18 de março de 2005

no regaço


no regaço
do pinheiro manso
há uma casa de sombra
onde descanso

11 de março de 2005

bela adormecida

ao beijo do sol
desperta a Primavera
na flor do salgueiro

5 de março de 2005

Oráculo marinho

Sentado na duna
sob o pálido sol de Março
indago o oceano

Porque tarda a Primavera?

E o imenso espelho líquido
serenamente se agita
como uma mulher madura
balançando as ancas
e nada me diz

Pergunto a uma gaivota
porque persegue ela
o vai e vem das ondas
se logo em espuma se desfazem
na orla da praia

E num grito me responde:

- Não te esqueças que a vida
é feita de desencontros
e que o vento há-de apagar
o rasto das tuas pegadas.

20 de fevereiro de 2005

a fala das mãos

De artista ou de tirano, de criança ou de algoz, as mãos humanas são um prolongamento do próprio pensamento, uma marca da identidade individual. Para o bem e para o mal, o homem recria com as suas próprias mãos o mundo que o rodeia: com elas constrói casas e bombas, semeia trigo e escreve poemas. E quando já mais nada lhe resta, são as suas próprias mãos que ergue ao alto …em prece.

com as mãos te falo
pois está para lá das palavras
a fala das mãos

na escrita muda do gesto
o silêncio ganha voz

10 de fevereiro de 2005

espera por mim Corto Maltese

deixa-me beber
do elixir da eterna juventude
e tornar-me como tu
num andarilho sem idade

quero ir contigo
para as ilhas da fantasia e da aventura
a bordo de um velho veleiro
pirata ou talvez não

deixa-me levar só
o saxofone de Garbarek
e a cítara de Shankar
para encher de melancolia
as noites quentes dos mares do sul

quero entregar o corpo cansado
nos braços de uma mestiça sorridente
de olhos de amêndoa
e admirar o súbito poente
do sol meridional

espera por mim Corto Maltese

espera por mim

espera

6 de fevereiro de 2005

é preciso sacudir
de novo
o torpor das palavras

ruminando entretidas
o pasmo dos dias

é preciso sangrá-las
com o rigor do chicote

fazendo-as galopar
esbaforidas
pela planície da página

para que a luz matinal
derreta a geada
que nos tolhe o peito

17 de janeiro de 2005

é quando ao ninho
a ave torna

que a noite vem

sacudir a penugem
das estrelas

na planície
da tua pele morna

16 de janeiro de 2005

mãe

não importa o frio
o perigo
o medo

se em teu regaço
me abrigo
em segredo

9 de janeiro de 2005

maré negra

(às vítimas do maremoto asiático)

mói o grito cavo
da luz
no frio rosto do aço

perdeu-se o brilho
da lágrima
na fundura do espaço

ficámos só eu e tu
unidos
por este abraço

5 de janeiro de 2005

há dias em que
é tão fácil fechar os olhos

torna-se o peito
num prado de tulipas
por amanhecer

e é indiferente
dormir ou morrer

1 de janeiro de 2005

ano novo

névoa na campina –
o Inverno desembrulha
suas longas barbas

no horizonte velado
o balido de um cordeiro

28 de dezembro de 2004

barcos

chegam de madrugada
com suas vestes pálidas
desfraldadas ao sabor da brisa

cavalgando
o corpo sinuoso das ondas
como potros fumegantes

recolhem as asas
abertas
no limiar das águas

e adormecem extenuados
sobre as areias
os braços erguidos para o alto

25 de dezembro de 2004

à Alix de Carvalho

trajando o vestido azul e roxo
do crepúsculo
a lua sorridente
veio dar um beijo furtivo
ao sol poente

morta de ciúme
pelo que acabara de ver
a chuva cerrou o dossel das nuvens
e chorou até adormecer

devagarinho
a lua entreabriu a portada
e derramou os seus pálidos cabelos
sobre a campina prateada

24 de dezembro de 2004

Natal

Os primeiros a chegar foram os pastores, acompanhados do balido dos rebanhos, guiados pelo brilho das estrelas. A eles se seguiram outras gentes de porte humilde, a pele tisnada pelo sol e pelo calor da forja, as mãos calejadas pelas ferramentas rudes. Só depois vieram os sábios com as suas vestes solenes e as suas ofertas preciosas. Mas a todos se amaciou o coração ao ver o sorriso precoce daquele menino iluminando a noite fria. E foi Natal.

É noite do galo -
no presépio da aldeia
sorri um menino

evocando o milagre
da vida que se renova

20 de dezembro de 2004

agitam-se no teu olhar
as águas
de um mar revolto

e o vento do deserto
incendeia a tua pele

que tempestade é essa
que te amotina o sangue

nesta alvorada
de baunilha e mel?

