1 de março de 2009

Um rio de musgo


FOTO: Carlos Fernandes

Quase todos os invernos, quando a chuva alaga as planícies e fustiga as vertentes da Serra de Aire, o ventre da montanha regurgita abruptamente as águas enlameadas, fazendo-as borbulhar entre lapas e calhaus. As nascentes do rio animam-se por uns dias, primeiro baças com os sedimentos que enriquecem as zonas de aluvião. Depois as águas tornam-se mais límpidas, até à pura claridade do cristal. Mas é então que o ímpeto se abranda e, a pouco e pouco, a torrente mingua até à exaustão. E apenas o vulto esverdeado das pedras desenha o percurso ondeante do que foi um rio tumultuoso.

Dura poucos dias
a intrépida bravata
das águas do rio

- No leito silencioso
demora um rasto de musgo.

6 de fevereiro de 2009

prima vera



muito de mansinho -
sob o manto da invernia
espreita a primavera

1 de fevereiro de 2009

Instante


FOTO: Carlos Fernandes

Quanto de um homem se lê na sua estante, nesse universo de páginas desfolhadas ou por desfolhar? Qual de entre todos os livros melhor o define? Qual deles levaria ele para uma ilha deserta? (Se é que, só, numa ilha deserta, o que mais precisasse fosse de um livro…) As palavras simples de Aleixo ou a culta sofisticação de Goethe? Um romance denso ou uma novela de palavras leves? Os poemas de amor de Neruda ou as efémeras canções de Sá Carneiro? O realismo dorido de Ferreira de Castro ou o lirismo comprometido de Torga?
Serão os livros mais que retratos imprecisos de uma vida? Serão eles imunes ao desfiar do tempo? Que fica desses quadros breves, memórias fugazes de uma infância perdida, levados na música do acaso?

demoram os livros
aninhados na estante -

esperam a torrente
que há-de acordar as palavras
feitas vida num instante

3 de janeiro de 2009

Murmúr(i)os


De pedra, cimento armado, arame farpado ou rede electrificada, ergue-os a infâmia de quem mais pode, impedindo a passagem a quem mais precisa, contra o Direito e a Humanidade. Muros. Murros no estômago dos desventurados, a quem apenas se ouvem débeis murmúrios.
O de Berlim caiu enfim. Outros se vão, a pouco e pouco, desmoronando. Mas, todos os dias, outros se vão edificando. Na Cisjordânia, no Sahara ocidental, na fronteira sul norte-americana ou nas profundezas de todo o homem que queira vedar o passo a outro homem. Muros, murros, murmúrios…

Passa o vento leste
P’la cidade amuralhada
E não quer entrar

É na planície sem muros
Que mais gosta de dançar

30 de novembro de 2008

Elogio da música


FOTO: Carlos Fernandes

Antes que a luz nos dê sinal do mundo, ainda no ventre materno, já a música nos faz vibrar. Antes que reconheçamos sequer o rosto daqueles que nos deram a vida, já a música nos faz agitar braços e pernas. Antes que aprendamos a falar, já a nossa boca ensaia ritmos e melodias. Ao longo da vida, a música está sempre presente, até nos ritmos do nosso próprio corpo. No bater do coração, no movimento dos passos, nas entoações da voz, no riso e no choro… É por isso que a arte de Orfeu é tão cativante e envolvente. E, como um fogo interior, afecta tão profundamente as nossas emoções.

da alba ao ocaso
a música adoça o dia

e acalenta o corpo
como a chama da fogueira
nos aquece e alumia

17 de novembro de 2008

o voo dos patos



o voo dos patos –
imprecisos arabescos
ao final da tarde

na agitação das asas
o desígnio da viagem

1 de novembro de 2008

a barca da fantasia


FOTO: Carlos Fernandes

O rebanho das nuvens ignora a rigidez do bronze e recria no azul celeste todas as formas do mundo real e imaginário: bichos colossais, caravelas aladas, montanhas de algodão, castelos cintilantes, dragões translúcidos, sereias de névoa e outros seres míticos. Na sua imobilidade eterna, as estátuas invejam a liberdade formal das nuvens, a sua errância criativa, mesmo que efémera, até que retornem ao berço aquoso dos oceanos. Por um momento, nuvens e estátuas comungam do inefável alento da fantasia.
.
vamos ao cinema
da grande tela celeste
ao nascer do dia

