9 de outubro de 2005

o vento murmura

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o vento murmura
entre o arvoredo
versos de saudade

às folhas que voam
no céu das andorinhas

8 de outubro de 2005

a romãzeira

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São cor de rubi as lágrimas da romãzeira, rendida ao canto do rouxinol.

5 de outubro de 2005

da impossível palavra

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[The Wave - William-Adolphe Bouguereau]

da impossível palavra
arrojada pela maré

do poema cavalgando
o voo raso do vento

só a alvura da espuma
pairando
por um momento

4 de outubro de 2005

ontem era assim

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[Wassily Kandinsky - Composition 4]


ontem era assim

a lavra das ondas
ao redor da ilha

o incerto abismo
que não sabe o nome

pecíolos suspensos
na muralha impura

gestos e palavras
protelados

hoje ainda

3 de outubro de 2005

as velas do moinho

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«mesmo decepada / a verdadeira palavra voa»
Xavier Zarco


as velas do moinho
lembram aquela toada
antiga e doce

do tempo em que
a terra fermentava
os ecos da enxada

e das palavras
germinavam
asas e fontes

2 de outubro de 2005

quero correr mundo

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quero correr mundo
numa melodia

beber das palavras
apenas o sol

saborear

embriagar-me
com o vento das estepes
o aroma acre das ruas
o embalo das vagas

dizer adeus
no deserto

e voltar

1 de outubro de 2005

não sei que presságio

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não sei que presságio
me atrai à bruma

ao horizonte submerso

às silhuetas difusas
comungando
a opaca luz matinal

não sei que vertigem
me arroja às pedras

ao recorte das sombras

à sentida penumbra
dos castelos
por conquistar

29 de setembro de 2005

pálida de giz

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pálida de giz
na manhã velada

a lua de Outono
declara o equinócio

28 de setembro de 2005

é dentro da maçã

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é dentro da maçã
que a borboleta
sonha as asas

27 de setembro de 2005

no âmago da cal

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no âmago da cal
se acoita a sombra
que magoa as casas

e fermenta os gestos
na palidez das almas

mordendo a alvenaria

à espera da alvorada

26 de setembro de 2005

O Verão corre ligeiro

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(Foto de Carlos Fernandes)

O Verão corre ligeiro por planícies e encostas. Detém-se, por momentos, madurando as searas e os pomares, salpicando de amarelo e rubro os verdes primaveris.
Deixa-se embalar pela ladainha da brisa nas árvores e pelo queixume dos riachos e das fontes à míngua de água. Preguiça um pouco à sombra das oliveiras, observando o voo errático dos insectos. Mas não tem tempo para a sesta, porque logo se lança de novo em corrida, gritando:
- Até para o ano! Até para o ano!

pernas ao caminho
que o Verão não espera
- já lá vai à curva

e o tempo é uma corrida
em que não há vencedor

despentear-se

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despentear-se
nos dedos da brisa

o secreto anseio
da árvore

numa gota de orvalho

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numa gota de orvalho
lava o rosto
a estrela da manhã

12 de julho de 2005

tal como a água
as palavras nunca dormem -

uma árvore de fogo
ilumina o bojo nocturno da boca

e atraiçoa a transparência líquida
do verbo

insinuando o rigor marmóreo
do silêncio

o sono jamais

9 de julho de 2005

uma estranha calma
se apodera da cidade

cerzindo a dor dos vivos
e o olhar pasmado dos mortos

lenta
lentamente

das palavras sufocadas
germina um novo poema

feito com as lágrimas
que não souberam chorar

8 de julho de 2005

entardecem as palavras
se o sangue
lhes é indiferente

murmúrio oco
embalando as consciências

cegueira consentida
ignorando o pesadelo:

a cidade das promessas por cumprir
continua
trucidando inocentes

7 de julho de 2005

amanheceu o sangue

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amanheceu o sangue
no coração da cidade cosmopolita

como ontem amanheceu
nos campos da Palestina

como amanhece sempre
em todos os sítios do mundo
onde a insanidade humana
faz explodir bombas
em vez de florir pão

se o cenário muda
a dor é a mesma

e a morte
igualmente estúpida
igualmente cega

6 de julho de 2005

noite sem luar

só o aroma da fruta
habita o pomar

3 de julho de 2005

Metáforas do corpo

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FOTO: Carlos Fernandes

O palco acolhe sempre com agrado as metáforas do corpo. Desenrolam-se sobre as tábuas os factos imaginados que os gestos tornam reais: o amor e o ódio, a lealdade e a traição, o nascimento e a morte, o riso e as lágrimas. Tudo se revela naquele rectângulo escuro, como se o mundo dos homens coubesse inteiro numa caixa. Depois, aturdido ainda pelo eco das palmas, o estrado vazio aguarda em silêncio pelo quente palpitar das palavras.

revela-se o homem
numa vida imaginada
sobre o tabuado

em toda a sua grandeza
em toda a sua miséria

30 de junho de 2005

memória do estio

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Les Glaneuses - Jean-François Millet

a meda de feno
é um grito de sombra
no ermo dorido

onde repousa a tarde
o corpo ressequido

14 de junho de 2005

refeição nua


há um banquete de pólen
no jardim do amor
eu serei a abelha e tu a flor

13 de junho de 2005

quando a voz

 (a Eugénio de Andrade)

quando a voz se desenlaça

quando o oiro das palavras
se conjuga em verde e pão

não há morte nem devassa

é só a brisa que passa
e colhe uma rosa em botão

12 de junho de 2005

cerejas

cerejas
fartas e rubras

um reflexo
dos teus lábios
salpicando o cerejal

10 de junho de 2005

Junho

Junho - já o calor
aloira as ervas

maduros de sol
pendem da árvore prenha
os frutos do Verão

5 de junho de 2005

são como madeixas

são como madeixas
ao vento

algas soltas
no vai e vem da maré

as palavras sem destino
vogando
à revelia do poema

29 de maio de 2005

as asas da inocência

Serão as asas que fazem os anjos? Serão as asas?
Sabemos que o ónus do corpo, mesmo disfarçado pela leveza da túnica, impede definitivamente o voo. Mas isso que importa, se a tarde é de festa e os rostos se iluminam de sorrisos?
Sim! De penas, de tule ou de cetim, são as asas que fazem os anjos. Porque, aos meninos, o que lhes falta em divindade, sobra-lhes em inocência.


ao colo da mãe -
o anjo da procissão
não pode voar

as asas que tem nas costas
são de tule e de cetim

24 de maio de 2005

enche o vento de sentenças
quem se quer poeta à força

bem o sabe a lagartixa
que goza o sol sobre as pedras

- a verdade do poema
está para além das palavras

15 de maio de 2005

a urgência das palavras
desassossega a carne

encurralada
entre a opacidade dos dias
e a vertigem da morte

- no íntimo labor dos dedos
escrever é já

11 de maio de 2005

bandeiras de fumo

Vistosa como um paroquiano endomingado, a chaminé domina o horizonte dos telhados. Erecta e vigilante, desafia as intempéries, entre a alvura da cal e a negrura da fuligem. Agita no ar suas bandeiras de fumo, ignorando o turbilhão do vento que logo as dispersa. Como se gritasse na sua teimosia: Ouviram? Aqui vive gente.

bandeiras de fumo
agitam-se num turbilhão
incensando os ares

sobre os telhados da aldeia
o grito das chaminés

10 de maio de 2005

bando de gaivotas
rasgando o nevoeiro

adejam as palavras
sobre o oceano
do poema