28 de maio de 2011

Tragicomédia



















FOTO: Carlos Fernandes

Há quem diga que a vida é um imenso palco onde acumulamos as funções de dramaturgo, encenador, actor e espectador. Sob as máscaras que, conforme as circunstâncias, vamos colocando, nem o riso é duradouro, nem a dor definitiva. Tudo depende do ânimo do momento. Num piscar de olhos, passa-se da comédia ao drama e deste à tragédia. E o contrário também é verdade, pois quantas vezes os incidentes agora considerados dramáticos, ou até trágicos, se tornam, com o tempo, assunto risível para quem os viveu.

o riso da máscara
traduz, num esgar de pedra,
a essência da vida:

- dão as mãos no mesmo palco
a tragédia e a comédia.

1 de maio de 2011

Tecelagem































FOTO: Carlos Fernandes

Entrelaçam-se as palavras no tear da língua: armada a trama dos signos, urdem-se os significados numa tessitura consistente. O padrão varia conforme a tonalidade e a consistência do fio da vida, dobado na cadência das horas e dos dias. O labor é contínuo e persistente, refinando o burel da fala, perseguindo uma intangível clarividência, um universal entendimento. Desde a alvorada ao ocaso do Homem.

de linho ou de lã
tece no tear o pano
– canta a tecelã

a sua voz elabora
o tecido das palavras

3 de abril de 2011

No alto do ninho


































FOTO: Carlos Fernandes

Tidas como sinal de prosperidade, de felicidade e de sorte, as cegonhas são vistas, em grande parte do mundo, como símbolos da maternidade e da dedicação familiar. Para além de serem tidas como mães e pais extremosos, acreditava-se, na Antiguidade, que alimentavam e protegiam os seus próprios pais na velhice, o que terá originado a «lex ciconaria» romana.
Sabe-se que guardam fidelidade ao companheiro de uma vida e refazem o lar sempre no mesmo local, embora os seus hábitos migratórios as levem a voar milhares de quilómetros, todos os anos. No aconchego do ninho, feito no mais alto dos sítios altos, o desvelo com que ambos os progenitores tratam as crias é fundamento suficiente para dar crédito a todos estes mitos.

Ouço castanholas
Qual concerto ao desafio
Retinindo pelo ar

- É um casal de cegonhas
De regresso ao lar.

27 de fevereiro de 2011

A rama da oliveira






















FOTO: Carlos Fernandes

A brisa faz tremelicar de forma intermitente as magras folhas da rama da oliveira. O varejo e a poda pouco deixaram nas finas hastes que adornam a árvore. Como se a paga pela dádiva da azeitona fosse o açoite e a amputação. Mas estes destemperados tratos não são castigo nem crueldade. Apenas os necessários procedimentos de um ciclo que inclui o esmagamento dos negros frutos para que o azeite pingue claro da prensa do lagar.
E logo que acabem as rudezas da invernia, a seiva tornará a subir pelas raízes, rejuvenescerá o corpo maltratado da árvore, fará brotar as ternas flores e engrossará os frutos que o sol há-de amadurecer. E o povo cantará de novo com alegria: ó rama, ó que linda rama, ó rama da oliveira...

Tombou a azeitona
Da rama da oliveira
- Foi ter ao lagar

Corre o azeite na bica
E o povo põe-se a cantar.

29 de janeiro de 2011

A sombra na estrada


















FOTO: Carlos Fernandes

Tal como a alva antecipa o dia, a nostalgia da distância leva o caminhante a lançar-se na aspereza dos caminhos. Leve bagagem de quem nada tem, a sua sombra movediça e indistinta é a contrapartida de um sol resplandecente. Mas, mesmo que a sede lhe afogueie a garganta e o suor lhe empape o rosto, o astro-rei é sempre o companheiro mais apetecido. Com ele, vem a promessa de um dia renovado, de uma seara perene, do cantar das cotovias…
Move-se a sombra ao ritmo dos passos, até que o recato de um penedo vigilante ou o rumor de uma árvore oscilando na brisa lhe proporcionem o provisório repouso de uma breve sesta. Depois, sombra e caminhante continuam a viagem, irmanados nessa busca sem destino…

Fiel camarada
dos passos do viajante
– a sombra na estrada

É a dádiva do sol
a acompanhar a jornada.

