o ócio das aves
fecunda o azul de signos
breves inexactos
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
24 de setembro de 2004
22 de setembro de 2004
21 de setembro de 2004
19 de setembro de 2004
16 de setembro de 2004
......................parábola
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião
15 de setembro de 2004
12 de setembro de 2004
11 de setembro de 2004
9 de setembro de 2004
as moscas
(contra todas as violências)
heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes
esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina
fazem da morte seu alimento
as moscas
heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes
esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina
fazem da morte seu alimento
as moscas
8 de setembro de 2004
oração perplexa
escuro fóssil
de carnívora qualidade
medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo
cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal
pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita
hemisférica ossatura
imune ao sexo
ora pro nobis
de carnívora qualidade
medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo
cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal
pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita
hemisférica ossatura
imune ao sexo
ora pro nobis
6 de setembro de 2004
erguemos a nossa casa
(à Isabel)
erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte
erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara
erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem
erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego
e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor
erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte
erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara
erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem
erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego
e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor
2 de setembro de 2004
1 de setembro de 2004
29 de agosto de 2004
manifesto
entre as flores simples
do outeiro
o sussurro volátil da abelha
na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia
do outeiro
o sussurro volátil da abelha
na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia
26 de agosto de 2004
Bailado estival
(Foto de Carlos Fernandes)
Como numa dança lenta, ondulante e sensual, o calor torna lânguidas as criaturas e convida a um «pas-de-deux» com as ondas refrescantes. A brisa comanda o valsear das nuvens e anima o serpentear vertical das árvores. Em delírio, mar e céu se irmanam, saboreando o grande baile estival. Exalta-se o esplendor dos corpos maduros. É Verão.
no fervor da dança -
o devaneio dos corpos
celebra o estio
bulindo num vai e vem
igual às ondas na praia
24 de agosto de 2004
21 de agosto de 2004
17 de agosto de 2004
fim de estação
há um desassossego de alma
no clamor do vento
que reverbera
a grossa barreira das paredes
e faz estremecer a casa
uma fúria incontida
que desconjunta
o corpo flexível das árvores
e torna rastejantes
as ervas dos caminhos
como se
as vísceras da mãe terra
se amotinassem
num inconformado adeus
ao calor estival
no clamor do vento
que reverbera
a grossa barreira das paredes
e faz estremecer a casa
uma fúria incontida
que desconjunta
o corpo flexível das árvores
e torna rastejantes
as ervas dos caminhos
como se
as vísceras da mãe terra
se amotinassem
num inconformado adeus
ao calor estival
16 de agosto de 2004
13 de agosto de 2004
8 de agosto de 2004
5 de agosto de 2004
o poeta perguntou ao grilo
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração
e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta
e visse
sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos
sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens
entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas
e disse
- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso
e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração
e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta
e visse
sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos
sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens
entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas
e disse
- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso
e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão
3 de agosto de 2004
o poeta abriu
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal
umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores
outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu
algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos
tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas
excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu
o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal
umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores
outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu
algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos
tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas
excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu
o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema
2 de agosto de 2004
flutuam as palavras
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta
após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra
e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar
o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço
agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça
depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas
entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta
após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra
e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar
o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço
agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça
depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas
entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas
1 de agosto de 2004
Em Darfur
negra é a tua pele
negra a tua fome
negro o medo
que te obriga a fugir
negro o choro
do filho que apertas
no desespero de um abraço
negro o teu futuro
sem futuro
mas mais negro ainda
que a mais negra das noites
é o negro coração
de quem te atormenta
30 de julho de 2004
23 de julho de 2004
as tuas mãos
a Carlos Paredes
as tuas mãos
são como asas
voando
no azul luminoso
do entardecer
as tuas mãos
são como água
correndo
cristalina e fria
pelas encostas
as tuas mãos
são como brisa
dançando
entre as brancas dunas
da beira mar
as tuas mãos
são como ondas
embalando
a alma impura
deste povo marinheiro
que chora
na tua guitarra
porque partiram já
as tuas mãos
deixando
o travo amargo-doce
da saudade
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