nas amoras dos silvados
ainda róseos de flores
nas maçãs lavadas
pela chuva estival
nos cachos de uvas
tintas de sol
no canto agudo
do melro
Agosto amadurece
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
8 de agosto de 2004
5 de agosto de 2004
o poeta perguntou ao grilo
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração
e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta
e visse
sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos
sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens
entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas
e disse
- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso
e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração
e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta
e visse
sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos
sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens
entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas
e disse
- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso
e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão
3 de agosto de 2004
o poeta abriu
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal
umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores
outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu
algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos
tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas
excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu
o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal
umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores
outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu
algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos
tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas
excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu
o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema
2 de agosto de 2004
flutuam as palavras
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta
após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra
e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar
o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço
agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça
depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas
entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta
após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra
e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar
o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço
agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça
depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas
entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas
1 de agosto de 2004
Em Darfur
negra é a tua pele
negra a tua fome
negro o medo
que te obriga a fugir
negro o choro
do filho que apertas
no desespero de um abraço
negro o teu futuro
sem futuro
mas mais negro ainda
que a mais negra das noites
é o negro coração
de quem te atormenta
30 de julho de 2004
23 de julho de 2004
as tuas mãos
a Carlos Paredes
as tuas mãos
são como asas
voando
no azul luminoso
do entardecer
as tuas mãos
são como água
correndo
cristalina e fria
pelas encostas
as tuas mãos
são como brisa
dançando
entre as brancas dunas
da beira mar
as tuas mãos
são como ondas
embalando
a alma impura
deste povo marinheiro
que chora
na tua guitarra
porque partiram já
as tuas mãos
deixando
o travo amargo-doce
da saudade
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Dedicatórias
21 de julho de 2004
20 de julho de 2004
O eco dos passos
Foto: Carlos Fernandes
Na penumbra da charola de Tomar, o eco dos passos acorda o eco de outros passos mais antigos, mais solenes; o som das vozes evoca o murmúrio de outras vozes mais profundas, mais austeras: os passos e as vozes dos monges cavaleiros que empenharam tudo na busca dos grandes segredos da fé. E por isso se perderam, aniquilados pela cupidez dos poderosos. Do longínquo Oriente nos legaram os símbolos, as formas e as cores, plasmados numa arquitectura de grande devoção. Aqui, o seu testemunho permanece vivo e inspirador.
Há vozes e passos
vibrando na luz coada
da capela mor.
São os ecos dos Templários
em busca de Santo Graal.
vibrando na luz coada
da capela mor.
São os ecos dos Templários
em busca de Santo Graal.
18 de julho de 2004
17 de julho de 2004
na candura obstinada do teu corpo surreal:
o delírio das horas
no sorriso das estátuas rasgado a cinzel:
a pele coriácea das horas
na urze benzida pelo orvalho de Abril:
o pingar das horas
na insónia da ave à espera do sol:
a interrogação das horas
na voz amotinada rasgando o azul:
o anseio das horas
o delírio das horas
no sorriso das estátuas rasgado a cinzel:
a pele coriácea das horas
na urze benzida pelo orvalho de Abril:
o pingar das horas
na insónia da ave à espera do sol:
a interrogação das horas
na voz amotinada rasgando o azul:
o anseio das horas
16 de julho de 2004
bates à porta
bates à porta. afagas as paredes com a língua do silêncio.
cravas as unhas na pele tenra da noite.
com mil anos de espera no sobrado dos olhos.
e a sede germinando oculta num vaso carmim.
bates à porta. para lá da entrada o ressoar das lajes.
o frémito da madeira. o gemido da cal.
o bocejo opaco da água. a claridade de um voo sem fim.
bates à porta. imitas o chilreio brando das aves pequenas.
as mãos que suplicam a submissão dos gonzos.
e adubas as asas com um braçado de lírios. antecipando o festim.
bates à porta. acendes a nudez da aurora com o teu corpo intacto.
sorris de mansinho. e como uma ladra profanas a porta fechada de mim.
cravas as unhas na pele tenra da noite.
com mil anos de espera no sobrado dos olhos.
e a sede germinando oculta num vaso carmim.
bates à porta. para lá da entrada o ressoar das lajes.
o frémito da madeira. o gemido da cal.
o bocejo opaco da água. a claridade de um voo sem fim.
bates à porta. imitas o chilreio brando das aves pequenas.
as mãos que suplicam a submissão dos gonzos.
e adubas as asas com um braçado de lírios. antecipando o festim.
bates à porta. acendes a nudez da aurora com o teu corpo intacto.
sorris de mansinho. e como uma ladra profanas a porta fechada de mim.
15 de julho de 2004
14 de julho de 2004
13 de julho de 2004
12 de julho de 2004
11 de julho de 2004
9 de julho de 2004
no palco
trémulo
com os olhos postos no abismo
o actor entrega-se
à vertigem do palco
e no âmago
da sua própria luz
de si mesmo se despoja
e se oferece
à volúpia do público
com quem reparte
o pão e o vinho
do seu corpo e da sua voz
na liturgia da cena
na comunhão do gesto
na comunhão da palavra
com os olhos postos no abismo
o actor entrega-se
à vertigem do palco
e no âmago
da sua própria luz
de si mesmo se despoja
e se oferece
à volúpia do público
com quem reparte
o pão e o vinho
do seu corpo e da sua voz
na liturgia da cena
na comunhão do gesto
na comunhão da palavra
8 de julho de 2004
7 de julho de 2004
4 de julho de 2004
3 de julho de 2004
Entardecer
(a Sophia de Mello Breyner Andresen)
pairando nos reflexos do poente
a face cristalina da poesia
abraça o horizonte num lamento
perdida numa estranha nostalgia
e um eco singular rasga a falésia
vibrando em dolente melodia
é o verde dos pinhais a voz do mar
chamando mansamente por Sophia
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Dedicatórias
30 de junho de 2004
andorinhas
(à Beatriz)
afagando
a pele enrugada do rio
as andorinhas
matam a sede em pleno voo
vêm e vão com a brisa
que brinca nos teus cabelos
enquanto nadas
rasando as águas
como as andorinhas
afagando
a pele enrugada do rio
as andorinhas
matam a sede em pleno voo
vêm e vão com a brisa
que brinca nos teus cabelos
enquanto nadas
rasando as águas
como as andorinhas
27 de junho de 2004
serei eu o barco
serei eu o barco
abraçado à margem
que pergunta às nuvens
que passam
pela emoção da viagem
que nunca viu
na vastidão dos mares
senão uma miragem
que se contenta
com o sorriso da lua
sobre a quieta paisagem
e olha no espelho
das águas onde apodrece
procurando a sua imagem
serei eu o barco
ou uma sombra de passagem
abraçado à margem
que pergunta às nuvens
que passam
pela emoção da viagem
que nunca viu
na vastidão dos mares
senão uma miragem
que se contenta
com o sorriso da lua
sobre a quieta paisagem
e olha no espelho
das águas onde apodrece
procurando a sua imagem
serei eu o barco
ou uma sombra de passagem
25 de junho de 2004
Verão
São como lumes
crepitando
entre a folhagem.
Ó águas do rio:
mandai calar as cigarras.
A vós me entrego -
à míngua de frescura
à míngua de silêncio.
crepitando
entre a folhagem.
Ó águas do rio:
mandai calar as cigarras.
A vós me entrego -
à míngua de frescura
à míngua de silêncio.
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