ver as nuvens comandar
a barca da fantasia

12 de outubro de 2008

Aguarela de Outono


FOTO: Carlos Fernandes

As coisas ficam difusas e vagas sob o véu da névoa que humedece a manhã. As cores esbatem-se. Uma brisa inesperada vagueia ao acaso pelas ruas, qual mendicante em busca de abrigo. Logo, revela o brilho desbotado do sol, que empalidece dia após dia. O ar arrefece nas esquinas. Por vezes, uma chuvinha dolente apressa os transeuntes, fazendo-os lembrar que o Outono chegou. Traz na sua caixa de aguarelas os tons do oiro velho, a paleta dos carmins e dos castanhos sóbrios que o vento há-de arrastar um dia pelo chão.

o Outono chegou -
traz na caixa de aguarelas
o oiro e o carmim

transmutando a paisagem
numa tela de cetim

31 de agosto de 2008

à luz do poente


Foto: Carlos Fernandes

Desenrola-se a brisa pelas volutas de ferro forjado e embala as nuvens numa viagem sem destino definido, qual pastor acautelando o rebanho na rudeza das pedras dos caminhos. As aves ciciam ainda as suas cantigas acabadas de compor e as ervas simples do campo ensaiam um bailado imaterial e vago. Acende-se a forja do horizonte e ao longe, o eco de um sino relembra as batidas do martelo do ferreiro, latejando as derradeiras horas de Agosto, enquanto a luz se abriga no manto do entardecer.

à luz do poente
tudo se esbate e embacia

o sol que entardece
acende no horizonte
a forja da poesia

24 de julho de 2008

As árvores todas se dão


Foto: Carlos Fernandes

As árvores todas se dão em verde e sombra. Com a língua das folhas murmuram preces ao azul infinito dos horizontes. Respiram e crescem numa tangência vertical à luz que as norteia. Acolhem serenas as ladainhas da brisa e o dialecto musical dos pássaros. Ou gemem compassivas sob os haustos inclementes do estio e os açoites da invernia. As árvores todas se dão em fruto e seiva. E em cerne são abrigo e berço e mesa e esquife. E quando o fogo ou a devassa do tempo as consomem, as árvores todas se dão ainda em cinza e húmus. Para que os bosques renascidos se lembrem das árvores todas que assim se dão.

de braços abertos -
as árvores se dão em verbo
ao lume dos versos

murmurando uma cantiga
na voz do vento que passa

3 de julho de 2008

a curva da estrada

(em homenagem a Fernando Pessoa)

FOTO: Carlos Fernandes

Diz o poeta dos heterónimos que «a morte é a curva da estrada», assinando por baixo com o nome de todos os dias. Se morrer é apenas «não ser visto» e viver é escutar a passada de quem se foi, a memória é o repositório vivo daqueles que amamos, estejam ou não presentes. Neste percurso com termo certo que nos foi dado realizar, avancemos sem receio, que aqueles a quem damos a mão continuarão a acenar-nos para lá da bruma.

como uma toada
corre a voz no teu poema

deixo-te um abraço

e além da curva da estrada
oiço o eco do teu passo

12 de junho de 2008

hora da sesta


FOTO: Carlos A. Silva

ébrio de pólen -
entre as pétalas da flor
dorme o escaravelho

1 de junho de 2008

o portal das estações


FOTO: Carlos Fernandes

Há um portal aberto nas estações, abraçado pela vegetação, envolto por ora na carícia dos perfumes, sob a terna moldura das nuvens. Para lá da ombreira, verdejam as fímbrias do carreiro ainda não sujeito à inclemência do asfalto. A água das chuvas mistura-se com a terra, nesse amplexo fértil que é a origem de todas as coisas - vicissitude serôdia de uma primavera húmida e instável. Mas ele aí está, trazendo o ímpeto cálido do suão. Ele aí está, à espera para entrar, com o firme propósito de amadurecer aquilo que a Primavera gerou. Ele aí está, não tarda nada, o Verão.

por este portal
vai sair a Primavera
e entrar o Verão

avermelhando a fruta
amadurando o pão

16 de abril de 2008

a flor do tojo


FOTO: Carlos Fernandes

Quantas vezes o caminho se torna difícil e agreste e nos parece impossível de trilhar... Quantas vezes a brenha nos fustiga as pernas e a escória nos fere os pés. Quantas vezes se magoam corpo e alma nas atribulações da jornada. No entanto, há que inspirar fundo, saborear o amarelo dourado das flores do tojo brilhando entre os espinhos e seguir em frente.

