5 de abril de 2005

nesse rio coleante
que desmanchas sobre o colo

onde o vento entretece
o cheiro do rosmaninho

não sei se navego
e me embalo

ou naufrago
e me afogo

sem saber o caminho

4 de abril de 2005

um leve roçar de pernas
pode provocar uma avalanche

arrastando o corpo à perdição

por vezes
não será preciso tanto

- um mero olhar bastará

3 de abril de 2005

às flores do marmeleiro

singela
no seu vestido de chita
uma donzela
acena sobre o outeiro

- enleia-se a brisa
nas flores do marmeleiro

2 de abril de 2005

à espera da Primavera

Há uma expressão contida no corpo amputado pela intransigência da poda. Uma expectativa. A árvore aguarda pacientemente que o ímpeto primaveril desperte o cimélio que se oculta no mais recôndito do cerne. E um dia, então, o vigor da seiva revelar-se-á numa explosão de pétalas, saudando o ansiado afago das águas de Abril.

tesouro escondido
no mais profundo do cerne
- à espera do sol -

a árvore tem como certo
o sopro da Primavera

1 de abril de 2005

dia das mentiras

larguei as minhas mãos na água
e elas partiram como duas trutas temerárias
nadando contra a corrente forte

voltaram pouco depois
abanando o rabo de contentamento

tinham encontrado no fundo do riacho
as pérolas irisadas dos teus olhos

30 de março de 2005

no cerne
do livro

a memória
da árvore

transpira
palavras

27 de março de 2005

páscoa

roxa e trémula

a pervinca
diz adeus à brisa

que passa a correr

a ver a procissão
no pomar florido

18 de março de 2005

no regaço


no regaço
do pinheiro manso
há uma casa de sombra
onde descanso

11 de março de 2005

bela adormecida

ao beijo do sol
desperta a Primavera
na flor do salgueiro

5 de março de 2005

Oráculo marinho

Sentado na duna
sob o pálido sol de Março
indago o oceano

Porque tarda a Primavera?

E o imenso espelho líquido
serenamente se agita
como uma mulher madura
balançando as ancas
e nada me diz

Pergunto a uma gaivota
porque persegue ela
o vai e vem das ondas
se logo em espuma se desfazem
na orla da praia

E num grito me responde:

- Não te esqueças que a vida
é feita de desencontros
e que o vento há-de apagar
o rasto das tuas pegadas.

20 de fevereiro de 2005

a fala das mãos

De artista ou de tirano, de criança ou de algoz, as mãos humanas são um prolongamento do próprio pensamento, uma marca da identidade individual. Para o bem e para o mal, o homem recria com as suas próprias mãos o mundo que o rodeia: com elas constrói casas e bombas, semeia trigo e escreve poemas. E quando já mais nada lhe resta, são as suas próprias mãos que ergue ao alto …em prece.

com as mãos te falo
pois está para lá das palavras
a fala das mãos

na escrita muda do gesto
o silêncio ganha voz

10 de fevereiro de 2005

espera por mim Corto Maltese

deixa-me beber
do elixir da eterna juventude
e tornar-me como tu
num andarilho sem idade

quero ir contigo
para as ilhas da fantasia e da aventura
a bordo de um velho veleiro
pirata ou talvez não

deixa-me levar só
o saxofone de Garbarek
e a cítara de Shankar
para encher de melancolia
as noites quentes dos mares do sul

quero entregar o corpo cansado
nos braços de uma mestiça sorridente
de olhos de amêndoa
e admirar o súbito poente
do sol meridional

espera por mim Corto Maltese

espera por mim

espera

6 de fevereiro de 2005

é preciso sacudir
de novo
o torpor das palavras

ruminando entretidas
o pasmo dos dias

é preciso sangrá-las
com o rigor do chicote

fazendo-as galopar
esbaforidas
pela planície da página

para que a luz matinal
derreta a geada
que nos tolhe o peito

17 de janeiro de 2005

é quando ao ninho
a ave torna

que a noite vem

sacudir a penugem
das estrelas

na planície
da tua pele morna

16 de janeiro de 2005

mãe

não importa o frio
o perigo
o medo

se em teu regaço
me abrigo
em segredo

9 de janeiro de 2005

maré negra

(às vítimas do maremoto asiático)

mói o grito cavo
da luz
no frio rosto do aço

perdeu-se o brilho
da lágrima
na fundura do espaço

ficámos só eu e tu
unidos
por este abraço

5 de janeiro de 2005

há dias em que
é tão fácil fechar os olhos

torna-se o peito
num prado de tulipas
por amanhecer

e é indiferente
dormir ou morrer

1 de janeiro de 2005

ano novo

névoa na campina –
o Inverno desembrulha
suas longas barbas

no horizonte velado
o balido de um cordeiro

28 de dezembro de 2004

barcos

chegam de madrugada
com suas vestes pálidas
desfraldadas ao sabor da brisa

cavalgando
o corpo sinuoso das ondas
como potros fumegantes

recolhem as asas
abertas
no limiar das águas

e adormecem extenuados
sobre as areias
os braços erguidos para o alto

25 de dezembro de 2004

à Alix de Carvalho

trajando o vestido azul e roxo
do crepúsculo
a lua sorridente
veio dar um beijo furtivo
ao sol poente

morta de ciúme
pelo que acabara de ver
a chuva cerrou o dossel das nuvens
e chorou até adormecer

devagarinho
a lua entreabriu a portada
e derramou os seus pálidos cabelos
sobre a campina prateada

24 de dezembro de 2004

Natal

Os primeiros a chegar foram os pastores, acompanhados do balido dos rebanhos, guiados pelo brilho das estrelas. A eles se seguiram outras gentes de porte humilde, a pele tisnada pelo sol e pelo calor da forja, as mãos calejadas pelas ferramentas rudes. Só depois vieram os sábios com as suas vestes solenes e as suas ofertas preciosas. Mas a todos se amaciou o coração ao ver o sorriso precoce daquele menino iluminando a noite fria. E foi Natal.

