anda, vem comigo
vamos aprender a linguagem
secreta dos pássaros
vamos trepar à árvore mais alta
e adivinhar o sabor do luar
vamos perscrutar a solidão da noite
em busca do sussurro das estrelas
vamos descobrir numa praia qualquer
o brilho acetinado da madrepérola
vamos resgatar a inocência
que a bigorna do tempo destroçou
e aceitaremos a chuva morna da Primavera
como uma dádiva perene
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
10 de abril de 2007
2 de abril de 2007
Ao rio Lis

FOTO: Carlos A. Silva
Desenganem-se se pensam que durmo - diz o rio no seu vagar. Que é a névoa senão o bocejo das águas insones?
Categorias
Aforismos
1 de abril de 2007
Perigo de queda

FOTO: Carlos A. Silva
Há que ser prudente. Se num voo de gaivota nos perdemos no turbilhão da brisa, a queda pode ser fatal.
Categorias
Aforismos
O farol de S. Pedro de Muel

FOTO: Carlos A. Silva
Encara o mar aberto sem vacilar. Sólido e vertical, lança a sua luz na escuridão, avisando os marinheiros: não vos fieis na voz das sereias que se armadilham nas escarpas aguçadas da costa.
Categorias
Aforismos
Sob o céu da Abadia

FOTO: Carlos A. Silva
Abril chegou finalmente. As núvens brincaram todo o dia às escondidas com o sol da Primavera. Ao cair da tarde, há uma bela pintura impressionista cobrindo o horizonte.
Categorias
Aforismos
31 de março de 2007
bandeira hasteada

FOTO: Carlos Fernandes
No alto da sua esguia forma, a velha palmeira solitária rivaliza com os mastros vazios da modernidade. Agita mansamente as suas folhas roçagantes como uma bandeira sempre hasteada, oscilando ao sabor da brisa. Espectadora do frémito que anima as gentes que flúem a seus pés, reivindica um lugar na memória da urbe. Tantas casas que já viu erguer e derrubar para de novo levantar... e tantas vidas…
bandeira hasteada
sobre os telhados da urbe
ao sabor da brisa
- na palmeira ancestral
vive a memória das casas
Categorias
imagens faladas
8 de março de 2007
porque geme a brisa

porque geme a brisa
entre as ervas
lamentando a sua sina de mulher
se o sol enche a tarde de oiro
e até os braços fatigados
da velha macieira
continuam a celebrar a primavera…
entre as ervas
lamentando a sua sina de mulher
se o sol enche a tarde de oiro
e até os braços fatigados
da velha macieira
continuam a celebrar a primavera…
Categorias
género livre
4 de março de 2007
3 de março de 2007
O enigma do gafanhoto

FOTO: Carlos Fernandes
Que novidades trazes tu, gafanhoto saltarelo? Diz-me o que se passa por esse mundo fora, enquanto descansas num fio de erva embalado pela brisa. Fala-me da quentura dos desertos, da verde humidade da densa floresta, do sobressalto constante da savana, do eco das aves de rapina estremecendo a neve da montanha. Fala-me das grandes tempestades que rasgam os céus de espanto, das catástrofes que ensombram o coração das gentes, da demência que lança irmãos contra irmãos, das sete pragas do Egipto, das mil e uma quimeras…
Não és tu o incansável viajante que tudo viu e tudo sabe? Ou serás apenas um pobre bicho provinciano que nasceu e há-de morrer dentro dos limites do meu quintal?
descansa na brisa
baloiçando com as ervas
este gafanhoto
- que coisas sabe do mundo
para lá do meu quintal?
Que novidades trazes tu, gafanhoto saltarelo? Diz-me o que se passa por esse mundo fora, enquanto descansas num fio de erva embalado pela brisa. Fala-me da quentura dos desertos, da verde humidade da densa floresta, do sobressalto constante da savana, do eco das aves de rapina estremecendo a neve da montanha. Fala-me das grandes tempestades que rasgam os céus de espanto, das catástrofes que ensombram o coração das gentes, da demência que lança irmãos contra irmãos, das sete pragas do Egipto, das mil e uma quimeras…
Não és tu o incansável viajante que tudo viu e tudo sabe? Ou serás apenas um pobre bicho provinciano que nasceu e há-de morrer dentro dos limites do meu quintal?
descansa na brisa
baloiçando com as ervas
este gafanhoto
- que coisas sabe do mundo
para lá do meu quintal?
Categorias
imagens faladas
3 de fevereiro de 2007
O sorriso do arco-íris

