15 de setembro de 2004

um sopro
nada mais que um sopro

esse teu sorriso
de menina

dobando
o novelo da neblina

- e a rua
toda se ilumina

12 de setembro de 2004

a eloquência do verão
tomba com as folhas mortas
na pele versátil da tarde

símbolo fecundo
ou equívoco voluntário
da árvore

num esgar de comédia
o artifício das estações
enche de rugas a cidade

11 de setembro de 2004

(ao Carlos Fernandes)

reclinou-se o sol
nas pedras do velho muro

tecendo com
os frágeis fios da aranha
uma teia de luz

9 de setembro de 2004

as moscas

(contra todas as violências)


heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes

esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina

fazem da morte seu alimento
as moscas

8 de setembro de 2004

oração perplexa

escuro fóssil
de carnívora qualidade

medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo

cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal

pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita

hemisférica ossatura
imune ao sexo

ora pro nobis

6 de setembro de 2004

erguemos a nossa casa

(à Isabel)

erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte

erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara

erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem

erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego

e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor

2 de setembro de 2004

tresmalhados pelo cio
os corpos dos amantes

buscando por si próprios

um no outro se confundem
um no outro se constroem

1 de setembro de 2004

(a Mark Knopfler)

ao afago brando
o ventre estremece

num gemido terno
da guitarra exangue

se esvai no éter
sua seiva quente

e aí desfalece

29 de agosto de 2004

manifesto

entre as flores simples
do outeiro
o sussurro volátil da abelha

na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia

28 de agosto de 2004

abres as asas
cristalinas
irisadas de luz

revela-se o precário
ovo da aurora

26 de agosto de 2004

Bailado estival


(Foto de Carlos Fernandes)

Como numa dança lenta, ondulante e sensual, o calor torna lânguidas as criaturas e convida a um «pas-de-deux» com as ondas refrescantes. A brisa comanda o valsear das nuvens e anima o serpentear vertical das árvores. Em delírio, mar e céu se irmanam, saboreando o grande baile estival. Exalta-se o esplendor dos corpos maduros. É Verão.

no fervor da dança -
o devaneio dos corpos
celebra o estio

bulindo num vai e vem
igual às ondas na praia

25 de agosto de 2004

Fruto luminoso -
por detrás do marmeleiro
amadurece a lua

24 de agosto de 2004

transfiguram-se
as ervas ressequidas
na vaga claridade
do entardecer

corpos enegrecidos
agitando-se no contraste
da tela azul rosada

espectros balançantes
rabiscando
na página translúcida da brisa
uma última elegia

21 de agosto de 2004

desdobrado
o negro manto
da noite

o céu estrelado
é como veludo
bordado a diamantes

onde cintila
o sorriso diagonal
da lua

- também tu sorris
enquanto dormes
e sorrindo cintilas

17 de agosto de 2004

fim de estação

há um desassossego de alma
no clamor do vento
que reverbera
a grossa barreira das paredes
e faz estremecer a casa

uma fúria incontida
que desconjunta
o corpo flexível das árvores
e torna rastejantes
as ervas dos caminhos

como se
as vísceras da mãe terra
se amotinassem
num inconformado adeus
ao calor estival

16 de agosto de 2004

com a sua húmida língua
o mar refresca
a pele ardente da praia

e num sussurro
se abandona
à luz violeta do poente

13 de agosto de 2004

onde a espiral do vento
acaricia a seara

e o brilho do mármore
transfigura
o ténue rosto da lua

a noite muda de pele

8 de agosto de 2004

nas amoras dos silvados
ainda róseos de flores

nas maçãs lavadas
pela chuva estival

nos cachos de uvas
tintas de sol

no canto agudo
do melro

Agosto amadurece

5 de agosto de 2004

o poeta perguntou ao grilo
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração

e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta

e visse

sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos

sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens

entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas

e disse

- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso

e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão

3 de agosto de 2004

o poeta abriu
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal

umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores

outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu

algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos

tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas

excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu

o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema

2 de agosto de 2004

flutuam as palavras
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta

após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra

e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar

o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço

agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça

depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas

entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas

1 de agosto de 2004

Em Darfur



negra é a tua pele

negra a tua fome

negro o medo
que te obriga a fugir

negro o choro
do filho que apertas
no desespero de um abraço

negro o teu futuro
sem futuro

mas mais negro ainda
que a mais negra das noites

é o negro coração
de quem te atormenta

30 de julho de 2004

frágil é a mortalha
em que se oculta o silêncio

e uma trupe sussurrante
dilacera
o negro útero da noite -

o frémito das plantas
nos dedos da brisa

a febre ruminante
dos insectos

todos os inquietos rumores
da madeira e da pedra

- alheios à ternura
abandonam-se os corpos
ao estertor dos sonhos

23 de julho de 2004

as tuas mãos

 a Carlos Paredes

as tuas mãos
são como asas
voando
no azul luminoso
do entardecer

as tuas mãos
são como água
correndo
cristalina e fria
pelas encostas

as tuas mãos
são como brisa
dançando
entre as brancas dunas
da beira mar

as tuas mãos
são como ondas
embalando
a alma impura
deste povo marinheiro

que chora
na tua guitarra

porque partiram já
as tuas mãos
deixando
o travo amargo-doce
da saudade

21 de julho de 2004

ó flor sem segredo
à mercê
de quem passa
 
vermelhos
são teus lábios
atrás da vidraça
 
borbulhando
no cristal
de um aquário triste
 
como os vermelhos
peixes de Matisse

20 de julho de 2004

O eco dos passos


Foto: Carlos Fernandes 
 
Na penumbra da charola de Tomar, o eco dos passos acorda o eco de outros passos mais antigos, mais solenes; o som das vozes evoca o murmúrio de outras vozes mais profundas, mais austeras: os passos e as vozes dos monges cavaleiros que empenharam tudo na busca dos grandes segredos da fé. E por isso se perderam, aniquilados pela cupidez dos poderosos. Do longínquo Oriente nos legaram os símbolos, as formas e as cores, plasmados numa arquitectura de grande devoção. Aqui, o seu testemunho permanece vivo e inspirador.
 
Há vozes e passos
vibrando na luz coada
da capela mor.
 
São os ecos dos Templários
em busca de Santo Graal.

19 de julho de 2004

Baile de Verão -
ao ritmo da minha rede
valsam as estrelas.

18 de julho de 2004

há uma fonte
que brota
das tuas mãos enlaçadas

e viaja nos teus olhos
o vai e vem das marés

semeias colhes e teces
o riso das desfolhadas

com a paciência das algas
com a mesma limpidez

hora a hora
segundo a segundo

fazes do peito a casa
fazes da casa o mundo


17 de julho de 2004

onde está a ilha
a secreta ilha
 
a ilha que eu sonhei
no mapa do teu olhar
 
fui em busca dela
e perdi-me no mar

na candura obstinada do teu corpo surreal:
o delírio das horas 
 
no sorriso das estátuas rasgado a cinzel:
a pele coriácea das horas 
 
na urze benzida pelo orvalho de Abril:
o pingar das horas
 
na insónia da ave à espera do sol:
a interrogação das horas
 
na voz amotinada rasgando o azul:
o anseio das horas