1 de abril de 2007

Sob o céu da Abadia


FOTO: Carlos A. Silva

Abril chegou finalmente. As núvens brincaram todo o dia às escondidas com o sol da Primavera. Ao cair da tarde, há uma bela pintura impressionista cobrindo o horizonte.

31 de março de 2007

bandeira hasteada


FOTO: Carlos Fernandes

No alto da sua esguia forma, a velha palmeira solitária rivaliza com os mastros vazios da modernidade. Agita mansamente as suas folhas roçagantes como uma bandeira sempre hasteada, oscilando ao sabor da brisa. Espectadora do frémito que anima as gentes que flúem a seus pés, reivindica um lugar na memória da urbe. Tantas casas que já viu erguer e derrubar para de novo levantar... e tantas vidas…

bandeira hasteada
sobre os telhados da urbe
ao sabor da brisa

- na palmeira ancestral
vive a memória das casas

8 de março de 2007

porque geme a brisa



porque geme a brisa
entre as ervas
lamentando a sua sina de mulher

se o sol enche a tarde de oiro

e até os braços fatigados
da velha macieira
continuam a celebrar a primavera…

4 de março de 2007

luz própria



viras as costas à luz
que te estonteia
- tímida e discreta -

mas basta essa íntima
claridade que te incendeia
de tão secreta

3 de março de 2007

O enigma do gafanhoto


FOTO: Carlos Fernandes

Que novidades trazes tu, gafanhoto saltarelo? Diz-me o que se passa por esse mundo fora, enquanto descansas num fio de erva embalado pela brisa. Fala-me da quentura dos desertos, da verde humidade da densa floresta, do sobressalto constante da savana, do eco das aves de rapina estremecendo a neve da montanha. Fala-me das grandes tempestades que rasgam os céus de espanto, das catástrofes que ensombram o coração das gentes, da demência que lança irmãos contra irmãos, das sete pragas do Egipto, das mil e uma quimeras…
Não és tu o incansável viajante que tudo viu e tudo sabe? Ou serás apenas um pobre bicho provinciano que nasceu e há-de morrer dentro dos limites do meu quintal?

descansa na brisa
baloiçando com as ervas
este gafanhoto

- que coisas sabe do mundo
para lá do meu quintal?

3 de fevereiro de 2007

O sorriso do arco-íris


FOTO: Carlos Fernandes

Nenhuma ave se aventura sob o céu de chumbo e os insectos já calaram as cegarregas - apenas o vento se faz soar entre as ervas. As nuvens ameaçam os últimos raios de sol que brincam sobre as pedras e há um odor a tempestade dominando o horizonte. Mas, ao longe, um rasto colorido começa a ganhar consistência, desafiando a borrasca…

nem voos nem trilos
desassombram a paisagem

sob o céu de chumbo
apenas o arco-íris
desafia a tempestade

1 de janeiro de 2007

o desígnio do gesto


FOTO: Carlos Fernandes

O vigor do aço indaga a matéria informe, desnudando o perfil da própria mão que a afeiçoa. Na alvura do calcário se dá sentido ao desígnio do gesto. Pela força da mão se transfigura a pedra, em luz e sombra, como se da sua original substância nada mais restasse que a polidez de um espelho.

molda-se a pedra
ao paciente labor
do rude cinzel

no aconchego da mão
se retrata o humano afago

2 de dezembro de 2006

em teu abraço


em teu abraço resisto
contra a usura do tempo

sou musgo, tu és muralha
em ti me apoio e sustento


1 de dezembro de 2006

entre a luz e a sombra


FOTO: Carlos Fernandes

Soltam-se braços e pernas, cabeças e torsos, entre a luz e a sombra. Inebriados pela melodia, agitam-se os corpos síncronos, entregues à dança, no fulgor da juventude. Gestos delicados e gráceis, como um sortilégio, enchem o espaço e prendem o olhar. Deixam no ar um augúrio, uma promessa, uma certeza…

volteiam os corpos
num rito de encantamento
entre a luz e a sombra

- a sedução do olhar
na sincronia da dança

os cactos de elsinore


(a Mário Cesariny)