29 de dezembro de 2010

O rasto do Inverno



FOTO: Carlos Fernandes
 Antes que se apaguem as últimas brasas na lareira, vamos à janela observar o rasto do Inverno. Lá fora, tudo é sombrio e brumoso. O vento norte revolteia o arvoredo e a chuva gelada submerge a paisagem sob um véu fantasmagórico. O que na Primavera foi verde, se alourou no Verão e no Outono se tornou rubro é agora aquela massa informe e escura no atoleiro. O que até há poucos meses era fulgor e vida decompõe-se agora em lama e húmus. Mas não será esse o nobre mandato da invernia? Garantir que, quando se apagar enfim a lareira, podemos adormecer confiantes de que a Primavera retornará, fecunda e generosa...

o rigor do inverno
faz do campo um atoleiro

- debaixo da lama
a semente da esperança
aguarda a primavera

8 de dezembro de 2010

folhas outonais



persiste a luz do sol
nas folhas outonais -
dourando o dia chuvoso

28 de novembro de 2010

A epopeia do barro


FOTO: Carlos Fernandes

Este é o barro, a substância lendária da divina Criação. Dele terá surgido o próprio Homem, moldado pela vontade dos deuses. Certo é que a sua excepcional plasticidade fez dele a matéria universal da humana criação. Temperado pelo fogo, resiste às agruras do Tempo, por centenas, milhares de anos. Por isso, sabemos que foi suporte da escrita na Suméria, morada rústica na Índia, sol ritual entre os Incas, zigurate na mítica Babilónia, mural em alto-relevo na desaparecida Assíria, estátua vigilante na antiga China, vaso decorado na Grécia clássica. Acarinhado por mãos habilidosas, será tudo o que a imaginação nele quiser afeiçoar, do mais humilde objecto utilitário ao mais alto expoente do génio artístico. Este é o barro.

O barro entre as mãos -
É como um corpo que cede
À voz do desejo

E se entrega por inteiro
À carícia de um beijo

31 de outubro de 2010

Além do chinelo

FOTO: Carlos Fernandes

Reza o ditame popular que «não vá o sapateiro além do chinelo», como quem diz que devemos equacionar sempre as nossas aptidões e capacidades e ajuizar até onde podemos ir na nossa ousadia. É um alerta para o risco que corremos quando nos atrevemos em determinadas proezas ou nos abalançamos em empresas para as quais não estamos habilitados. Mas, por outro lado, se não corrermos alguns riscos, nunca nos ultrapassaremos a nós próprios, nem sairemos, como também o povo diz, «da cepa torta». Não esqueçamos que foi em tremendo risco, sem saber nada do caminho, que os audazes marinheiros de antanho, alguns deles remendões, chegaram às Índias [e aos Brasis]…

O esto do sol
Acalenta nos chinelos
Uma leve carícia

Para uns pés magoados
Pelas vielas da vida

3 de outubro de 2010

Por detrás das cortinas


















FOTO: Carlos Fernandes

Por detrás das cortinas, esconde-se um emaranhado de cordas e roldanas, telas, engradados, estrados, ripas e sarrafos. O pó uniformizou formas, cores e texturas, mimetizando uma sorte de fantasmagoria lunar. Tudo ali é imobilidade e silêncio, apenas quebrados pelo murmúrio vago dos insectos e pela ocasional deambulação dos roedores.
Longe vai o eco dos discursos, das «falas», das «deixas» e das «buchas». Longe vão as melodias das árias, das baladas e outras cantorias. Longe vão os gestos calculados, ensaiados vezes sem conta e, vezes sem conta, repetidos nos mesmos trilhos repisados. Longe vão as tragédias, os dramas, as cenas de romance e ciúme, as fábulas, as rábulas e as comédias. Longe vão o riso e as palmas… Até que as cortinas se abram de novo.

no palco vazio -
só o pó e o silêncio
são protagonistas

até que a voz dos artistas
encha o teatro de gente

29 de agosto de 2010

O abraço do feijoeiro

















FOTO: Carlos Fernandes

Poderia ser flauta, rememorando o agudo sussurro do vento que lhe penteou as folhas; poderia ser roca de fiar, pente de tear, bengala, cesto, chapéu, chincalho, reco-reco, engenho de pesca, boiz, gaiola, casa de bonecas… Poderia dar corpo ao papagaio de papel e subir nos céus como as aves que lhe arremedaram de cima. Mas preferiu ser esteio, tornar-se cúmplice de uma fertilidade que nunca teve. Embora amputada das raízes, aninhou de novo o pé na terra e esperou pelo ímpeto fecundo da natureza. Deixou-se abraçar amorosamente pelo feijoeiro, deu-lhe suporte e altura. Reverdejou, floriu, frutificou... Reinventou a sua vegetal vocação.

