20 de fevereiro de 2006

o bico do melro

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mesmo em plena chuva
o melro traz no bico
um raio de sol

18 de fevereiro de 2006

chuva

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que importam as lágrimas
impacientes de Perséfone

a líquida melancolia
escorrendo na vidraça

se a macieira agradece
a mercê das águas

e engendra em segredo
os perfumes da Primavera

17 de fevereiro de 2006

ode amazónica

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descrentes do tropical dilúvio
os pássaros tornam autónomas as asas
manuseando um robusto utensílio
de funções circulares

intensas e verdes
as fêmeas auscultam a temperatura da seiva
nesse universo habitado
onde as árvores adormecem à chuva

habituadas à fina cútis das ostras
tomam nas presas
a dieta incalculável das areias
sob a planície transparente das águas

mas é da torrente ininterrupta
onde se misturam os sedimentos dos rios
e dos lagos
que os mais jovens se alimentam

partindo então rumo à savana branca
atraídos pela exuberante panorâmica
dos incêndios

15 de fevereiro de 2006

o lado cruel das palavras

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a noite é dos seres opacos
que preferem o silêncio das trevas
à crueza da luz

eles sonham que lá no fundo
no reduto mais sombrio da alma
arqueja o lado cruel das palavras

como uma víbora mortífera
à espera do momento certo
para dar o bote

eis porque se ocultam
silenciosos e opacos
os seres da noite

quem sabe se em penitência

13 de fevereiro de 2006

deixa mirar-te

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deixa mirar-te em silêncio

enquanto aguardo
que o voo sincopado da carriça
traga um presságio
de primavera

e a ternura das tuas mãos

11 de fevereiro de 2006

epitáfio

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quando a ira primitiva
incendeia a turba

e a indignação se muda
em indignidade

com sangue se grafam
as laudas do credo

e agoniza na calçada
a pomba da Liberdade

5 de fevereiro de 2006

jardinagem

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um espinho de roseira
rasga o dorso da tarde

solta-se a terra das botas
no canteiro das horas

e há uma semente perene
germinando entre os dedos

uma flor de névoa
amornando os lábios

um alfobre de ilusões
cantando aqui e agora

- é com as rugas da face
que se aduba a fantasia

31 de janeiro de 2006

neve

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seduzida pelo beijo do frio

a montanha
de branco se desnuda

28 de janeiro de 2006

a arte de tricotar a pedra

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FOTO: Carlos Fernandes

Ensina-me a arte de tricotar a pedra e a tecer o cordame dos navios na brancura leitosa do calcário. Quero apartar da massa amorfa a saga barroca dos marinheiros de antanho. Partir de cinzel na mão em busca das plantas e dos bichos exóticos das Índias Orientais. Navegar entre as volutas dos capitéis com a clarividência do sol nascente. Lançar âncora no imaginário de um porto longínquo. E, por fim, assinar nas lajes polidas pelo tempo com as sombras do entardecer.

quero entretecer
o cordame dos navios
com o meu cinzel

e navegar à bolina
num mar de pedra calcária

1 de janeiro de 2006

O jogo do Tempo

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FOTO: Carlos Fernandes

Acabou a partida. Cartas na mesa, vamos a outra, que a sorte está de novo lançada.
Tudo é de novo possível, que nem sempre ganha quem mais trunfos tem. E não é preciso trazer cartas na manga ou fazer batota rasteira. Basta abrir os olhos e afinar uma estratégia franca e corajosa. E os «ases», as «biscas», os «reis», as «damas» e os «valetes» voltam a embainhar as «espadas», arrecadam os «paus», fecham-se em «copas» …e são obrigados a abrir mão dos «ouros», devolvendo-os a quem de direito.
Pode ser assim o jogo do Tempo!

No jogo do Tempo
não há batota que vingue
- nem cartas na manga.

Só ganha quem enfrentar
a «má sorte» cara-a-cara.

5 de dezembro de 2005

lamento atlante

como resistir ao apelo das ondas
se nos demandam
do mais profundo do ser

se em cada célula do corpo
inscreve a água
o seu testamento

se em cada recanto da alma
brada a voz
do nosso marítimo destino

4 de dezembro de 2005

a festa dos olhos

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(Foto de Carlos Fernandes)

É dia de aniversário e a impaciência da menina mal consegue aguentar as etapas do ritual festivo: o soprar das velas, o cortar do bolo, a abertura das prendas. Com o corpo tolhido pelas convenções dos adultos, a pequena antecipa as surpresas a que tem direito. E os seus olhos irrequietos saltitam como dois passarinhos debicando migalhas sobre a mesa.

