agitam-se no teu olhar
as águas
de um mar revolto
e o vento do deserto
incendeia a tua pele
que tempestade é essa
que te amotina o sangue
nesta alvorada
de baunilha e mel?
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
20 de dezembro de 2004
19 de dezembro de 2004
a nostalgia dos poetas
(uma homenagem à lusofonia)
a nostalgia dos poetas
enche de ocultos sentidos
a língua que falo
a língua que falas
debatem-se os poetas
com as palavras que os habitam
escondidas debaixo da pele
como animais domésticos
à espera de um afago
e penteiam-nas meticulosamente
com o metal dos aparos
nesse delicado compromisso
entre o amargor da tinta
e a limpidez opaca do papel
folheiam
com os dedos manchados de azul
uma gramática ancestral
herdada da secreta errância dos povos
entre a dor e a alegria
e trazem na alma a compaixão
pelas difíceis coisas simples
que o sangue esconde
e a noite cala
acorrentados à sua impossível condição
nas brumosas masmorras deste país
que ao nascer da aurora se faz verde
e negro se torna ao poente de tanto esperar
todos os dias resistem os poetas
contra o medo e o olvido
e as palavras
libertas do seu quotidiano jugo
enchem o peito dorido dos poetas de desejo
de um destino para além da história
é o amor dos poetas pelas palavras
que torna possível
que as fronteiras desta pátria
se estendam entre a minha
e a tua língua
e que um dia o nosso abraço
se encontre
dos dois lados deste mar
a nostalgia dos poetas
enche de ocultos sentidos
a língua que falo
a língua que falas
debatem-se os poetas
com as palavras que os habitam
escondidas debaixo da pele
como animais domésticos
à espera de um afago
e penteiam-nas meticulosamente
com o metal dos aparos
nesse delicado compromisso
entre o amargor da tinta
e a limpidez opaca do papel
folheiam
com os dedos manchados de azul
uma gramática ancestral
herdada da secreta errância dos povos
entre a dor e a alegria
e trazem na alma a compaixão
pelas difíceis coisas simples
que o sangue esconde
e a noite cala
acorrentados à sua impossível condição
nas brumosas masmorras deste país
que ao nascer da aurora se faz verde
e negro se torna ao poente de tanto esperar
todos os dias resistem os poetas
contra o medo e o olvido
e as palavras
libertas do seu quotidiano jugo
enchem o peito dorido dos poetas de desejo
de um destino para além da história
é o amor dos poetas pelas palavras
que torna possível
que as fronteiras desta pátria
se estendam entre a minha
e a tua língua
e que um dia o nosso abraço
se encontre
dos dois lados deste mar
13 de dezembro de 2004
epidemia de natal
um bando de fogueiras aladas
atravessa os céus da avenida
e faz ninho nos postes de iluminação pública
estrelas carnívoras e gigantes cristais de gelo
apoderam-se das copas das árvores
donde escorrem longos pingentes de luz
uma miríade de seres eléctricos
toma conta dos mais improváveis recantos da cidade
e reinventa a claridade na longa noite invernosa
as gentes são tomadas de amnésia
e obliteram o quotidiano sobressalto da violência
feitas erráticas mariposas
esfregam os narizes no aquário das montras
como se disso dependesse a sua sobrevivência
sorvem avidamente o ar frio da noite
e suspiram
mergulhadas numa nostálgica felicidade
envenenada pela ideia de uma infância que nunca viveram
mas a chuva continua a ser tão húmida e viscosa como sempre
e fora do halo luminoso do consumismo
a noite continua a ser tão escura como todas as noites escuras
que estranhos fenómenos provoca a epidemia do natal
11 de dezembro de 2004
10 de dezembro de 2004
8 de dezembro de 2004
Caçada
é noite de lua nova
os homens reúnem-se
entre as estantes da biblioteca
para a grande caçada
ao verso branco
procuram todas as pistas
todos os rastos
no ventre
dos livros mais antigos
é aí que o bicho
provoca mais estragos
é aí que a sua existência
é mais insidiosa
mais repulsiva
mais nefasta
os caçadores espiolham
a palidez do papel
em busca dos traços
imperceptíveis da fera
com redobrada cautela
seguem a marca
das suas pegadas
e mal vislumbram
o vulto vago do animal
assestam as armas
apontam à cabeça
e desferem sucessivos disparos
até que este se estatele
inerte no solo
depois lavam as mãos
devagar
e bebem vinho tinto
até de madrugada
os homens reúnem-se
entre as estantes da biblioteca
para a grande caçada
ao verso branco
procuram todas as pistas
todos os rastos
no ventre
dos livros mais antigos
é aí que o bicho
provoca mais estragos
é aí que a sua existência
é mais insidiosa
mais repulsiva
mais nefasta
os caçadores espiolham
a palidez do papel
em busca dos traços
imperceptíveis da fera
com redobrada cautela
seguem a marca
das suas pegadas
e mal vislumbram