19 de dezembro de 2004

a nostalgia dos poetas

(uma homenagem à lusofonia)

a nostalgia dos poetas
enche de ocultos sentidos
a língua que falo
a língua que falas

debatem-se os poetas
com as palavras que os habitam
escondidas debaixo da pele
como animais domésticos
à espera de um afago

e penteiam-nas meticulosamente
com o metal dos aparos
nesse delicado compromisso
entre o amargor da tinta
e a limpidez opaca do papel

folheiam
com os dedos manchados de azul
uma gramática ancestral
herdada da secreta errância dos povos
entre a dor e a alegria

e trazem na alma a compaixão
pelas difíceis coisas simples
que o sangue esconde
e a noite cala

acorrentados à sua impossível condição
nas brumosas masmorras deste país
que ao nascer da aurora se faz verde
e negro se torna ao poente de tanto esperar
todos os dias resistem os poetas
contra o medo e o olvido

e as palavras
libertas do seu quotidiano jugo
enchem o peito dorido dos poetas de desejo
de um destino para além da história

é o amor dos poetas pelas palavras
que torna possível
que as fronteiras desta pátria
se estendam entre a minha
e a tua língua

e que um dia o nosso abraço
se encontre
dos dois lados deste mar

13 de dezembro de 2004

epidemia de natal


um bando de fogueiras aladas
atravessa os céus da avenida
e faz ninho nos postes de iluminação pública

estrelas carnívoras e gigantes cristais de gelo
apoderam-se das copas das árvores
donde escorrem longos pingentes de luz

uma miríade de seres eléctricos
toma conta dos mais improváveis recantos da cidade
e reinventa a claridade na longa noite invernosa

as gentes são tomadas de amnésia
e obliteram o quotidiano sobressalto da violência

feitas erráticas mariposas
esfregam os narizes no aquário das montras
como se disso dependesse a sua sobrevivência

sorvem avidamente o ar frio da noite
e suspiram
mergulhadas numa nostálgica felicidade
envenenada pela ideia de uma infância que nunca viveram

mas a chuva continua a ser tão húmida e viscosa como sempre
e fora do halo luminoso do consumismo
a noite continua a ser tão escura como todas as noites escuras

que estranhos fenómenos provoca a epidemia do natal

11 de dezembro de 2004

à Monalisa (http://sitiodasaudade.blogspot.com/)

provei o teu sangue
agridoce
e enlouqueci

ó laranja de oiro

és uma réstia de sol
que eu colhi

10 de dezembro de 2004

verde é o trevo
que atapeta o chão
que pisas tão verde

verde a luz do bosque
ao fim do dia

verde é o desejo
que incendeia o corpo
deitado no trevo

verde o teu olhar
de maresia

8 de dezembro de 2004

Caçada

é noite de lua nova

os homens reúnem-se
entre as estantes da biblioteca
para a grande caçada
ao verso branco

procuram todas as pistas
todos os rastos
no ventre
dos livros mais antigos

é aí que o bicho
provoca mais estragos

é aí que a sua existência
é mais insidiosa
mais repulsiva
mais nefasta

os caçadores espiolham
a palidez do papel
em busca dos traços
imperceptíveis da fera

com redobrada cautela
seguem a marca
das suas pegadas

e mal vislumbram
o vulto vago do animal
assestam as armas

apontam à cabeça
e desferem sucessivos disparos
até que este se estatele
inerte no solo

depois lavam as mãos
devagar
e bebem vinho tinto
até de madrugada

7 de dezembro de 2004

testemunha do luminoso
bailado das chamas

o aplauso mudo
das cinzas na lareira

e um leve odor a fumo
temperando a alvorada

4 de dezembro de 2004

debaixo da capa
manchada
pelo afã dos dedos

na cálida pulsação
das palavras

o livro respira

e nele respira o poeta

27 de novembro de 2004

da vida selvagem

na época do acasalamento
os garfos limícolas reúnem-se em bandos
e ensaiam elaborados cânticos

numa dança frenética e cega
exaltam as virtudes do sal marinho
e procedem então à desova:

um único ovo de metal dourado
que se recolhe no horizonte
quando a noite cai

25 de novembro de 2004

ao lume das palavras

na faina artesanal
da escrita

aqueço as mãos
adormeço a angústia

24 de novembro de 2004

fábula vegetal

para o povo da floresta
não há cemitérios
nem culto dos mortos

quando alguém se fina
o seu corpo é devolvido à terra
e sobre ele é plantada
uma nova árvore
que recebe o nome do defunto

para o povo da floresta
não existe morte
mas uma mudança de estado

na sua metafísica
os homens são as árvores
e as árvores são os homens

e a si mesmo se chamam
freixo tília plátano faia

23 de novembro de 2004

numa alameda
de azáleas rubras

velhas solitárias
tricotam palavras

da franja da tarde
desfiam memórias

e incitam os xailes
aos anseios do voo

os olhos perdidos
na vastidão do azul

21 de novembro de 2004

quando cair
a última folha

e o frio vier farejar
o seu corpo nu

a árvore adormecerá

indiferente
ao açoite da chuva
e ao ganido do vento


no coração da árvore
- bem lá no fundo -
abriga-se a primavera

19 de novembro de 2004


(Reflexo de ti - Maria José [Zé alentejana] / 1000imagens)

o rosto no espelho

devolve em traço lento
o resultado
da escrita do tempo

17 de novembro de 2004

janelas em fogo -
o reflexo do poente
sobre o casario

14 de novembro de 2004


(Diabo marinho - José Fagundes / 1000 imagens)

ó medusa de vidro
com escamas de alabastro

sustem teus candelabros
sobre o rio das trevas
que eu quero atravessar

com serapilheira
tábuas pregos e chapa
construí o meu batel

e lá vou agitando
às cegas
estas asas empalhadas

procurando no reverso
da sombra
a face oculta do desespero