
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
7 de dezembro de 2009
29 de novembro de 2009
nos braços do vento

FOTO: Carlos Fernandes
Deixem lá soprar o vento que me despenteia a folhagem, umas vezes com ternura e outras impaciente. Vem com carícias, por vezes; outras vem vergar-me o corpo, nos ímpetos da sua fúria. É que o vento é viageiro e quer levar-me consigo, quer levar-me a correr mundo... Digo-lhe que não posso ir, que sou escrava das raizes... Estou condenada para sempre a mirar o horizonte onde, semente, eclodi. Então o vento embravece, abraça-me com violência e agita-me o corpo todo - só posso gemer baixinho, submissa ao seu desejo. Depois desiste, rendido, desaparece sem rasto, deixa-me nua, a tremer.
não ames o vento
que o vento é mau amante
- não tem poiso certo
traz preso dentro do peito
um coração viajante
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6 de novembro de 2009
Já temos livro!

Chegaram-nos hoje às mãos os primeiros exemplares de «Murmúr(i)os e outras imagens faladas», acabadinho de sair da tipografia, numa iniciativa da editora Textiverso. Com fotos de Carlos Fernandes e textos de Carlos A. Silva, o livro reúne algumas das composições publicadas no mensário «Jornal das Cortes», durante os últimos cinco anos, na rubrica «Imagens faladas». Os autores estão agora a equacionar a sua apresentação pública, prevendo-se a primeira acção para os inícios do próximo mês de Dezembro.
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1 de novembro de 2009
Sob um céu de algodão

FOTO: Carlos Fernandes
Sob um céu de algodão e índigo, as linhas do casario entrecruzam-se com as do escasso arvoredo. O reflexo nas janelas mimetiza o cenário circundante, replicando as entrecruzadas linhas na metamorfose da luz. Das pedras da calçada chega-nos o som arrastado de passos, assoberbados pelo peso das memórias de mui remotas paragens, palmilhadas enquanto durou o alvoroço de uma vida inquieta. E consigo vêm também o cheiro das especiarias e o eco dos pregões de longínquos mercados. Aqui e agora, resta-lhes apenas o murmúrio abafado do tráfego vespertino. Mas não faz mal. Também noutras cidades as linhas do casario se entrecruzam com as do arvoredo, sob um céu de índigo e algodão.
Entardece o corpo
Carregando as memórias
De uma vida cheia
Como um livro recheado
De cheiros, sons e sabores
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27 de outubro de 2009
3 de outubro de 2009
Além da janela

FOTO: Carlos Fernandes
O insistente zumbido do besouro dá sinal de uma azáfama inusitada. A negrura dos élitros abre-se à frágil transparência das asas, sustendo o corpo excessivo num voo errático, quase simulacro. Dir-se-ia que indaga o segredo que se oculta por detrás da janela. Que se interpela sobre a estranha disposição da cortina ou a decadente evidência da portada.
Mas eis que abruptamente se interrompe o périplo do coleóptero, que toma pelo céu o reflexo azulado na vidraça. E um gato, em paciente atalaia, irrompe da sua imobilidade e aproveita o choque fatal para garantir a refeição da tarde.
além da janela -
o lampejo na vidraça
murmura um segredo:
viandante sem destino
chega tarde, parte cedo
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13 de setembro de 2009
Um livro na forja

Está já em fase de produção o livro de fotografia e texto poético intitulado «Murmúr(i)os e outras imagens faladas», da autoria de Carlos A. Silva e Carlos Fernandes, numa edição da Textiverso, de que damos aqui um lampejo sobre a capa e o texto de introdução:
Os textos e as imagens que compõem este livro são resultado de uma parceria desenvolvida desde 2004 no mensário Jornal das Cortes, numa rubrica denominada «Imagens Faladas» [e no blogue «Sítio dos Haicais»]. A partir de fotos de Carlos Fernandes, Carlos Alberto Silva foi elaborando, mês após mês, textos inspirados na técnica desenvolvida por Matsuo Bashô e outros autores japoneses: primeiro um comentário em prosa, eventualmente poética, depois um poema curto, seguindo a estrutura e métrica do tanka, por vezes com rima, outras não. Os temas são tão variados quanto as fotos o permitiram: a natureza, as artes, os temas sociais, a liberdade, a voragem do tempo, a própria poesia, entre outros. À data da publicação deste volume e ao fim de cinco anos de parceria profícua, a produção atinge já cerca de sete dezenas de composições. No entanto, por motivos editorais, apenas se apresentam aqui dezanove, escolhidas entre todas as que foram publicadas no mensário cortesense. A sua ordenação não obedece a critérios cronológicos nem temáticos, apenas se tentou criar um conjunto dinâmico e diversificado, que mantenha o leitor interessado da primeira à última página. Assim seja!
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Notícias
30 de agosto de 2009
Pôr do sol

