uma estranha calma
se apodera da cidade
cerzindo a dor dos vivos
e o olhar pasmado dos mortos
lenta
lentamente
das palavras sufocadas
germina um novo poema
feito com as lágrimas
que não souberam chorar
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
9 de julho de 2005
8 de julho de 2005
7 de julho de 2005
amanheceu o sangue

amanheceu o sangue
no coração da cidade cosmopolita
como ontem amanheceu
nos campos da Palestina
como amanhece sempre
em todos os sítios do mundo
onde a insanidade humana
faz explodir bombas
em vez de florir pão
se o cenário muda
a dor é a mesma
e a morte
igualmente estúpida
igualmente cega
3 de julho de 2005
Metáforas do corpo

FOTO: Carlos Fernandes
O palco acolhe sempre com agrado as metáforas do corpo. Desenrolam-se sobre as tábuas os factos imaginados que os gestos tornam reais: o amor e o ódio, a lealdade e a traição, o nascimento e a morte, o riso e as lágrimas. Tudo se revela naquele rectângulo escuro, como se o mundo dos homens coubesse inteiro numa caixa. Depois, aturdido ainda pelo eco das palmas, o estrado vazio aguarda em silêncio pelo quente palpitar das palavras.
revela-se o homem
numa vida imaginada
sobre o tabuado
em toda a sua grandeza
em toda a sua miséria
30 de junho de 2005
memória do estio

Les Glaneuses - Jean-François Millet
a meda de feno
é um grito de sombra
no ermo dorido
onde repousa a tarde
o corpo ressequido
14 de junho de 2005
13 de junho de 2005
quando a voz
(a Eugénio de Andrade)
quando a voz se desenlaça
quando o oiro das palavras
se conjuga em verde e pão
não há morte nem devassa
é só a brisa que passa
e colhe uma rosa em botão
Categorias
Dedicatórias
12 de junho de 2005
10 de junho de 2005
5 de junho de 2005
são como madeixas
são como madeixas
ao vento
algas soltas
no vai e vem da maré
as palavras sem destino
vogando
à revelia do poema
ao vento
algas soltas
no vai e vem da maré
as palavras sem destino
vogando
à revelia do poema
29 de maio de 2005
as asas da inocência
Serão as asas que fazem os anjos? Serão as asas?
Sabemos que o ónus do corpo, mesmo disfarçado pela leveza da túnica, impede definitivamente o voo. Mas isso que importa, se a tarde é de festa e os rostos se iluminam de sorrisos?
Sim! De penas, de tule ou de cetim, são as asas que fazem os anjos. Porque, aos meninos, o que lhes falta em divindade, sobra-lhes em inocência.
ao colo da mãe -
o anjo da procissão
não pode voar
as asas que tem nas costas
são de tule e de cetim
Sabemos que o ónus do corpo, mesmo disfarçado pela leveza da túnica, impede definitivamente o voo. Mas isso que importa, se a tarde é de festa e os rostos se iluminam de sorrisos?
Sim! De penas, de tule ou de cetim, são as asas que fazem os anjos. Porque, aos meninos, o que lhes falta em divindade, sobra-lhes em inocência.
ao colo da mãe -
o anjo da procissão
não pode voar
as asas que tem nas costas
são de tule e de cetim
24 de maio de 2005
15 de maio de 2005
11 de maio de 2005
bandeiras de fumo
Vistosa como um paroquiano endomingado, a chaminé domina o horizonte dos telhados. Erecta e vigilante, desafia as intempéries, entre a alvura da cal e a negrura da fuligem. Agita no ar suas bandeiras de fumo, ignorando o turbilhão do vento que logo as dispersa. Como se gritasse na sua teimosia: Ouviram? Aqui vive gente.
bandeiras de fumo
agitam-se num turbilhão
incensando os ares
sobre os telhados da aldeia
o grito das chaminés
bandeiras de fumo
agitam-se num turbilhão
incensando os ares
sobre os telhados da aldeia
o grito das chaminés
22 de abril de 2005
10 de abril de 2005
creio na arte da caminhada
no poder das pernas e dos pés
que se recusam a parar
sulcando a erva densa da savana
enfrentando a aridez silenciosa do deserto
trilhando os carreiros pedregosos da montanha
riscando a superfície gelada dos glaciares
deixando marcas ténues mas indeléveis
na poeira dos caminhos
creio no mistério da caminhada
onde finalmente se desvenda a origem da fala
creio na urgência da viagem
pelo ignoto mundo das palavras
no poder das pernas e dos pés
que se recusam a parar
sulcando a erva densa da savana
enfrentando a aridez silenciosa do deserto
trilhando os carreiros pedregosos da montanha
riscando a superfície gelada dos glaciares
deixando marcas ténues mas indeléveis
na poeira dos caminhos
creio no mistério da caminhada
onde finalmente se desvenda a origem da fala
creio na urgência da viagem
pelo ignoto mundo das palavras
Manual de Culinária
Nem só de poesia vive o homem. E a prosa também é para comer?
Tire as dúvidas no Manual de Culinária.
Tire as dúvidas no Manual de Culinária.
8 de abril de 2005
7 de abril de 2005
5 de abril de 2005
4 de abril de 2005
3 de abril de 2005
às flores do marmeleiro
singela
no seu vestido de chita
uma donzela
acena sobre o outeiro
- enleia-se a brisa
nas flores do marmeleiro
no seu vestido de chita
uma donzela
acena sobre o outeiro
- enleia-se a brisa
nas flores do marmeleiro
2 de abril de 2005
à espera da Primavera
Há uma expressão contida no corpo amputado pela intransigência da poda. Uma expectativa. A árvore aguarda pacientemente que o ímpeto primaveril desperte o cimélio que se oculta no mais recôndito do cerne. E um dia, então, o vigor da seiva revelar-se-á numa explosão de pétalas, saudando o ansiado afago das águas de Abril.
tesouro escondido
no mais profundo do cerne
- à espera do sol -
a árvore tem como certo
o sopro da Primavera
tesouro escondido
no mais profundo do cerne
- à espera do sol -
a árvore tem como certo
o sopro da Primavera
1 de abril de 2005
dia das mentiras
larguei as minhas mãos na água
e elas partiram como duas trutas temerárias
nadando contra a corrente forte
voltaram pouco depois
abanando o rabo de contentamento
tinham encontrado no fundo do riacho
as pérolas irisadas dos teus olhos
e elas partiram como duas trutas temerárias
nadando contra a corrente forte
voltaram pouco depois
abanando o rabo de contentamento
tinham encontrado no fundo do riacho
as pérolas irisadas dos teus olhos
27 de março de 2005
18 de março de 2005
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