FOTO: Carlos Fernandes
Nenhuma ave se aventura sob o céu de chumbo e os insectos já calaram as cegarregas - apenas o vento se faz soar entre as ervas. As nuvens ameaçam os últimos raios de sol que brincam sobre as pedras e há um odor a tempestade dominando o horizonte. Mas, ao longe, um rasto colorido começa a ganhar consistência, desafiando a borrasca…
nem voos nem trilos
desassombram a paisagem
sob o céu de chumbo
Nenhuma ave se aventura sob o céu de chumbo e os insectos já calaram as cegarregas - apenas o vento se faz soar entre as ervas. As nuvens ameaçam os últimos raios de sol que brincam sobre as pedras e há um odor a tempestade dominando o horizonte. Mas, ao longe, um rasto colorido começa a ganhar consistência, desafiando a borrasca…
nem voos nem trilos
desassombram a paisagem
sob o céu de chumbo
apenas o arco-íris
desafia a tempestade
Categorias
imagens faladas
1 de janeiro de 2007
o desígnio do gesto

FOTO: Carlos Fernandes
O vigor do aço indaga a matéria informe, desnudando o perfil da própria mão que a afeiçoa. Na alvura do calcário se dá sentido ao desígnio do gesto. Pela força da mão se transfigura a pedra, em luz e sombra, como se da sua original substância nada mais restasse que a polidez de um espelho.
molda-se a pedra
ao paciente labor
do rude cinzel
no aconchego da mão
se retrata o humano afago
Categorias
imagens faladas
2 de dezembro de 2006
1 de dezembro de 2006
entre a luz e a sombra

FOTO: Carlos Fernandes
Soltam-se braços e pernas, cabeças e torsos, entre a luz e a sombra. Inebriados pela melodia, agitam-se os corpos síncronos, entregues à dança, no fulgor da juventude. Gestos delicados e gráceis, como um sortilégio, enchem o espaço e prendem o olhar. Deixam no ar um augúrio, uma promessa, uma certeza…
volteiam os corpos
num rito de encantamento
entre a luz e a sombra
- a sedução do olhar
na sincronia da dança
Categorias
imagens faladas
os cactos de elsinore
(a Mário Cesariny)
endurecidas
pela aridez dos desertos
laceram-nos a carne
como espinhos fundentes
as palavras que sobem
à boca dos poetas
e nos mordem a alma
ferozes e ardentes
Categorias
Dedicatórias,
Fotopoemas
29 de novembro de 2006
velando as águas

velando as águas
estremunhadas
do rio
um rasto de névoa
- num fio –
espreguiça-se
e boceja
ao longo do vale
enquanto se penteia
ao sol matinal
estremunhadas
do rio
um rasto de névoa
- num fio –
espreguiça-se
e boceja
ao longo do vale
enquanto se penteia
ao sol matinal
Categorias
Écfrase
18 de novembro de 2006
13 de novembro de 2006
10 de novembro de 2006
9 de novembro de 2006
29 de outubro de 2006
janela fechada

FOTO: Carlos Fernandes
Lá fora, o sol brinca sobre as telhas, simulando no rebordo das sombras o rendilhado da trapeira. A lacónica brisa joga às escondidas entre as chaminés e faz vibrar os mastros das antenas. No entanto, por detrás dos vidros baços, o silêncio passeia-se na casa fechada, só contrariado pelo marulhar dos insectos xilófagos. Para quando o dia em que de novo se ouvirá o palpitar dos passos no soalho e uma lufada de ar fresco desfraldará a janela?
p’ra lá da vidraça
só o silêncio habita
a casa vazia
até que um dia a janela
se abra de par em par
Categorias
imagens faladas
19 de outubro de 2006
os lírios

silenciosos e flexíveis
agitam-nos por dentro
os lírios
que afluem do interior das sombras
à berma dos campos lavrados
a pétala perfeita e suave
reflectida no espelho inquieto das águas
e a folhagem breve
mais fugaz que um dia de sol
robustos lírios sensíveis ao improviso
aplacai a nossa ânsia profunda
dispensai à carne que se esvai
um pouco da vossa essência oblíqua e vegetal
armazenai no pecíolo sedento
palavras raras, essenciais
das que nem sempre trazem certezas,
mas sim aromas laterais
que de tal ânimo
nos refundem os sentidos
Categorias
género livre
1 de outubro de 2006
fila harmónica