brilha a flor do tojo
entre o gume dos espinhos
ao sol da manhã

e o trilo agudo dos grilos
acalenta o viajante

29 de março de 2008

Mensageiros do sol


FOTO: Carlos Fernandes

No final de Março, um grito de cor dilacera as obscuras entranhas da invernia, irradiando por prados e taludes, à poalha dourada da manhã. Nem grades nem muralhas embargam a emergência destes mensageiros do sol, numa renovada promessa de luz. Acorda a natureza da sua longa apatia, na vitalidade da seiva, e o ar reveste-se de novos e delicados odores. É Primavera!

Vicejam os prados -
O sol já mandou recado
pelas flores silvestres:

A Primavera chegou.
É hora de acordar!

24 de março de 2008

A distorção do tempo


FOTO: Carlos A. Silva

O que resta
de uma vida inteira
nas linhas distorcidas
da pauta do tempo?

Apenas um sussurro,
um eco perdido,
uma melodia vaga...

20 de março de 2008

Azul


FOTO: Carlos A. Silva

Quando o azul desabrocha entre as ervas, é sinal que a Primavera não tarda.

16 de março de 2008

Rendilhados de luz e sombra


FOTO: Carlos A. Silva

É por vezes no recorte das sombras que a luz mais se afirma, revelando a secreta intimidade das coisas.

8 de março de 2008

Resistir

Quando o medo tolhe o canto nas gargantas
e à viva voz se sobrepõe a voz do dono
é preciso resistir

Quando a razão se verga ao jugo do mais forte
e a palavra desfalece na mordaça
é preciso resistir

Quando a semente da calúnia cai à terra
e o ar se enche com o rosnar do mostrengo
é preciso resistir

Quando a verdade se embaça sob os panos
e enverga a canga do discurso oficial
é preciso resistir

E quando sopra o vento gélido da cobiça
e o pudor se torna servo da abastança
é preciso resistir

E quando a mágoa for a moeda de troca
com que nos pagam o labor de uma vida
é preciso resistir

E se o silêncio for a arma que nos resta
e só a rua for bastante para gritar

aí estaremos
assim faremos

a resistir
a resistir

2 de março de 2008

a persistência da raiz


FOTO: Carlos Fernandes

Mesmo quando amputada da árvore, a raiz continua tenazmente agarrada ao chão, até que nada mais reste senão pó e cinza, devolvendo à terra o influxo que a susteve.
Mas quantas vezes aquela não emerge de novo, na perseverança da seiva, voltando a encher o ar de vegetais perfumes.


o cheiro a resina
flúi do corpo decepado
apenas raiz

e perfuma a colina
como um verso que se diz

10 de fevereiro de 2008

Testamento


FOTO: Carlos A. Silva

(a Miguel Torga)

entre o primeiro vagido
e o último grito
o tempo é uma janela
rasgada na tela
opaca do infinito

aquém do nascimento
e além da morte
talvez a eternidade
talvez o nada

ou qualquer outra coisa
sem ponto de partida
ou de chegada

por isso
enquanto o tempo acontece
abri bem a gelosia
deixai entrar a luz do sol
que amadurece
deixai fluir a voz da poesia

5 de fevereiro de 2008

No estendal


Foto: Carlos Fernandes

Aqui estamos de novo, suspensos, à cata de um pouco de calor. Se é a água que nos asseia, é o sol que nos dá de novo luz e cor. Aqui estamos, embalados pela brisa, numa dança lenta, como se nada de melhor houvesse que estar preguiçosamente a ouvir o silêncio da tarde. Como os velhos, lá em baixo, no banco coçado da praça, a emprenhar o futuro com as memórias do passado.

roupa a secar -
passa a brisa no varal
e fá-la dançar

e o sol vem bailar também
enchendo a rua de cor

23 de janeiro de 2008

Pérolas de luz


FOTO: Carlos A. Silva

Agarrados à ilusão do «deve e haver», passamos ao lado da verdadeira essência da vida, alheios à beleza efémera de uma gota de orvalho numa teia de aranha.