Uma ave errante chocou um ovo no horizonte
e o mar todo de luz se esbraseou.
O negrume da falésia traçou um mapa
de perfil incerto no céu vermelho.
Mas eis que a noite abriu caminho,
abraçou o areal e tudo sossegou.
Apenas o sussurro das ondas ali ficou.
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género livre
19 de agosto de 2009
Traço de união

FOTO: Carlos Fernandes
Há momentos em que os limites físicos da casa são incapazes de conter o transbordante turbilhão da poesia. Dir-se-ia que um animal acossado, a quem falta o ar, subjugado num estreito reduto, eclode na metamorfose das sombras. Para lá da opacidade das paredes, procura alento na vastidão do horizonte, numa ânsia indubitável de desafogo. E, num salto, lança-se na lonjura das cordilheiras, a construir pontes sobre o vazio fundeado no âmago das multidões.
Ergue-se uma ponte
Entre o meu e o teu olhar
- Fugaz turbilhão
Num sorriso caloroso
Feito traço de união
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Não é preciso

Não é preciso a torrente
para explicar uma ponte,
basta um bago de suor
deslizando pela fronte.
Não é preciso o luzeiro
de uma estrela cadente,
basta apenas duas casas,
com as portas frente a frente.
Não é preciso um rugido
arrancado à multidão,
basta um fio de voz
entoando uma canção.
Não é preciso juncar
a rua toda de flores,
basta o vento que traz
o som cavo dos tambores.
Não é preciso correr mundo
à procura da verdade,
basta acalentar no peito
esse sonho sem idade.
Não é preciso bandeira,
nem emblema ou sinal,
bastam duas almas simples
irmanadas num ideal.
Não é preciso que o sol brilhe
para que o dia valha a pena,
basta abrir o coração
e colher uma açucena.
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género livre
1 de agosto de 2009
Contraluz

FOTO: Carlos Fernandes
Aninhadas na fundura da carne, numa quietude que nada parece perturbar, as palavras detêm-se, mudas e serenas. Nem a bravata do vento, nem o desassossego das marés, nem a inclemência das tempestades as demove da sua invisível e imóvel existência. Mas vem uma certa inclinação do sol, um peculiar revérbero do astro-rei, um contraluz engendrado do intenso conflito entre a claridade e a sombra e logo o peito se abre à debandada. E as palavras, como vento na seara, fazem soar o tropel das sílabas, rumorejando ao entardecer.
dormem as palavras
nas profundezas do peito
- em doce apatia
basta o sol em contraluz
logo acorda a poesia
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5 de julho de 2009
o olhar do pássaro

FOTO: Carlos Fernandes
Era um pássaro com olhos de céu. Neles morava o brilho do sol e o rumor da folhagem num dia de vento, o rasto ondulante do rio lambendo a planície, o vigor de uma canção alegre, o ténue perfume de um gole de água fresca numa tarde de Verão.
O céu nos olhos do pássaro não tinha margens, nem muros, nem grades, nem limites de qualquer espécie. Era um céu aberto, sem nuvens, sem mancha nem mácula.
O pássaro com olhos de céu aprendera no silêncio a mais requintada das melodias. Imóvel no seu poleiro, ensaiava a vertigem do voo no infinito da paisagem.
num voo errante -
paira sobre o horizonte
o olhar do pássaro
traz em si a melodia
delicada do silêncio
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15 de junho de 2009
A sombra do aço

FOTO: Carlos Fernandes
O amplexo dos cabos sustém a gigantesca espínula que aguilhoa o dorso íngreme da serra, arreigando à terra a avidez vertical do lucro. Corrompendo a sua natural disposição. Domando-a, como um cavalo selvagem transformado em triste muar de carga.
Já a força bruta das máquinas lhe devorou, a pouco e pouco, os flancos, no rasgão obsceno das pedreiras. E o desmazelo dos homens a transmutou em mero pátio de despejos.
Assim se engendra um progresso que todos sabem falso. Feito da ambição perdulária de quem não tem amanhãs.
A sombra do aço
marca a ilharga da serra
- qual metal em brasa
desdizendo a evidência
de que o mundo é a nossa casa.
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23 de maio de 2009
11 de maio de 2009
3 de maio de 2009
A flor da glicínia