endurecidas
pela aridez dos desertos

laceram-nos a carne
como espinhos fundentes

as palavras que sobem
à boca dos poetas

e nos mordem a alma
ferozes e ardentes

29 de novembro de 2006

velando as águas


velando as águas
estremunhadas
do rio

um rasto de névoa
- num fio –
espreguiça-se
e boceja
ao longo do vale

enquanto se penteia
ao sol matinal

18 de novembro de 2006

enleio


o céu não enjeito
quando à terra me enlaço
e nela me deito
 

13 de novembro de 2006

medronhos



semeei entre a erva
um punhado de beijos
- à espera de ser colhidos

10 de novembro de 2006

raízes



se lanço raízes é porque
em teu ventre persisto
em teu regaço me abrigo

9 de novembro de 2006

quando à luz



quando à luz
da manhã se rompe
o torpor da neblina
há um odor a erva fresca
adoçando a colina

29 de outubro de 2006

janela fechada


FOTO: Carlos Fernandes

Lá fora, o sol brinca sobre as telhas, simulando no rebordo das sombras o rendilhado da trapeira. A lacónica brisa joga às escondidas entre as chaminés e faz vibrar os mastros das antenas. No entanto, por detrás dos vidros baços, o silêncio passeia-se na casa fechada, só contrariado pelo marulhar dos insectos xilófagos. Para quando o dia em que de novo se ouvirá o palpitar dos passos no soalho e uma lufada de ar fresco desfraldará a janela?

p’ra lá da vidraça
só o silêncio habita
a casa vazia

até que um dia a janela
se abra de par em par

19 de outubro de 2006

os lírios



silenciosos e flexíveis
agitam-nos por dentro

os lírios

que afluem do interior das sombras
à berma dos campos lavrados

a pétala perfeita e suave
reflectida no espelho inquieto das águas

e a folhagem breve
mais fugaz que um dia de sol

robustos lírios sensíveis ao improviso
aplacai a nossa ânsia profunda

dispensai à carne que se esvai
um pouco da vossa essência oblíqua e vegetal

armazenai no pecíolo sedento
palavras raras, essenciais

das que nem sempre trazem certezas,
mas sim aromas laterais

que de tal ânimo
nos refundem os sentidos

1 de outubro de 2006

fila harmónica

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FOTO: Carlos Fernandes

Em cadência lenta, marcada pela percussão, avança a filarmónica, agitando a rua com o trinado dos clarinetes e das flautas. De vez em vez, insurgem-se os trompetes, rivalizando com os fliscornes, os saxofones e os trombones. Ripostam as trompas e as tubas. E logo estralejam os pratos, no seu brado metálico, a pôr ordem na melodia. Responde o assisado bombardino que é dia de devoção, mas também de folguedos e alegria.

o sopro dos músicos
enchendo a rua de sons
- é dia de festa -

e a gente acorre à janela
a ver a banda passar

3 de setembro de 2006

Mimese

mimese.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

O escultor traz nas mãos o frémito de uma ideia. E o barro dócil cede à pressão dos dedos, às carícias da fantasia. Da massa inerte emergem as formas de um corpo mítico, como um poema feito substância. Recria-se o mundo num gesto sereno. Celebra-se, na mimese, o acto da Criação.

cede o barro dúctil -
a força de uma ideia
vertendo das mãos

assim brotam as palavras
da matéria do poema

1 de agosto de 2006

o vagar das pernas

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FOTO: Carlos Fernandes

Pernas, para que vos quero? Para dar asas ao medo? Para sacudir o jugo dos tiranos e dos importunos? Para me conduzirdes, sem delongas, pelos trilhos deste mundo? Ou, simplesmente, para entrecruzar com outras pernas, na elementar consumação do descanso? …

repousam as pernas -
os caprichos da fortuna
numa inércia breve

enganosa indolência
de uma vida andarilha

2 de julho de 2006

a vida é agora

bola.jpg
FOTO: Carlos Fernandes

O tempo corre veloz, como uma bola rolando na calçada. Mas as crianças, embrenhadas no prazer do jogo, de tudo se alheiam, crendo no riso sem limites. Esquecem que, tal como eles, o trigo continua a crescer, indiferente aos remoinhos da aragem e o voo das aves se precipita em obscuros abismos. E isso, que importa? A bola rola, redonda e lesta, na alegria do aqui e agora.

que nos diz a bola
rolando pela calçada?

