há um peixe dourado
nadando no teu olhar
traz um recado
a ave do coração
fez ninho
na concha da tua mão
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
24 de outubro de 2004
19 de outubro de 2004
16 de outubro de 2004
no princípio era a mãe
a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno
e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias
e o coração se consumiu
em dor e lume
e o lume se fez pássaro
e o pássaro entardeceu
enigmático e só
e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras
o verbo
o verso
a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno
e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias
e o coração se consumiu
em dor e lume
e o lume se fez pássaro
e o pássaro entardeceu
enigmático e só
e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras
o verbo
o verso
12 de outubro de 2004
brancas são as pombas
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca
verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde
azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul
brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca
verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde
azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul
brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul
11 de outubro de 2004
9 de outubro de 2004
imaginem
(a John Lennon)
imaginem
que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco
e não houvesse morte
e que a alma fosse verdade
e a memória do tempo
fosse eterna
e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos
imaginem
imaginem
imaginem
que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco
e não houvesse morte
e que a alma fosse verdade
e a memória do tempo
fosse eterna
e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos
imaginem
imaginem
8 de outubro de 2004
6 de outubro de 2004
3 de outubro de 2004
O sono da casa
Já nada fala do riso das crianças, do odor da lenha ardendo no borralho, da paciência do gado no curral, do sussurro da chuva no telhado. Que as telhas são, elas próprias, descompassada chuva a caminho do chão. E a madeira retoma a via da natural corrupção. E as paredes se conformam a devolver ao horizontal descanso as pedras que a terra emprestou para esta aventura de ser casa. E as ervas recuperam lentamente um território que é seu. Até que nova aventura se erga em seu lugar.
corpo adormecido
nos braços rudes do tempo
a casa se esvai
tornam as pedras às pedras
e o barro volta ao barro
2 de outubro de 2004
1 de outubro de 2004
26 de setembro de 2004
22 de setembro de 2004
21 de setembro de 2004
19 de setembro de 2004
16 de setembro de 2004
......................parábola
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião
15 de setembro de 2004
12 de setembro de 2004
11 de setembro de 2004
9 de setembro de 2004
as moscas
(contra todas as violências)
heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes
esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina
fazem da morte seu alimento
as moscas
heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes
esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina
fazem da morte seu alimento
as moscas
8 de setembro de 2004
oração perplexa
escuro fóssil
de carnívora qualidade
medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo
cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal
pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita
hemisférica ossatura
imune ao sexo
ora pro nobis
de carnívora qualidade
medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo
cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal
pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita
hemisférica ossatura
imune ao sexo
ora pro nobis
6 de setembro de 2004
erguemos a nossa casa
(à Isabel)
erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte
erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara
erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem
erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego
e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor
erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte
erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara
erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem
erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego
e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor
2 de setembro de 2004
1 de setembro de 2004
29 de agosto de 2004
manifesto
entre as flores simples
do outeiro
o sussurro volátil da abelha
na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia
do outeiro
o sussurro volátil da abelha
na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia
26 de agosto de 2004
Bailado estival
(Foto de Carlos Fernandes)
Como numa dança lenta, ondulante e sensual, o calor torna lânguidas as criaturas e convida a um «pas-de-deux» com as ondas refrescantes. A brisa comanda o valsear das nuvens e anima o serpentear vertical das árvores. Em delírio, mar e céu se irmanam, saboreando o grande baile estival. Exalta-se o esplendor dos corpos maduros. É Verão.
no fervor da dança -
o devaneio dos corpos
celebra o estio
bulindo num vai e vem
igual às ondas na praia
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