5 de janeiro de 2008

A teia da amizade


FOTO: Carlos Fernandes

Dia a dia se engendra a teia: fio após fio, nó após nó, emenda após emenda - a teia que nos liga aos outros e nos mantém comunicantes e solidários. Cada fio é uma presença, um abraço, um sorriso, um gesto de amizade; ou até um sobressalto, um arrufo, uma desilusão. Porque até na recusa se cumpre a espiral da vida e a teia se enlaça e desenlaça.

dá-me a tua mão -
ajuda-me a entretecer
um cantar de amigo

porque a voz soa mais forte
quando há outras no caminho

3 de dezembro de 2007

degrau a degrau


FOTO: Carlos Fernandes

Umas vezes alegres e confiantes, cheios de vigor e convicção, outras resignados sob o peso das mágoas. Assim vamos nós trepando a escada, quase sempre sem saber onde nos levam os degraus. Há até quem tropece, esteja prestes a cair, para logo recuperar o equilíbrio e retomar a marcha… ora mais ligeira, ora mais serena. O jugo do tempo vai vergar-nos o corpo, queiramos ou não. Mas só de nós depende a intensidade do fogo cá dentro, até que a chama se apague e a escada se acabe.

degrau a degrau
se faz a espiral da vida
- ignorando o rumo

bebendo a seiva do sonho
ardendo num fogo sem fumo

16 de novembro de 2007

a tarde definha


http://olhares.aeiou.pt/calbsilva

a tarde definha
à luz esmaecida do Outono

os imperativos da estação
continuam a desnudar a árvore

que folha a folha
se despede do sol enfraquecido
em amarelecida vénia

mas logo uma revoada de pardais
repovoa os ramos de asas
assombrando a praça num tumulto ruidoso

a chuva
que havia de acordar os íntimos odores da terra
é ainda uma promessa por cumprir

3 de novembro de 2007

o cavaleiro do vento


Foto de Carlos Fernandes

Incontestado rei dos telhados, cavalga a brisa mais débil e faz espumar no freio o vendaval mais bravio. Mesmo que o declínio do tempo lhe tenha já manchado a alva veste, continua firme no seu posto até que a última ferrugem lhe desvaneça o ânimo. Da linhagem dos cavalinhos de pau, percorre milhas e milhas sem sair do lugar, trazendo e levando num raio de sol as novas da aurora e do ocaso.

corre cavalinho
ao sabor da ventania
sobre esse telhado

traz-me novas da aurora
leva contigo o meu fado

29 de setembro de 2007

O odor da roseira



FOTO: Carlos Fernandes


Foi entre quatro paredes rústicas que primeiro viu a luz. O gemido da progenitora advertiu-o de imediato para a algidez do mundo. Logo, no seu primeiro choro, enunciou para o futuro o obstinado protesto dos insubmissos.
Ainda hoje a sua voz se ergue contra a friagem das más intenções (sabe que assim há-de ser até que o último suspiro lhe abandone o peito). Em memória desse tempo, basta o odor de uma roseira adoçando o ar.

É preciso mais
que o calor do sol nascente
afagando a pele:

- Quatro paredes de pedra
e o odor de uma roseira

1 de setembro de 2007

Liberdade



FOTO: Carlos Fernandes


Há portas que nunca se abriram, outras que se fecharam para sempre a cadeado, e outras que, estando abertas, não passa por elas a mais fina aragem. Há corpos amedrontados que nunca floriram. Há olhares que nunca se acenderam no clarão de uma ideia. Há rumores de vozes tolhidas no bafio dos gabinetes. Há memórias cruéis e rancores que o tempo não apaga. Há gritos e lamentos perdidos na noite. E há uma convicção perversa e granítica no absurdo da tentação totalitária. Mas…

não há ferrolho
nem aldraba que embargue
o pensamento

nem se cala a voz da esperança
no assobio do vento

30 de julho de 2007

Construção



FOTO: Carlos Fernandes


O miolo das casas oculta uma arte afim da cestaria. Tal como os artesãos que dobram e entrelaçam o junco ou o vime, também os operários da construção articulam as finas estruturas de ferro e aço, num labor manual de grande destreza. As elegantes colunas de metal aguardam então que o betão dê corpo às vigas e aos pilares que suportarão o edifício. Para que a casa se erga, ganhe forma e se encha de vida.

ergue-se a casa
- corpo de ferro e betão -
como uma promessa

hino ao suor do rosto
preito do labor da mão