- a vida é agora
que importa a hora que passa
se a alegria nos demora?

21 de junho de 2006

solstício

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num riso de pétalas
a tília anuncia
o Verão que chega

4 de junho de 2006

Filho do vento

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[Foto: Carlos Fernandes]

Sou filho do vento e trago o fogo no peito. Se aqui me vês de freio na boca, ajaezado e submisso, nada te diz do tempo que passo calcorreando montes e prados, saltando valas e silvados, as crinas ao sabor da brisa. Por breves instantes, te pareço o que não sou. Mas o meu verdadeiro ser não tem peias nem amarras e o meu secreto nome é apenas conhecido por quantos amam a liberdade.

de crinas ao vento -
sob as patas do cavalo
a terra estremece

um clamor de liberdade
ecoando na planície

18 de maio de 2006

giesta

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o grilo já canta
à hora da sesta

louva o sol de Maio
que doura a giesta

6 de maio de 2006

de mão em mão

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FOTO: Carlos Fernandes

Depois do sacrifício da fé, sagrado e profano misturam-se na alegria da festa. Leiloam-se em louvor da santa os bolos da tradição e a intenção devota sacraliza o vil dinheiro. Passam de mão em mão os sabores da romaria, neste tempo de rogos e promessas. São os alimentos rituais a sustentar simbolicamente os anseios de um futuro promissor e a garantir a ordem deste mundo conturbado.

como uma prece -
os bolos da romaria
vão de mão em mão

há um cheiro de erva-doce
perfumando o arraial

3 de abril de 2006

memória de abril

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FOTO: Carlos Fernandes

Que música silenciou as armas naquele distante dia de Abril? Lembro-me que havia sorrisos ornando as faces da gente que acudiu à rua, a confirmar a urgência daquele grito de liberdade. Havia ecos de canções proibidas retinindo nas praças. E o clamor das palavras reprimidas, enfim voando entre as pombas alvoroçadas. E lembro-me que havia um aroma de cravos de todas as cores perfumando o ar.

calaram-se as armas
engalanadas de cravos
- fez-se Primavera

e um grito de liberdade
riscou o azul do céu

13 de março de 2006

esta manhã

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esta manhã
uma árvore nasceu
com as raízes embutidas
no húmus do meu peito

o sol acordou no lenho
o anseio vertical da seiva
e a copa confundiu-se com
as fibras dos meus cabelos

eram muitos os pássaros
que habitavam a árvore do meu peito
exaltando-a em arrebatados gorjeios

esta manhã
era eu a árvore do meu peito

e eu também
os pássaros que a habitavam

esta manhã
acordou em mim a primavera

26 de fevereiro de 2006

bailarico estremenho

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FOTO: Carlos Fernandes

A alegria permanece no âmago da gente, silenciosa e queda como um animal em hibernação. Mas de vez em quando é preciso esquecer mágoas e canseiras. O riso vem ao de cima e toma conta dos rostos cismáticos e frios, fazendo-os vibrar como as cordas de uma viola. Surge das entranhas e apodera-se do peito, das pernas e dos braços, activando-os numa explosão vital. E nas gargantas se ateia o canto e os corpos irrompem numa dança enérgica, trazendo do fundo dos tempos os ritmos e as melodias do bailarico dos nossos avós.

há festa na eira -
valseiam os bailadores
ao som da tocata

dando asas à alegria
contra mágoas e canseiras

20 de fevereiro de 2006

o bico do melro

melro.jpg

mesmo em plena chuva
o melro traz no bico
um raio de sol

18 de fevereiro de 2006

chuva

chuva.jpg

que importam as lágrimas
impacientes de Perséfone

a líquida melancolia
escorrendo na vidraça

se a macieira agradece
a mercê das águas

e engendra em segredo
os perfumes da Primavera