31 de outubro de 2004

desenhar.jpg
(Foto de Carlos Fernandes)

As cantigas da passarada são por momentos abafadas por um outro chilrear mais estridente e vivo: o das crianças em volta de uma nova brincadeira. Correm e saltam. Agora desenham e pintam. Na longa tira de papel, uma sucessão de signos coloridos relata a alegria destes pardais sem asas. Embalados por um sonho sem limites, os seus olhos ingénuos esvoaçam no traço meticuloso do pincel. Brincam. E brincando projectam o futuro.

brincam os gaiatos
como pardais saltitando
de ramo em ramo

desenham um novo mundo
embalados pelo sonho

29 de outubro de 2004

simplicidade.jpg
Simplicidade - Teresa Rosa / 1000 imagens

oculta
na tua torre barroca

fundada no cristal
de uma gota de água

escutas
a respiração das aves

e bebes o perfume
das boninas sobre a frágua

- acorda princesa
desse encantamento

é aqui
o reino da mágoa

28 de outubro de 2004

Luz-e-tormenta.jpg
Luz e tormenta - José Fagundes / 1000 imagens

ímpar denso concreto
inconformado

o olhar do homen
colige os ocultos sedimentos
da consciência

e precipita
a erosão dos deuses

(que há muito
o deixaram só)

27 de outubro de 2004

malmequer.jpg

bem te quero
malmequer

minha calêndula
silvestre

pequeno sol
sorridente

neste jardim
dos afectos

26 de outubro de 2004

assinatura.jpg
(Assinatura - António Matias / 1000 imagens)

como animais
pressentindo a tempestade

enroscam-se as palavras
no abrigo da página

à espera de uma voz
que as desate

25 de outubro de 2004

pimenteiras.jpg

línguas de fogo
maduras
suspensas da pimenteira

guardam o ardor dos beijos
que os teus lábios prometeram

e não deram

24 de outubro de 2004

há um peixe dourado
nadando no teu olhar

traz um recado

a ave do coração
fez ninho
na concha da tua mão

19 de outubro de 2004

Water_cristals_JMOSilva.jpg
(Water Cristals - J M Oliveira Silva / 1000 Imagens)

chove -

uma líquida flor
se despenha
do precipício das águas

e pétala a pétala

escreve o teu nome
no rosto da vidraça

18 de outubro de 2004

no abraço
do vento

quem será
que suspira?

16 de outubro de 2004

no princípio era a mãe

a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno

e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias

e o coração se consumiu
em dor e lume

e o lume se fez pássaro

e o pássaro entardeceu
enigmático e só

e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras

o verbo

o verso

12 de outubro de 2004

brancas são as pombas
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca

verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde

azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul

brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul

11 de outubro de 2004

vivemos um tempo
de anestesia

em que o aço impuro
do excesso
roça a garganta do tédio

assomam à janela
os heróis do efémero

e a vida fica refém
da reles intriga
de um reality-show

10 de outubro de 2004

nuvem:

passa melancólica
uma ave tardia

e logo se desfaz
chorosa
e fria

9 de outubro de 2004

imaginem

(a John Lennon)


imaginem

que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco

e não houvesse morte

e que a alma fosse verdade

e a memória do tempo
fosse eterna

e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos

imaginem

imaginem

8 de outubro de 2004

enche-se a solidão
dos caminhos
de negras lágrimas

que os dedos da ventania
fustigam o útero abandonado
das oliveiras

6 de outubro de 2004

(ao Armando Leal)

sobre as folhas secas
o outono
reclina a cabeça

e descansa os olhos
no algodão celeste

3 de outubro de 2004

O sono da casa



Já nada fala do riso das crianças, do odor da lenha ardendo no borralho, da paciência do gado no curral, do sussurro da chuva no telhado. Que as telhas são, elas próprias, descompassada chuva a caminho do chão. E a madeira retoma a via da natural corrupção. E as paredes se conformam a devolver ao horizontal descanso as pedras que a terra emprestou para esta aventura de ser casa. E as ervas recuperam lentamente um território que é seu. Até que nova aventura se erga em seu lugar.

corpo adormecido
nos braços rudes do tempo
a casa se esvai

tornam as pedras às pedras
e o barro volta ao barro

2 de outubro de 2004

À Monalisa
http://sitiodasaudade.blogspot.com/

verde é a viagem

despenteiam-se as palavras
sobre a túnica do mar
- rebrilham de iodo e sal

e o traço das gaivotas
escreve a espuma no olhar

1 de outubro de 2004

Outubro pendurou
réstias de sol
nos braços do marmeleiro

e entregou-se
à letargia da bruma

sonhando
com seios dourados
vestidos de tule branco

26 de setembro de 2004

o calor é um aparo
que lavra
o pomo da tarde

o gado rumina
o espinho da sede
no amargor dos cardos

à sombra da urze
emudece o sangue

sobre a pele nua
se desenlaçam
as pétalas azuis do desejo

24 de setembro de 2004

o ócio das aves
fecunda o azul de signos
breves inexactos

22 de setembro de 2004

o Outono
incendeia a vinha

entregues os cachos
ao rito sacrificial
das adegas

amadurece a rubra ninfa
no segredo dos tonéis

21 de setembro de 2004

padrão de me descobrir
trago na cabeça um barco

moldado na areia húmida
por umas mãos pequeninas

a vela de espuma branca
o cordame de algas finas

a bandeira hasteada
é uma pena perdida

só não sei que rumo leva
se chega ou vai de partida

19 de setembro de 2004

ter como filosofia
a indolência
de um peixe flexível

o zelo das varinas
no gingar das ancas

a minúcia do gato
que verifica
músculos e tendões

menos natural seria
o regresso doloroso
ao abismo dos livros

peixe varina e gato
vagueando
sob a página da língua

16 de setembro de 2004

......................parábola
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião

15 de setembro de 2004

um sopro
nada mais que um sopro

esse teu sorriso
de menina

dobando
o novelo da neblina

- e a rua
toda se ilumina

12 de setembro de 2004

a eloquência do verão
tomba com as folhas mortas
na pele versátil da tarde

símbolo fecundo
ou equívoco voluntário
da árvore

num esgar de comédia
o artifício das estações
enche de rugas a cidade

11 de setembro de 2004

(ao Carlos Fernandes)

reclinou-se o sol
nas pedras do velho muro

tecendo com
os frágeis fios da aranha
uma teia de luz

9 de setembro de 2004

as moscas

(contra todas as violências)


heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes

esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina

fazem da morte seu alimento
as moscas

8 de setembro de 2004

oração perplexa

escuro fóssil
de carnívora qualidade

medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo

cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal

pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita

hemisférica ossatura
imune ao sexo

ora pro nobis