FOTO: Carlos Fernandes
O labor humano talhou a pedra e forjou o ferro. Mãos calosas deram feição aos materiais informes, armando-os numa delicada mas sólida construção. Não tardou que a ousadia da glicínia a recobrisse de vida, numa amálgama de caules, gavinhas, folhas e flores. Num fecundo abraço se reencontram o natural e o humano. E, nele, todas as primaveras se exaltam em jubiloso hino.
véstia violeta
sobre um corpo perfumado
- a flor da glicínia -
qual donzela adormecida
num abraço enamorado
O labor humano talhou a pedra e forjou o ferro. Mãos calosas deram feição aos materiais informes, armando-os numa delicada mas sólida construção. Não tardou que a ousadia da glicínia a recobrisse de vida, numa amálgama de caules, gavinhas, folhas e flores. Num fecundo abraço se reencontram o natural e o humano. E, nele, todas as primaveras se exaltam em jubiloso hino.
véstia violeta
sobre um corpo perfumado
- a flor da glicínia -
qual donzela adormecida
num abraço enamorado
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29 de março de 2009
Para além do horizonte

FOTO: Carlos Fernandes
O que nos rodeia mais de perto, achamos que conhecemos como a palma da nossa mão. Porque ignoramos ostensivamente o que não vislumbramos num apressado relance. E idealizamos para além do horizonte uma vida de descoberta e aventura. Uma vida sempre adiada, mas nunca cumprida, porque pura dissonância. E quantos mundos incógnitos se agitam, aqui e agora, debaixo dos nossos pés, à distância de um gesto que no-los anuncie: a efervescência das formigas entre os sulcos da casca do pinheiro; o espanto colorido de uma flor que desabrocha; a coreografia errática do voo das abelhas; a sinfonia matinal das aves despertando o dia… Um horizonte além do horizonte, mesmo aqui ao pé.
Perde-se o olhar
Na linha do horizonte
- O destino é lá!
Abalamos de viagem
Deixando o corpo cá.
Na linha do horizonte
- O destino é lá!
Abalamos de viagem
Deixando o corpo cá.
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1 de março de 2009
Um rio de musgo

FOTO: Carlos Fernandes
Quase todos os invernos, quando a chuva alaga as planícies e fustiga as vertentes da Serra de Aire, o ventre da montanha regurgita abruptamente as águas enlameadas, fazendo-as borbulhar entre lapas e calhaus. As nascentes do rio animam-se por uns dias, primeiro baças com os sedimentos que enriquecem as zonas de aluvião. Depois as águas tornam-se mais límpidas, até à pura claridade do cristal. Mas é então que o ímpeto se abranda e, a pouco e pouco, a torrente mingua até à exaustão. E apenas o vulto esverdeado das pedras desenha o percurso ondeante do que foi um rio tumultuoso.
Dura poucos dias
a intrépida bravata
a intrépida bravata
das águas do rio
- No leito silencioso
- No leito silencioso
demora um rasto de musgo.
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6 de fevereiro de 2009
1 de fevereiro de 2009
Instante

FOTO: Carlos Fernandes
Quanto de um homem se lê na sua estante, nesse universo de páginas desfolhadas ou por desfolhar? Qual de entre todos os livros melhor o define? Qual deles levaria ele para uma ilha deserta? (Se é que, só, numa ilha deserta, o que mais precisasse fosse de um livro…) As palavras simples de Aleixo ou a culta sofisticação de Goethe? Um romance denso ou uma novela de palavras leves? Os poemas de amor de Neruda ou as efémeras canções de Sá Carneiro? O realismo dorido de Ferreira de Castro ou o lirismo comprometido de Torga?
Serão os livros mais que retratos imprecisos de uma vida? Serão eles imunes ao desfiar do tempo? Que fica desses quadros breves, memórias fugazes de uma infância perdida, levados na música do acaso?
demoram os livros
aninhados na estante -
esperam a torrente
que há-de acordar as palavras
feitas vida num instante
aninhados na estante -
esperam a torrente
que há-de acordar as palavras
feitas vida num instante
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3 de janeiro de 2009
Murmúr(i)os