FOTO: Carlos Fernandes
Em cadência lenta, marcada pela percussão, avança a filarmónica, agitando a rua com o trinado dos clarinetes e das flautas. De vez em vez, insurgem-se os trompetes, rivalizando com os fliscornes, os saxofones e os trombones. Ripostam as trompas e as tubas. E logo estralejam os pratos, no seu brado metálico, a pôr ordem na melodia. Responde o assisado bombardino que é dia de devoção, mas também de folguedos e alegria.
o sopro dos músicos
enchendo a rua de sons
- é dia de festa -
e a gente acorre à janela
a ver a banda passar
Categorias
imagens faladas
3 de setembro de 2006
Mimese

FOTO: Carlos Fernandes
O escultor traz nas mãos o frémito de uma ideia. E o barro dócil cede à pressão dos dedos, às carícias da fantasia. Da massa inerte emergem as formas de um corpo mítico, como um poema feito substância. Recria-se o mundo num gesto sereno. Celebra-se, na mimese, o acto da Criação.
cede o barro dúctil -
a força de uma ideia
vertendo das mãos
assim brotam as palavras
da matéria do poema
Categorias
imagens faladas
1 de agosto de 2006
o vagar das pernas

FOTO: Carlos Fernandes
Pernas, para que vos quero? Para dar asas ao medo? Para sacudir o jugo dos tiranos e dos importunos? Para me conduzirdes, sem delongas, pelos trilhos deste mundo? Ou, simplesmente, para entrecruzar com outras pernas, na elementar consumação do descanso? …
repousam as pernas -
os caprichos da fortuna
numa inércia breve
enganosa indolência
de uma vida andarilha
Categorias
imagens faladas
2 de julho de 2006
a vida é agora

FOTO: Carlos Fernandes
O tempo corre veloz, como uma bola rolando na calçada. Mas as crianças, embrenhadas no prazer do jogo, de tudo se alheiam, crendo no riso sem limites. Esquecem que, tal como eles, o trigo continua a crescer, indiferente aos remoinhos da aragem e o voo das aves se precipita em obscuros abismos. E isso, que importa? A bola rola, redonda e lesta, na alegria do aqui e agora.
que nos diz a bola
rolando pela calçada?
- a vida é agora
que importa a hora que passa
se a alegria nos demora?
Categorias
imagens faladas
21 de junho de 2006
4 de junho de 2006
Filho do vento

[Foto: Carlos Fernandes]
Sou filho do vento e trago o fogo no peito. Se aqui me vês de freio na boca, ajaezado e submisso, nada te diz do tempo que passo calcorreando montes e prados, saltando valas e silvados, as crinas ao sabor da brisa. Por breves instantes, te pareço o que não sou. Mas o meu verdadeiro ser não tem peias nem amarras e o meu secreto nome é apenas conhecido por quantos amam a liberdade.
de crinas ao vento -
sob as patas do cavalo
a terra estremece
um clamor de liberdade
ecoando na planície
Categorias
imagens faladas
18 de maio de 2006
giesta

o grilo já canta
à hora da sesta
louva o sol de Maio
que doura a giesta
Categorias
género livre
6 de maio de 2006
de mão em mão

FOTO: Carlos Fernandes
Depois do sacrifício da fé, sagrado e profano misturam-se na alegria da festa. Leiloam-se em louvor da santa os bolos da tradição e a intenção devota sacraliza o vil dinheiro. Passam de mão em mão os sabores da romaria, neste tempo de rogos e promessas. São os alimentos rituais a sustentar simbolicamente os anseios de um futuro promissor e a garantir a ordem deste mundo conturbado.
como uma prece -
os bolos da romaria
vão de mão em mão
há um cheiro de erva-doce
perfumando o arraial
3 de abril de 2006
memória de abril

FOTO: Carlos Fernandes
Que música silenciou as armas naquele distante dia de Abril? Lembro-me que havia sorrisos ornando as faces da gente que acudiu à rua, a confirmar a urgência daquele grito de liberdade. Havia ecos de canções proibidas retinindo nas praças. E o clamor das palavras reprimidas, enfim voando entre as pombas alvoroçadas. E lembro-me que havia um aroma de cravos de todas as cores perfumando o ar.
calaram-se as armas
engalanadas de cravos
- fez-se Primavera
e um grito de liberdade
riscou o azul do céu
Categorias
imagens faladas
Subscrever:
Mensagens (Atom)