o vulto vago do animal
assestam as armas
apontam à cabeça
e desferem sucessivos disparos
até que este se estatele
inerte no solo
depois lavam as mãos
devagar
e bebem vinho tinto
até de madrugada
7 de dezembro de 2004
4 de dezembro de 2004
27 de novembro de 2004
da vida selvagem
na época do acasalamento
os garfos limícolas reúnem-se em bandos
e ensaiam elaborados cânticos
numa dança frenética e cega
exaltam as virtudes do sal marinho
e procedem então à desova:
um único ovo de metal dourado
que se recolhe no horizonte
quando a noite cai
os garfos limícolas reúnem-se em bandos
e ensaiam elaborados cânticos
numa dança frenética e cega
exaltam as virtudes do sal marinho
e procedem então à desova:
um único ovo de metal dourado
que se recolhe no horizonte
quando a noite cai
25 de novembro de 2004
24 de novembro de 2004
fábula vegetal
para o povo da floresta
não há cemitérios
nem culto dos mortos
quando alguém se fina
o seu corpo é devolvido à terra
e sobre ele é plantada
uma nova árvore
que recebe o nome do defunto
para o povo da floresta
não existe morte
mas uma mudança de estado
na sua metafísica
os homens são as árvores
e as árvores são os homens
e a si mesmo se chamam
freixo tília plátano faia
não há cemitérios
nem culto dos mortos
quando alguém se fina
o seu corpo é devolvido à terra
e sobre ele é plantada
uma nova árvore
que recebe o nome do defunto
para o povo da floresta
não existe morte
mas uma mudança de estado
na sua metafísica
os homens são as árvores
e as árvores são os homens
e a si mesmo se chamam
freixo tília plátano faia
23 de novembro de 2004
21 de novembro de 2004
19 de novembro de 2004
14 de novembro de 2004
(Diabo marinho - José Fagundes / 1000 imagens)
ó medusa de vidro
com escamas de alabastro
sustem teus candelabros
sobre o rio das trevas
que eu quero atravessar
com serapilheira
tábuas pregos e chapa
construí o meu batel
e lá vou agitando
às cegas
estas asas empalhadas
procurando no reverso
da sombra
a face oculta do desespero
11 de novembro de 2004
9 de novembro de 2004
8 de novembro de 2004
(Intimidades - José Fagundes / 1000imagens)
conta-me uma história
deixa-me encostar
a cabeça no teu regaço
e ouvir brotar em ti as palavras
como a água cristalina
das nascentes
conta-me uma história
e eu ignorarei
todas as calamidades
que hoje aconteceram
que hoje te aconteceram
que hoje me aconteceram
conta-me uma história
e eu partirei
nesse mesmo instante
em busca do maravilhoso cristal
que cura todos os males
e satisfaz todos os desejos
conta-me uma história
e eu adormecerei
embalado pela tua voz
esquecendo que amanhã
será talvez outro dia terrível
6 de novembro de 2004
mandala
ergueu a mão
traçou um círculo no ar
e uma ave sem nome
pousou no seu olhar
e disse:
pensar não é ser
o pensamento não é mais
que a sombra das coisas
à luz do luar
enquanto as trevas vêm e vão
a vida é como a água
que escorre por entre os dedos
e se some no chão
mesmo sem asas
é preciso viver
é preciso voar
4 de novembro de 2004
3 de novembro de 2004
o dedo de Galileu
.
.
den
tro d
e uma
redom
a de cr
istal o
dedo i
ndicad
or de G
alileu c
ontinua
a apont
ar o céu.
dos ven
eráveis i
nquisidor
es, nem pó.
Mais exactamente no Museo di Storia della Scienza em Florença
.
den
tro d
e uma
redom
a de cr
istal o
dedo i
ndicad
or de G
alileu c
ontinua
a apont
ar o céu.
dos ven
eráveis i
nquisidor
es, nem pó.
Mais exactamente no Museo di Storia della Scienza em Florença
2 de novembro de 2004
desdactilografia
(Elogio da Escrita - António Matias / 1000 imagens)
alinham-se imóveis
as letras as palavras
as frases e os parágrafos
contra a branca parede
do papel
há um curto silêncio
subitamente
os dedos martelam
furiosamente as teclas
e as teclas correspondem
enchendo o ar quieto
de estampidos secos
e o papel de negras marcas
letras palavras
frases e parágrafos
desfalecem sob
a violência do impacto
e caem moribundos
no fundo da página
1 de novembro de 2004
31 de outubro de 2004
(Foto de Carlos Fernandes)
As cantigas da passarada são por momentos abafadas por um outro chilrear mais estridente e vivo: o das crianças em volta de uma nova brincadeira. Correm e saltam. Agora desenham e pintam. Na longa tira de papel, uma sucessão de signos coloridos relata a alegria destes pardais sem asas. Embalados por um sonho sem limites, os seus olhos ingénuos esvoaçam no traço meticuloso do pincel. Brincam. E brincando projectam o futuro.
brincam os gaiatos
como pardais saltitando
de ramo em ramo
desenham um novo mundo
embalados pelo sonho
29 de outubro de 2004
28 de outubro de 2004
27 de outubro de 2004
26 de outubro de 2004
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