De pedra, cimento armado, arame farpado ou rede electrificada, ergue-os a infâmia de quem mais pode, impedindo a passagem a quem mais precisa, contra o Direito e a Humanidade. Muros. Murros no estômago dos desventurados, a quem apenas se ouvem débeis murmúrios.
O de Berlim caiu enfim. Outros se vão, a pouco e pouco, desmoronando. Mas, todos os dias, outros se vão edificando. Na Cisjordânia, no Sahara ocidental, na fronteira sul norte-americana ou nas profundezas de todo o homem que queira vedar o passo a outro homem. Muros, murros, murmúrios…
Passa o vento leste
P’la cidade amuralhada
E não quer entrar
É na planície sem muros
Que mais gosta de dançar
O de Berlim caiu enfim. Outros se vão, a pouco e pouco, desmoronando. Mas, todos os dias, outros se vão edificando. Na Cisjordânia, no Sahara ocidental, na fronteira sul norte-americana ou nas profundezas de todo o homem que queira vedar o passo a outro homem. Muros, murros, murmúrios…
Passa o vento leste
P’la cidade amuralhada
E não quer entrar
É na planície sem muros
Que mais gosta de dançar
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30 de novembro de 2008
Elogio da música

FOTO: Carlos Fernandes
Antes que a luz nos dê sinal do mundo, ainda no ventre materno, já a música nos faz vibrar. Antes que reconheçamos sequer o rosto daqueles que nos deram a vida, já a música nos faz agitar braços e pernas. Antes que aprendamos a falar, já a nossa boca ensaia ritmos e melodias. Ao longo da vida, a música está sempre presente, até nos ritmos do nosso próprio corpo. No bater do coração, no movimento dos passos, nas entoações da voz, no riso e no choro… É por isso que a arte de Orfeu é tão cativante e envolvente. E, como um fogo interior, afecta tão profundamente as nossas emoções.
da alba ao ocaso
a música adoça o dia
e acalenta o corpo
como a chama da fogueira
nos aquece e alumia
Antes que a luz nos dê sinal do mundo, ainda no ventre materno, já a música nos faz vibrar. Antes que reconheçamos sequer o rosto daqueles que nos deram a vida, já a música nos faz agitar braços e pernas. Antes que aprendamos a falar, já a nossa boca ensaia ritmos e melodias. Ao longo da vida, a música está sempre presente, até nos ritmos do nosso próprio corpo. No bater do coração, no movimento dos passos, nas entoações da voz, no riso e no choro… É por isso que a arte de Orfeu é tão cativante e envolvente. E, como um fogo interior, afecta tão profundamente as nossas emoções.
da alba ao ocaso
a música adoça o dia
e acalenta o corpo
como a chama da fogueira
nos aquece e alumia
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17 de novembro de 2008
1 de novembro de 2008
a barca da fantasia

FOTO: Carlos Fernandes
O rebanho das nuvens ignora a rigidez do bronze e recria no azul celeste todas as formas do mundo real e imaginário: bichos colossais, caravelas aladas, montanhas de algodão, castelos cintilantes, dragões translúcidos, sereias de névoa e outros seres míticos. Na sua imobilidade eterna, as estátuas invejam a liberdade formal das nuvens, a sua errância criativa, mesmo que efémera, até que retornem ao berço aquoso dos oceanos. Por um momento, nuvens e estátuas comungam do inefável alento da fantasia.
.
vamos ao cinema
da grande tela celeste
ao nascer do dia
ver as nuvens comandar
a barca da fantasia
da grande tela celeste
ao nascer do dia
ver as nuvens comandar
a barca da fantasia
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12 de outubro de 2008
Aguarela de Outono

FOTO: Carlos Fernandes
As coisas ficam difusas e vagas sob o véu da névoa que humedece a manhã. As cores esbatem-se. Uma brisa inesperada vagueia ao acaso pelas ruas, qual mendicante em busca de abrigo. Logo, revela o brilho desbotado do sol, que empalidece dia após dia. O ar arrefece nas esquinas. Por vezes, uma chuvinha dolente apressa os transeuntes, fazendo-os lembrar que o Outono chegou. Traz na sua caixa de aguarelas os tons do oiro velho, a paleta dos carmins e dos castanhos sóbrios que o vento há-de arrastar um dia pelo chão.
o Outono chegou -
traz na caixa de aguarelas
o oiro e o carmim
transmutando a paisagem
numa tela de cetim
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31 de agosto de 2008
à luz do poente