olhos de menina -
são estrelas cintilantes
brilhando no escuro

passarinhos curiosos
saltitando sobre a mesa

25 de novembro de 2005

para lá do reino da chuva

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para lá do reino da chuva

o dia luminoso
nas asas do rouxinol

sobre as árvores desgrenhadas

o sol

12 de novembro de 2005

testamento onírico

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com os cabelos da musa
aconchego a almofada

dou asas à fantasia
sob um céu de marmelada

sinto um certo desconforto
na palavra voluntária

filo pois do azorrague
açoito a fama precária

lá fora o dito ladra
- de nada serve ter medo

que mesmo atrás da máscara
a vida não é segredo

31 de outubro de 2005

o sorriso dos meninos

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FOTO: Carlos Fernandes

Para lá do arame farpado, os rostos dos meninos a quem roubaram o sorriso, suspensos numa pergunta: o que foi que aconteceu?
Que loucura foi esta que nem o olhar límpido das crianças foi capaz de suster? Porque é que, depois de tantos anos, tanta dor, tantas lágrimas, tantas palavras sentidas, o arame farpado continua a estar ali, aqui, além, roubando o sorriso dos meninos?

já não há sorrisos
nos rostos por detrás
do arame farpado

apenas um olhar
apenas uma pergunta

22 de outubro de 2005

aberta a crisálida

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aberta a crisálida
matinal
a palavra declina o voo

o corpo translúcido
firmado
na solidez da página

que do esforço das asas
sobeja tão só
o lampejo de um clarão

mas basta um sussurro e
[na combustão do poema]
inicia-se a metamorfose
da ave primordial

15 de outubro de 2005

que nos diz a flor do cardo

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«a palavra // ergue-se / mas não com destino de estátua / mas de árvore»
Xavier Zarco


que nos diz a flor do cardo
do destino das palavras

cujas raízes fertilizam
a voz doída do vento

árvores de pedra
dilacerando o poema

talvez fósseis
talvez sementes

13 de outubro de 2005

a dança dos pássaros

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a dança dos
pássaros
no céu de chumbo
tem um travo de
despedida
que a chuva não
apaga

11 de outubro de 2005

é quando

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é quando os estames
assomam
por entre a turfa

e trazem à luz
o vigor da seiva

é quando a maresia
espreita
o declínio da tarde

e simula o voo
opalino das garças

é quando esse ser
antigo
esboça um rito mortal

e o nevoeiro se ensopa
de vozes férteis

é quando as palavras
(sempre as palavras)
se recusam

9 de outubro de 2005

o vento murmura

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o vento murmura
entre o arvoredo
versos de saudade

às folhas que voam
no céu das andorinhas

8 de outubro de 2005

a romãzeira

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São cor de rubi as lágrimas da romãzeira, rendida ao canto do rouxinol.

5 de outubro de 2005

da impossível palavra

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[The Wave - William-Adolphe Bouguereau]

da impossível palavra
arrojada pela maré

do poema cavalgando
o voo raso do vento

só a alvura da espuma
pairando
por um momento

4 de outubro de 2005

ontem era assim

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[Wassily Kandinsky - Composition 4]


ontem era assim

a lavra das ondas
ao redor da ilha

o incerto abismo
que não sabe o nome

pecíolos suspensos
na muralha impura

gestos e palavras
protelados

hoje ainda

3 de outubro de 2005

as velas do moinho

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«mesmo decepada / a verdadeira palavra voa»
Xavier Zarco


as velas do moinho
lembram aquela toada
antiga e doce

do tempo em que
a terra fermentava
os ecos da enxada

e das palavras
germinavam
asas e fontes

2 de outubro de 2005

quero correr mundo

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quero correr mundo
numa melodia

beber das palavras
apenas o sol

saborear

embriagar-me
com o vento das estepes
o aroma acre das ruas
o embalo das vagas

dizer adeus
no deserto

e voltar

1 de outubro de 2005

não sei que presságio

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não sei que presságio
me atrai à bruma

ao horizonte submerso

às silhuetas difusas
comungando
a opaca luz matinal

não sei que vertigem
me arroja às pedras

ao recorte das sombras

à sentida penumbra
dos castelos
por conquistar

29 de setembro de 2005

pálida de giz

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pálida de giz
na manhã velada

a lua de Outono
declara o equinócio

28 de setembro de 2005

é dentro da maçã

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é dentro da maçã
que a borboleta
sonha as asas

27 de setembro de 2005

no âmago da cal

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no âmago da cal
se acoita a sombra
que magoa as casas

e fermenta os gestos
na palidez das almas

mordendo a alvenaria

à espera da alvorada

26 de setembro de 2005

O Verão corre ligeiro

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(Foto de Carlos Fernandes)

O Verão corre ligeiro por planícies e encostas. Detém-se, por momentos, madurando as searas e os pomares, salpicando de amarelo e rubro os verdes primaveris.
Deixa-se embalar pela ladainha da brisa nas árvores e pelo queixume dos riachos e das fontes à míngua de água. Preguiça um pouco à sombra das oliveiras, observando o voo errático dos insectos. Mas não tem tempo para a sesta, porque logo se lança de novo em corrida, gritando:
- Até para o ano! Até para o ano!

pernas ao caminho
que o Verão não espera
- já lá vai à curva

e o tempo é uma corrida
em que não há vencedor