para o povo da floresta
não há cemitérios
nem culto dos mortos
quando alguém se fina
o seu corpo é devolvido à terra
e sobre ele é plantada
uma nova árvore
que recebe o nome do defunto
para o povo da floresta
não existe morte
mas uma mudança de estado
na sua metafísica
os homens são as árvores
e as árvores são os homens
e a si mesmo se chamam
freixo tília plátano faia
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
24 de novembro de 2004
23 de novembro de 2004
21 de novembro de 2004
19 de novembro de 2004
14 de novembro de 2004
(Diabo marinho - José Fagundes / 1000 imagens)
ó medusa de vidro
com escamas de alabastro
sustem teus candelabros
sobre o rio das trevas
que eu quero atravessar
com serapilheira
tábuas pregos e chapa
construí o meu batel
e lá vou agitando
às cegas
estas asas empalhadas
procurando no reverso
da sombra
a face oculta do desespero
11 de novembro de 2004
9 de novembro de 2004
8 de novembro de 2004
(Intimidades - José Fagundes / 1000imagens)
conta-me uma história
deixa-me encostar
a cabeça no teu regaço
e ouvir brotar em ti as palavras
como a água cristalina
das nascentes
conta-me uma história
e eu ignorarei
todas as calamidades
que hoje aconteceram
que hoje te aconteceram
que hoje me aconteceram
conta-me uma história
e eu partirei
nesse mesmo instante
em busca do maravilhoso cristal
que cura todos os males
e satisfaz todos os desejos
conta-me uma história
e eu adormecerei
embalado pela tua voz
esquecendo que amanhã
será talvez outro dia terrível
6 de novembro de 2004
mandala
ergueu a mão
traçou um círculo no ar
e uma ave sem nome
pousou no seu olhar
e disse:
pensar não é ser
o pensamento não é mais
que a sombra das coisas
à luz do luar
enquanto as trevas vêm e vão
a vida é como a água
que escorre por entre os dedos
e se some no chão
mesmo sem asas
é preciso viver
é preciso voar
4 de novembro de 2004
3 de novembro de 2004
o dedo de Galileu
.
.
den
tro d
e uma
redom
a de cr
istal o
dedo i
ndicad
or de G
alileu c
ontinua
a apont
ar o céu.
dos ven
eráveis i
nquisidor
es, nem pó.
Mais exactamente no Museo di Storia della Scienza em Florença
.
den
tro d
e uma
redom
a de cr
istal o
dedo i
ndicad
or de G
alileu c
ontinua
a apont
ar o céu.
dos ven
eráveis i
nquisidor
es, nem pó.
Mais exactamente no Museo di Storia della Scienza em Florença
2 de novembro de 2004
desdactilografia
(Elogio da Escrita - António Matias / 1000 imagens)
alinham-se imóveis
as letras as palavras
as frases e os parágrafos
contra a branca parede
do papel
há um curto silêncio
subitamente
os dedos martelam
furiosamente as teclas
e as teclas correspondem
enchendo o ar quieto
de estampidos secos
e o papel de negras marcas
letras palavras
frases e parágrafos
desfalecem sob
a violência do impacto
e caem moribundos
no fundo da página
1 de novembro de 2004
31 de outubro de 2004
(Foto de Carlos Fernandes)
As cantigas da passarada são por momentos abafadas por um outro chilrear mais estridente e vivo: o das crianças em volta de uma nova brincadeira. Correm e saltam. Agora desenham e pintam. Na longa tira de papel, uma sucessão de signos coloridos relata a alegria destes pardais sem asas. Embalados por um sonho sem limites, os seus olhos ingénuos esvoaçam no traço meticuloso do pincel. Brincam. E brincando projectam o futuro.
brincam os gaiatos
como pardais saltitando
de ramo em ramo
desenham um novo mundo
embalados pelo sonho
29 de outubro de 2004
28 de outubro de 2004
27 de outubro de 2004
26 de outubro de 2004
25 de outubro de 2004
24 de outubro de 2004
19 de outubro de 2004
16 de outubro de 2004
no princípio era a mãe
a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno
e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias
e o coração se consumiu
em dor e lume
e o lume se fez pássaro
e o pássaro entardeceu
enigmático e só
e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras
o verbo
o verso
a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno
e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias
e o coração se consumiu
em dor e lume
e o lume se fez pássaro
e o pássaro entardeceu
enigmático e só
e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras
o verbo
o verso
12 de outubro de 2004
brancas são as pombas
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca
verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde
azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul
brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca
verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde
azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul
brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul
11 de outubro de 2004
9 de outubro de 2004
imaginem
(a John Lennon)
imaginem
que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco
e não houvesse morte
e que a alma fosse verdade
e a memória do tempo
fosse eterna
e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos
imaginem
imaginem
imaginem
que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco
e não houvesse morte
e que a alma fosse verdade
e a memória do tempo
fosse eterna
e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos
imaginem
imaginem
8 de outubro de 2004
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