Foto: Carlos Fernandes
Desenrola-se a brisa pelas volutas de ferro forjado e embala as nuvens numa viagem sem destino definido, qual pastor acautelando o rebanho na rudeza das pedras dos caminhos. As aves ciciam ainda as suas cantigas acabadas de compor e as ervas simples do campo ensaiam um bailado imaterial e vago. Acende-se a forja do horizonte e ao longe, o eco de um sino relembra as batidas do martelo do ferreiro, latejando as derradeiras horas de Agosto, enquanto a luz se abriga no manto do entardecer.
à luz do poente
tudo se esbate e embacia
o sol que entardece
acende no horizonte
a forja da poesia
Desenrola-se a brisa pelas volutas de ferro forjado e embala as nuvens numa viagem sem destino definido, qual pastor acautelando o rebanho na rudeza das pedras dos caminhos. As aves ciciam ainda as suas cantigas acabadas de compor e as ervas simples do campo ensaiam um bailado imaterial e vago. Acende-se a forja do horizonte e ao longe, o eco de um sino relembra as batidas do martelo do ferreiro, latejando as derradeiras horas de Agosto, enquanto a luz se abriga no manto do entardecer.
à luz do poente
tudo se esbate e embacia
o sol que entardece
acende no horizonte
a forja da poesia
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24 de julho de 2008
As árvores todas se dão

Foto: Carlos Fernandes
As árvores todas se dão em verde e sombra. Com a língua das folhas murmuram preces ao azul infinito dos horizontes. Respiram e crescem numa tangência vertical à luz que as norteia. Acolhem serenas as ladainhas da brisa e o dialecto musical dos pássaros. Ou gemem compassivas sob os haustos inclementes do estio e os açoites da invernia. As árvores todas se dão em fruto e seiva. E em cerne são abrigo e berço e mesa e esquife. E quando o fogo ou a devassa do tempo as consomem, as árvores todas se dão ainda em cinza e húmus. Para que os bosques renascidos se lembrem das árvores todas que assim se dão.
de braços abertos -
as árvores se dão em verbo
ao lume dos versos
murmurando uma cantiga
na voz do vento que passa
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3 de julho de 2008
a curva da estrada
(em homenagem a Fernando Pessoa)

FOTO: Carlos Fernandes
Diz o poeta dos heterónimos que «a morte é a curva da estrada», assinando por baixo com o nome de todos os dias. Se morrer é apenas «não ser visto» e viver é escutar a passada de quem se foi, a memória é o repositório vivo daqueles que amamos, estejam ou não presentes. Neste percurso com termo certo que nos foi dado realizar, avancemos sem receio, que aqueles a quem damos a mão continuarão a acenar-nos para lá da bruma.
como uma toada
corre a voz no teu poema
deixo-te um abraço
e além da curva da estrada
oiço o eco do teu passo

FOTO: Carlos Fernandes
Diz o poeta dos heterónimos que «a morte é a curva da estrada», assinando por baixo com o nome de todos os dias. Se morrer é apenas «não ser visto» e viver é escutar a passada de quem se foi, a memória é o repositório vivo daqueles que amamos, estejam ou não presentes. Neste percurso com termo certo que nos foi dado realizar, avancemos sem receio, que aqueles a quem damos a mão continuarão a acenar-nos para lá da bruma.
como uma toada
corre a voz no teu poema
deixo-te um abraço
e além da curva da estrada
oiço o eco do teu passo
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12 de junho de 2008
1 de junho de 2008
o portal das estações

FOTO: Carlos Fernandes
Há um portal aberto nas estações, abraçado pela vegetação, envolto por ora na carícia dos perfumes, sob a terna moldura das nuvens. Para lá da ombreira, verdejam as fímbrias do carreiro ainda não sujeito à inclemência do asfalto. A água das chuvas mistura-se com a terra, nesse amplexo fértil que é a origem de todas as coisas - vicissitude serôdia de uma primavera húmida e instável. Mas ele aí está, trazendo o ímpeto cálido do suão. Ele aí está, à espera para entrar, com o firme propósito de amadurecer aquilo que a Primavera gerou. Ele aí está, não tarda nada, o Verão.
por este portal
vai sair a Primavera
e entrar o Verão
avermelhando a fruta
amadurando o pão
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