amparo da horta -
volta de novo à terra
mesmo sem raiz

renasce a caninha seca
no abraço do feijoeiro

1 de agosto de 2010

um cão no telhado






















FOTO: Carlos Fernandes

Passamos uma vida inteira condicionados por um conjunto de crenças, normas e pre[con]ceitos que nos foram impostos desde o nascimento. Dizem-nos ser essa uma condição indispensável para viver em sociedade...
Reprimidos na nossa espontaneidade, recalcados nos nossos desejos mais profundos, domesticados como o gado de trabalho, deixamos vergar-nos ao jugo do “sucesso” a todo o custo…
Até que um dia, acabado o tempo que nos é dado, tudo se esvai, feito poeira nos devaneios do vento. E aí damos conta que talvez nos tenhamos esquecido da primordial razão da existência: a felicidade.

um cão no telhado -
fitando o horizonte
ao sol da manhã

sabe que o devir se oculta
na lonjura da paisagem

4 de julho de 2010

Entre o céu e a terra


FOTO: Carlos Fernandes

Memórias do magma fúsil arrojado do ventre da terra no preâmbulo da Criação, consequência dos entrechoques telúricos na deriva dos continentes, moldadas pelas águas e pelo vento ao longo de milhões e milhões de anos, erguem-se em direcção ao empíreo como gigantes mudos em busca de redenção. Revestidas de fragas e penedias, sulcadas por íngremes penhascos, adornadas por matos, bosques e prados, coroadas, por vezes, pelas neves eternas onde o sol reverbera, marcam a paisagem com o seu majestoso relevo. No entanto, é na penumbra dos vales que se enraízam as montanhas.

Quis ver o futuro -
Desenlacei o olhar
No alto do monte

Mas apenas vi o mar
Brilhando no horizonte

30 de maio de 2010

Navegar é preciso

















FOTO: Carlos Fernandes
Há algures, perdido nas brumas do tempo, um cais de onde partiu a barca das nossas ilusões.
E lá fomos, compelidos pela necessidade da partida, levando connosco um bornal transbordante de convicções. Sem mapa, nem bússola, apenas com os olhos postos nas estrelas, seguimos em busca de um horizonte indefinido. Que rumo levou a viagem, ao sabor das marés e do humor do vento? Em que se tornou o destino apetecido? Uma ilha luxuriante ou um deserto? Um oásis ou uma miragem?

vamos de viagem
sem saber o rumo certo
- entre o choro e o riso

se é preciso navegar
viver também é preciso

22 de maio de 2010

Pirilampo

















Vem um pirilampo
e pousa na minha mão
- feito jóia viva.

2 de maio de 2010

Teatro de sombras
















FOTO: Carlos Fernandes

É aquela hora em que a luz declina por detrás das espessas cortinas do anoitecer e a penumbra difusa do fim de tarde ganha um matiz quase espectral. A hora em que os seres e os objectos se despedem, por momentos, da sua física substância e, meras silhuetas, tomam lugar num antigo teatro de sombras onde tudo é impreciso e vago. Embalados pelo leve alvoroço da brisa, trazem à cena a mais trágica das histórias…

Já caiu a tarde –
Breve teatro de sombras
Onde a luz fenece

À míngua de claridade
A voz da musa emudece

4 de abril de 2010

As águas da emoção






















FOTO: Carlos Fernandes

Afluem abruptamente, qual tempestade de Inverno que chega sem avisar. Tudo arrasam à sua passagem, deixando o corpo alagado, submerso em mágoa. Gorgolejam no peito até ao limite da dor. Depois escoam-se, em vagas, como a enxurrada de um rio tumultuoso. Só então, despojado pela torrente, se queda o corpo, no torpor da apatia.
E não obstante, no vazio da resignação, arde uma saudade que nunca se apaga.

Até quando podem
as duras mágoas do Inverno
ensombrar o dia?

Que secreta Primavera
florirá neste vazio?