É noite do galo -
no presépio da aldeia
sorri um menino

evocando o milagre
da vida que se renova

20 de dezembro de 2004

agitam-se no teu olhar
as águas
de um mar revolto

e o vento do deserto
incendeia a tua pele

que tempestade é essa
que te amotina o sangue

nesta alvorada
de baunilha e mel?

19 de dezembro de 2004

a nostalgia dos poetas

(uma homenagem à lusofonia)

a nostalgia dos poetas
enche de ocultos sentidos
a língua que falo
a língua que falas

debatem-se os poetas
com as palavras que os habitam
escondidas debaixo da pele
como animais domésticos
à espera de um afago

e penteiam-nas meticulosamente
com o metal dos aparos
nesse delicado compromisso
entre o amargor da tinta
e a limpidez opaca do papel

folheiam
com os dedos manchados de azul
uma gramática ancestral
herdada da secreta errância dos povos
entre a dor e a alegria

e trazem na alma a compaixão
pelas difíceis coisas simples
que o sangue esconde
e a noite cala

acorrentados à sua impossível condição
nas brumosas masmorras deste país
que ao nascer da aurora se faz verde
e negro se torna ao poente de tanto esperar
todos os dias resistem os poetas
contra o medo e o olvido

e as palavras
libertas do seu quotidiano jugo
enchem o peito dorido dos poetas de desejo
de um destino para além da história

é o amor dos poetas pelas palavras
que torna possível
que as fronteiras desta pátria
se estendam entre a minha
e a tua língua

e que um dia o nosso abraço
se encontre
dos dois lados deste mar

13 de dezembro de 2004

epidemia de natal


um bando de fogueiras aladas
atravessa os céus da avenida
e faz ninho nos postes de iluminação pública

estrelas carnívoras e gigantes cristais de gelo
apoderam-se das copas das árvores
donde escorrem longos pingentes de luz

uma miríade de seres eléctricos
toma conta dos mais improváveis recantos da cidade
e reinventa a claridade na longa noite invernosa

as gentes são tomadas de amnésia
e obliteram o quotidiano sobressalto da violência

feitas erráticas mariposas
esfregam os narizes no aquário das montras
como se disso dependesse a sua sobrevivência

sorvem avidamente o ar frio da noite
e suspiram
mergulhadas numa nostálgica felicidade
envenenada pela ideia de uma infância que nunca viveram

mas a chuva continua a ser tão húmida e viscosa como sempre
e fora do halo luminoso do consumismo
a noite continua a ser tão escura como todas as noites escuras

que estranhos fenómenos provoca a epidemia do natal

11 de dezembro de 2004

à Monalisa (http://sitiodasaudade.blogspot.com/)

provei o teu sangue
agridoce
e enlouqueci

ó laranja de oiro

és uma réstia de sol
que eu colhi

10 de dezembro de 2004

verde é o trevo
que atapeta o chão
que pisas tão verde

verde a luz do bosque
ao fim do dia

verde é o desejo
que incendeia o corpo
deitado no trevo

verde o teu olhar
de maresia

8 de dezembro de 2004

Caçada

é noite de lua nova

os homens reúnem-se
entre as estantes da biblioteca
para a grande caçada
ao verso branco

procuram todas as pistas
todos os rastos
no ventre
dos livros mais antigos

é aí que o bicho
provoca mais estragos

é aí que a sua existência
é mais insidiosa
mais repulsiva
mais nefasta

os caçadores espiolham
a palidez do papel
em busca dos traços
imperceptíveis da fera

com redobrada cautela
seguem a marca
das suas pegadas

e mal vislumbram
o vulto vago do animal
assestam as armas

apontam à cabeça
e desferem sucessivos disparos
até que este se estatele
inerte no solo

depois lavam as mãos
devagar
e bebem vinho tinto
até de madrugada

7 de dezembro de 2004

testemunha do luminoso
bailado das chamas

o aplauso mudo
das cinzas na lareira

e um leve odor a fumo
temperando a alvorada

4 de dezembro de 2004

debaixo da capa
manchada
pelo afã dos dedos

na cálida pulsação
das palavras

o livro respira

e nele respira o poeta

27 de novembro de 2004

da vida selvagem

na época do acasalamento
os garfos limícolas reúnem-se em bandos
e ensaiam elaborados cânticos

numa dança frenética e cega
exaltam as virtudes do sal marinho
e procedem então à desova:

um único ovo de metal dourado
que se recolhe no horizonte
quando a noite cai