo Graal.

19 de julho de 2004

Baile de Verão -
ao ritmo da minha rede
valsam as estrelas.

18 de julho de 2004

há uma fonte
que brota
das tuas mãos enlaçadas

e viaja nos teus olhos
o vai e vem das marés

semeias colhes e teces
o riso das desfolhadas

com a paciência das algas
com a mesma limpidez

hora a hora
segundo a segundo

fazes do peito a casa
fazes da casa o mundo


17 de julho de 2004

onde está a ilha
a secreta ilha
 
a ilha que eu sonhei
no mapa do teu olhar
 
fui em busca dela
e perdi-me no mar

na candura obstinada do teu corpo surreal:
o delírio das horas 
 
no sorriso das estátuas rasgado a cinzel:
a pele coriácea das horas 
 
na urze benzida pelo orvalho de Abril:
o pingar das horas
 
na insónia da ave à espera do sol:
a interrogação das horas
 
na voz amotinada rasgando o azul:
o anseio das horas

16 de julho de 2004

bates à porta

bates à porta. afagas as paredes com a língua do silêncio.
cravas as unhas na pele tenra da noite.
com mil anos de espera no sobrado dos olhos.
e a sede germinando oculta num vaso carmim.
 
bates à porta. para lá da entrada o ressoar das lajes.
o frémito da madeira. o gemido da cal.
o bocejo opaco da água. a claridade de um voo sem fim.
 
bates à porta. imitas o chilreio brando das aves pequenas.
as mãos que suplicam a submissão dos gonzos.
e adubas as asas com um braçado de lírios. antecipando o festim.
 
bates à porta. acendes a nudez da aurora com o teu corpo intacto.
sorris de mansinho. e como uma ladra profanas a porta fechada de mim.

15 de julho de 2004

com as páginas dos olhos
nos revisitamos
dentro dos livros

como num filme
em vertiginosa rotação

até que a luz do sol
nos devolva
à cegueira dos dias

14 de julho de 2004

a polpa da tua boca
na polpa da minha boca

numa ânsia louca
o beijo

da fruta
o sumo desejo

13 de julho de 2004

o ruído dos teus passos
alvoroça os cães
que gastam o dia
dormitando pelos quintais

é tão ténue
o ruído dos teus passos

mas os cães bebem no ar
o mais pequeno rumor
e ladram
para sacudir o letargo
que lhes tolhe o corpo

não é a ti que ladram
mas à certeza da morte

12 de julho de 2004

o poeta pastoreia
o insubmisso rebanho
das palavras
pela aridez da página

sopra-lhe nos cabelos
o vento agreste da montanha

fazendo vibrar
nas suas mãos desamparadas
uma oculta melodia

11 de julho de 2004

ó praias do meu país
que sonho vão lamentais?

que queixas são essas que
todo o dia suspirais?

o sol rompe o horizonte
doirando na maré cheia

e é do rude génio do mar
que nasce a mais fina areia

9 de julho de 2004

no palco

trémulo
com os olhos postos no abismo
o actor entrega-se
à vertigem do palco

e no âmago
da sua própria luz
de si mesmo se despoja
e se oferece
à volúpia do público

com quem reparte
o pão e o vinho
do seu corpo e da sua voz
na liturgia da cena

na comunhão do gesto
na comunhão da palavra

8 de julho de 2004

oculta na ramagem
do pinheiro manso

insiste a rola
em sua monótona
ladainha

será uma prece
ou um
queixume de amor?

7 de julho de 2004

uma vida

um rasto breve
de passos

o leve suspiro
da brisa

o brilho fugaz da lua
na areia tépida

logo diluídos
nos rumores da maré

4 de julho de 2004

à desfilada
como corcéis
as ondas

fugindo
dos galanteios
do vento

em espuma
se desvanecem
na praia

(sorrindo
deste namoro
o sol)

e ao fim da tarde
quem os acolhe
num longo abraço?

o mar

3 de julho de 2004

Entardecer


(a Sophia de Mello Breyner Andresen)

pairando nos reflexos do poente
a face cristalina da poesia

abraça o horizonte num lamento
perdida numa estranha nostalgia

e um eco singular rasga a falésia
vibrando em dolente melodia

é o verde dos pinhais a voz do mar
chamando mansamente por Sophia

30 de junho de 2004

andorinhas

(à Beatriz)

afagando
a pele enrugada do rio

as andorinhas
matam a sede em pleno voo

vêm e vão com a brisa
que brinca nos teus cabelos

enquanto nadas

rasando as águas
como as andorinhas

28 de junho de 2004

pessegos.jpg

a leve penugem
do pêssego

lembra a tua pele
arrepiada
pelas minhas carícias

27 de junho de 2004

serei eu o barco

serei eu o barco
abraçado à margem

que pergunta às nuvens
que passam
pela emoção da viagem

que nunca viu
na vastidão dos mares
senão uma miragem

que se contenta
com o sorriso da lua
sobre a quieta paisagem

e olha no espelho
das águas onde apodrece
procurando a sua imagem

serei eu o barco
ou uma sombra de passagem

26 de junho de 2004

ameixas.jpg

Pomar perfumado:

rubros como ameixas
os teus lábios
adoçam os meus

25 de junho de 2004

cereja.gif

há cerejas penduradas
nas tuas orelhas

e há em mim
um desejo irreprimível
de as mordiscar

Verão

São como lumes
crepitando
entre a folhagem.

Ó águas do rio:
mandai calar as cigarras.

A vós me entrego -
à míngua de frescura
à míngua de silêncio.

24 de junho de 2004

melancias1.gif

Água na boca:

em tuas maduras
e doces melancias
meus olhos se lambuzam.

23 de junho de 2004

Chuva de Verão:

um líquido véu
envolve a copa exuberante
da tília.

Ao cheiro da floração
mistura-se
o da terra molhada.

Vês aquela ave
sobrevoando
a palidez do horizonte?

Recolhe-se agora
à tépida convicção
do ninho.

Assim o teu rosto
atrás da vidraça.

22 de junho de 2004



os peixes beijam a luz
espelhada
na tranquila superfície
das águas
do rio

e assim transitam
entre o fogo e o gelo

21 de junho de 2004

Há um estranho insecto
percorrendo ansioso
a brancura do papel.

Deixa atrás de si
um rasto de palavras.

20 de junho de 2004

À sesta


Foto: Carlos Fernandes

O calor de Junho debruça-se sobre os telhados, entranhando-se até nas mais acanhadas vielas. Em penumbra se emudecem as casas fechadas: tenta-se em vão conservar a frescura entre as grossas paredes. A quietude é apenas quebrada pelo zumbir dos insectos e pelo eco das horas na torre sineira. Nem o sussurro das rezas, nem o ladrar dos cães… A aldeia deixa-se mergulhar na modorra e dormita um sono breve.

No torpor da sesta -
O sol açoita os telhados
Das casas fechadas.

Só o zumbido das horas
Quebra o sossego da tarde.

19 de junho de 2004

Pregão


do ardor da carne
emerge a palavra

na ebulição do sangue
sublimada

disputando o vento
corre o horizonte

sorvendo o ar frio
na praia serena

reclina-se um pouco
sobre o areal

tomando alento
no beijo da espuma

e ao sol do crepúsculo
ateia o poema

18 de junho de 2004

o perfume da maresia
envolve o corpo
em abandono

e cintila sobre a pele
como um queixume

anunciando a madrugada
no arrepio da brisa

17 de junho de 2004



Escondido nas pétalas
de um rubro botão de rosa -
O primeiro beijo.