28 de fevereiro de 2010

às flores da figueira


FOTO: Carlos Fernandes
Admiro a genuína timidez da figueira, que esconde as próprias flores no interior da fruta. De tal sorte que... passa por as não ter. E se as borboletas a desdenham, é na persistência das mais pequenas vespas que a árvore cumpre o seu desígnio.
Ah! Mas quando o sicónio se transmuta em figo e, sob o calor do sol, se amadura, não há ave que a não exalte no cântico cheio do estio.

chegaram as aves
ao banquete da figueira
em grande aranzel

trazem na voz afinada
o ameno sabor do mel

1 de fevereiro de 2010

O despertar das asas


Foto: Carlos Fernandes

«Bom dia, nuvens». Acabei agora mesmo de abrir os olhos, para lá da fina casca do ovo onde fui engendrada. Encarei, num relance, toda a imensidão do azul celeste e divaguei um pouco na deriva dos cirros, dos cúmulos e dos nimbos. «Esperem por mim», disse.
Estranhei, no entanto, que a videira não se tenha ainda animado com o viço da Primavera. Porque estou com fome, com muita fome... Uma fome insana que me compele a devorar o vegetal domicílio que me sustém… A mascar pacientemente cada folha, deixando apenas a nervura que lhe dá forma… Dia e noite, sem parar. Até que o meu corpo, então rotundo, se adormente por um tempo num casulo de seda brilhante e aí se transforme…
Um dia, o bafo tépido da brisa voltará a despertar-me. E então direi, de novo: «Bom dia, nuvens. Acabou a espera. Agora tenho asas!»

ao nascer do sol -
acorda a tosca lagarta
e põe-se a comer

embalada pelo sonho
das asas que há-de ter

27 de dezembro de 2009

A tela do novo ano


FOTO: Carlos Fernandes

Contrariamente ao que sugerem os estafados votos de Boas Festas, o novo ano não é uma tela em branco onde seria possível plasmar o melhor dos nossos sonhos - um novo tempo em que poderíamos esquecer tudo o que de mau nos aconteceu durante os anteriores e iniciar, enfim, a vida perfeita dos nossos mais íntimos desejos. «Ano novo, vida nova», diz a voz do povo – mas, quantas vezes, em tom de zombaria, a denotar uma lúcida incredulidade… É que, por muito que o queiramos olvidar, o lastro - bom e mau - da vida que já vivemos continuará a fazer parte da nossa bagagem pessoal. No entanto, talvez haja razões para manter acesa a chama da esperança. Se, como diz o poeta dos Lusíadas, «todo o mundo é composto de mudança, / tomando sempre novas qualidades», certo é que poderemos tentar colorir com novos matizes os «rostos» e as «paisagens» do nosso quadro, aperfeiçoando em nós «o ser e a confiança», fazendo agora um bocadinho melhor o que de pior antes fizemos.

chega o ano novo
e um novo alento nos vem
animar o corpo

como o sol da Primavera
transfigurando o Inverno

29 de novembro de 2009

nos braços do vento


FOTO: Carlos Fernandes

Deixem lá soprar o vento que me despenteia a folhagem, umas vezes com ternura e outras impaciente. Vem com carícias, por vezes; outras vem vergar-me o corpo, nos ímpetos da sua fúria. É que o vento é viageiro e quer levar-me consigo, quer levar-me a correr mundo... Digo-lhe que não posso ir, que sou escrava das raizes... Estou condenada para sempre a mirar o horizonte onde, semente, eclodi. Então o vento embravece, abraça-me com violência e agita-me o corpo todo - só posso gemer baixinho, submissa ao seu desejo. Depois desiste, rendido, desaparece sem rasto, deixa-me nua, a tremer.

não ames o vento
que o vento é mau amante
- não tem poiso certo

traz preso dentro do peito
um coração viajante

6 de novembro de 2009

Já temos livro!


Chegaram-nos hoje às mãos os primeiros exemplares de «Murmúr(i)os e outras imagens faladas», acabadinho de sair da tipografia, numa iniciativa da editora Textiverso. Com fotos de Carlos Fernandes e textos de Carlos A. Silva, o livro reúne algumas das composições publicadas no mensário «Jornal das Cortes», durante os últimos cinco anos, na rubrica «Imagens faladas». Os autores estão agora a equacionar a sua apresentação pública, prevendo-se a primeira acção para os inícios do próximo mês de Dezembro.

1 de novembro de 2009

Sob um céu de algodão


FOTO: Carlos Fernandes

Sob um céu de algodão e índigo, as linhas do casario entrecruzam-se com as do escasso arvoredo. O reflexo nas janelas mimetiza o cenário circundante, replicando as entrecruzadas linhas na metamorfose da luz. Das pedras da calçada chega-nos o som arrastado de passos, assoberbados pelo peso das memórias de mui remotas paragens, palmilhadas enquanto durou o alvoroço de uma vida inquieta. E consigo vêm também o cheiro das especiarias e o eco dos pregões de longínquos mercados. Aqui e agora, resta-lhes apenas o murmúrio abafado do tráfego vespertino. Mas não faz mal. Também noutras cidades as linhas do casario se entrecruzam com as do arvoredo, sob um céu de índigo e algodão.

