2 de outubro de 2004

À Monalisa
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verde é a viagem

despenteiam-se as palavras
sobre a túnica do mar
- rebrilham de iodo e sal

e o traço das gaivotas
escreve a espuma no olhar

1 de outubro de 2004

Outubro pendurou
réstias de sol
nos braços do marmeleiro

e entregou-se
à letargia da bruma

sonhando
com seios dourados
vestidos de tule branco

26 de setembro de 2004

o calor é um aparo
que lavra
o pomo da tarde

o gado rumina
o espinho da sede
no amargor dos cardos

à sombra da urze
emudece o sangue

sobre a pele nua
se desenlaçam
as pétalas azuis do desejo

24 de setembro de 2004

o ócio das aves
fecunda o azul de signos
breves inexactos

22 de setembro de 2004

o Outono
incendeia a vinha

entregues os cachos
ao rito sacrificial
das adegas

amadurece a rubra ninfa
no segredo dos tonéis

21 de setembro de 2004

padrão de me descobrir
trago na cabeça um barco

moldado na areia húmida
por umas mãos pequeninas

a vela de espuma branca
o cordame de algas finas

a bandeira hasteada
é uma pena perdida

só não sei que rumo leva
se chega ou vai de partida

19 de setembro de 2004

ter como filosofia
a indolência
de um peixe flexível

o zelo das varinas
no gingar das ancas

a minúcia do gato
que verifica
músculos e tendões

menos natural seria
o regresso doloroso
ao abismo dos livros

peixe varina e gato
vagueando
sob a página da língua

16 de setembro de 2004

......................parábola
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião

15 de setembro de 2004

um sopro
nada mais que um sopro

esse teu sorriso
de menina

dobando
o novelo da neblina

- e a rua
toda se ilumina

12 de setembro de 2004

a eloquência do verão
tomba com as folhas mortas
na pele versátil da tarde

símbolo fecundo
ou equívoco voluntário
da árvore

num esgar de comédia
o artifício das estações
enche de rugas a cidade

11 de setembro de 2004

(ao Carlos Fernandes)

reclinou-se o sol
nas pedras do velho muro

tecendo com
os frágeis fios da aranha
uma teia de luz

9 de setembro de 2004

as moscas

(contra todas as violências)


heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes

esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina

fazem da morte seu alimento
as moscas

8 de setembro de 2004

oração perplexa

escuro fóssil
de carnívora qualidade

medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo

cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal

pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita

hemisférica ossatura
imune ao sexo

ora pro nobis

6 de setembro de 2004

erguemos a nossa casa

(à Isabel)

erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte

erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara

erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem

erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego

e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor

2 de setembro de 2004

tresmalhados pelo cio
os corpos dos amantes

buscando por si próprios

um no outro se confundem
um no outro se constroem

1 de setembro de 2004

(a Mark Knopfler)

ao afago brando
o ventre estremece

num gemido terno
da guitarra exangue

se esvai no éter
sua seiva quente

e aí desfalece

29 de agosto de 2004

manifesto

entre as flores simples
do outeiro
o sussurro volátil da abelha

na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia

28 de agosto de 2004

abres as asas
cristalinas
irisadas de luz

revela-se o precário
ovo da aurora

26 de agosto de 2004

Bailado estival


(Foto de Carlos Fernandes)

Como numa dança lenta, ondulante e sensual, o calor torna lânguidas as criaturas e convida a um «pas-de-deux» com as ondas refrescantes. A brisa comanda o valsear das nuvens e anima o serpentear vertical das árvores. Em delírio, mar e céu se irmanam, saboreando o grande baile estival. Exalta-se o esplendor dos corpos maduros. É Verão.

no fervor da dança -
o devaneio dos corpos
celebra o estio

bulindo num vai e vem
igual às ondas na praia

25 de agosto de 2004

Fruto luminoso -
por detrás do marmeleiro
amadurece a lua

24 de agosto de 2004

transfiguram-se
as ervas ressequidas
na vaga claridade
do entardecer

corpos enegrecidos
agitando-se no contraste
da tela azul rosada

espectros balançantes
rabiscando
na página translúcida da brisa
uma última elegia

21 de agosto de 2004

desdobrado
o negro manto
da noite

o céu estrelado
é como veludo
bordado a diamantes

onde cintila
o sorriso diagonal
da lua

- também tu sorris
enquanto dormes
e sorrindo cintilas

17 de agosto de 2004

fim de estação

há um desassossego de alma
no clamor do vento
que reverbera
a grossa barreira das paredes
e faz estremecer a casa

uma fúria incontida
que desconjunta
o corpo flexível das árvores
e torna rastejantes
as ervas dos caminhos

como se
as vísceras da mãe terra
se amotinassem
num inconformado adeus
ao calor estival

16 de agosto de 2004

com a sua húmida língua
o mar refresca
a pele ardente da praia

e num sussurro
se abandona
à luz violeta do poente

13 de agosto de 2004

onde a espiral do vento
acaricia a seara

e o brilho do mármore
transfigura
o ténue rosto da lua

a noite muda de pele

8 de agosto de 2004

nas amoras dos silvados
ainda róseos de flores

nas maçãs lavadas
pela chuva estival

nos cachos de uvas
tintas de sol

no canto agudo
do melro

Agosto amadurece

5 de agosto de 2004

o poeta perguntou ao grilo
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração

e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta

e visse

sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos

sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens

entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas

e disse

- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso

e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão

3 de agosto de 2004

o poeta abriu
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal

umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores

outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu

algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos

tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas

excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu

o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema

2 de agosto de 2004

flutuam as palavras
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta

após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra

e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar

o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço

agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça

depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas

entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas

1 de agosto de 2004

Em Darfur



negra é a tua pele

negra a tua fome

negro o medo
que te obriga a fugir

negro o choro
do filho que apertas
no desespero de um abraço

negro o teu futuro
sem futuro

mas mais negro ainda
que a mais negra das noites

é o negro coração
de quem te atormenta