Entardece o corpo
Carregando as memórias
De uma vida cheia

Como um livro recheado
De cheiros, sons e sabores

27 de outubro de 2009

roxo tilintar



roxo tilintar –
as flores da trepadeira
abraçando as canas.

3 de outubro de 2009

Além da janela


FOTO: Carlos Fernandes

O insistente zumbido do besouro dá sinal de uma azáfama inusitada. A negrura dos élitros abre-se à frágil transparência das asas, sustendo o corpo excessivo num voo errático, quase simulacro. Dir-se-ia que indaga o segredo que se oculta por detrás da janela. Que se interpela sobre a estranha disposição da cortina ou a decadente evidência da portada.
Mas eis que abruptamente se interrompe o périplo do coleóptero, que toma pelo céu o reflexo azulado na vidraça. E um gato, em paciente atalaia, irrompe da sua imobilidade e aproveita o choque fatal para garantir a refeição da tarde.

além da janela -
o lampejo na vidraça
murmura um segredo:

viandante sem destino
chega tarde, parte cedo

13 de setembro de 2009

Um livro na forja


Está já em fase de produção o livro de fotografia e texto poético intitulado «Murmúr(i)os e outras imagens faladas», da autoria de Carlos A. Silva e Carlos Fernandes, numa edição da Textiverso, de que damos aqui um lampejo sobre a capa e o texto de introdução:

Os textos e as imagens que compõem este livro são resultado de uma parceria desenvolvida desde 2004 no mensário Jornal das Cortes, numa rubrica denominada «Imagens Faladas» [e no blogue «Sítio dos Haicais»]. A partir de fotos de Carlos Fernandes, Carlos Alberto Silva foi elaborando, mês após mês, textos inspirados na técnica desenvolvida por Matsuo Bashô e outros autores japoneses: primeiro um comentário em prosa, eventualmente poética, depois um poema curto, seguindo a estrutura e métrica do tanka, por vezes com rima, outras não. Os temas são tão variados quanto as fotos o permitiram: a natureza, as artes, os temas sociais, a liberdade, a voragem do tempo, a própria poesia, entre outros. À data da publicação deste volume e ao fim de cinco anos de parceria profícua, a produção atinge já cerca de sete dezenas de composições. No entanto, por motivos editorais, apenas se apresentam aqui dezanove, escolhidas entre todas as que foram publicadas no mensário cortesense. A sua ordenação não obedece a critérios cronológicos nem temáticos, apenas se tentou criar um conjunto dinâmico e diversificado, que mantenha o leitor interessado da primeira à última página. Assim seja!

30 de agosto de 2009

Pôr do sol


Uma ave errante chocou um ovo no horizonte
e o mar todo de luz se esbraseou.
O negrume da falésia traçou um mapa
de perfil incerto no céu vermelho.
Mas eis que a noite abriu caminho,
abraçou o areal e tudo sossegou.
Apenas o sussurro das ondas ali ficou.

19 de agosto de 2009

Traço de união


FOTO: Carlos Fernandes

Há momentos em que os limites físicos da casa são incapazes de conter o transbordante turbilhão da poesia. Dir-se-ia que um animal acossado, a quem falta o ar, subjugado num estreito reduto, eclode na metamorfose das sombras. Para lá da opacidade das paredes, procura alento na vastidão do horizonte, numa ânsia indubitável de desafogo. E, num salto, lança-se na lonjura das cordilheiras, a construir pontes sobre o vazio fundeado no âmago das multidões.

Ergue-se uma ponte
Entre o meu e o teu olhar
- Fugaz turbilhão

Num sorriso caloroso
Feito traço de união

Não é preciso



Não é preciso a torrente
para explicar uma ponte,
basta um bago de suor
deslizando pela fronte.

Não é preciso o luzeiro
de uma estrela cadente,
basta apenas duas casas,
com as portas frente a frente.

Não é preciso um rugido
arrancado à multidão,
basta um fio de voz
entoando uma canção.

Não é preciso juncar
a rua toda de flores,
basta o vento que traz
o som cavo dos tambores.

Não é preciso correr mundo
à procura da verdade,
basta acalentar no peito
esse sonho sem idade.

Não é preciso bandeira,
nem emblema ou sinal,
bastam duas almas simples
irmanadas num ideal.

Não é preciso que o sol brilhe
para que o dia valha a pena,
basta abrir o coração
e colher uma açucena.