29 de julho de 2012

Pouca terra!

FOTO: Carlos Fernandes

Pouca terra, pouca terra, pouca terra… ecoa ao longe o monótono lamento do comboio. Lá vai ele, gemebundo, subindo e descendo montes, atravessando planícies, cruzando pontes sobre rios e ribeiras. O seu labor torna permanente na paisagem um duplo rasto, que ele percorre em contínuo vai e vem, ora para lá, ora para cá.
Leva no ventre gente de todas as condições à procura de novos destinos. Uns para perto, outros para longe. Uns voltarão, outros talvez não.

Lá vai o comboio -
Traço negro na paisagem
Ofegante e lesto

Como um cavalo de ferro
Em constante movimento

7 de julho de 2012

Novo blogue «Ficções Breves»


Os textos em 77 palavras que redigi em resposta aos desafios do blogue do mesmo nome, da escritora Margarida Fonseca Santos, migraram para o meu novo blogue, denominado «Ficções Breves».
É também lá que passarei a publicar os micro-contos realizados no âmbito da página do Facebook «Escritas de Microficção».
Espero a vossa visita.
Para aceder, bastar ir a ficcoesbreves.blogspot.pt

30 de junho de 2012

A geometria das casas

FOTO: Carlos Fernandes
Sonhadas a régua e esquadro, subjugadas ao rigor do fio-de-prumo, erguem-se as casas, verticais e geométricas, amuralhando as ruas da cidade. Imóveis e hirtas, nem dão pelo passar do tempo que lhes corrói a caliça. Mas é dentro delas que o fogo amorna as noites de inverno. É dentro delas que a sombra melhor refresca os dias de estio. É dentro delas que as paixões se temperam e os corpos se afeiçoam. É dentro delas que a vida se renova.

Ergue-se a cidade
na geometria das casas –
sonho de arquitecto.

Espreitando pela janela,
uma avó embala o neto.

27 de maio de 2012

A canção do rio

FOTO: Carlos Fernandes

Os longos pilares de cimento e aço atravessam o vale, aprumados como as colunas de uma catedral. São quase belos, não fora o facto de sustentarem as vigas de um progresso questionável. Símbolos da arrogância humana, fazem tábua rasa da geologia, alinhando o que é naturalmente desalinhado. Mas é falsa a sua imagem de solidez eterna: em menos de um século, irão ceder e desmoronar-se. E o que é um século para o paciente rio que canta lá em baixo? Foi ele quem cavou o vale…

Rumoreja o rio
ao ritmo das estações
- com a voz das águas.

Vai abraçar-se com o mar,
lavando penas e mágoas.

28 de abril de 2012

Lua cheia

FOTO: Carlos Fernandes

Poder-se-á aprisionar a lua cheia? Haverá grades tamanhas ou muralhas tão poderosas que a possam reter? Que impeçam o seu terno sorriso de desamortalhar os campos da nocturna capa de breu?
Não! Toda a gente sabe que a lua é livre. Toda a gente sabe que o luar não tem dono. Tal como os gatos vadios, que por isso a reverenciam e louvam sobre os telhados.
Descomprometida, na sua inquietude, toda a noite jornadeia entre o horizonte e o zénite. Até que a treva se rasgue e renasça a alvorada.

Longos cabelos de prata
Sobre o colo de alabastro -
Sorridente e nua.

Quem rasga o manto da noite?
- Não vês que é a lua?

2 de abril de 2012

As tábuas do cais

FOTO: Carlos Fernandes

Poderiam ser as tábuas de um cais, ligando as margens de um rio sereno ou acolhendo viajantes de diferentes continentes. Poderiam ser as tábuas do varandim do palácio onde as mãos da filha do comandante da Nau Catrineta tecem reinos imaginários no bastidor de linho. Poderiam ser até as tábuas da própria Nau Catrineta, animadas pela promessa do retorno a casa, da qual só resta a vaga memória de um odor a pão acabado de cozer…

A brisa da manhã
Desvenda o horizonte
Para lá da espuma.

É um navio que chega
Ou uma ilusão da bruma?

25 de fevereiro de 2012

À luz do poente


FOTO: Carlos Fernandes
 
Tudo se altera, nessa hora mágica. Não apenas a luz, mas a mais íntima substância das coisas. Esbate-se o mundo no alastrar das sombras. Dissipa-se o contorno físico das partes, enquanto o todo ganha, por breves instantes, um recorte inusitado. É a hora em que a matéria enjeita a sua própria identidade. A hora em que o morcego abandona o covil e arroja o seu estridente aviso: Resguardai-vos! Já o dia se esgueira pelo negro portal da noite.

Feneceu o dia -
A rua ficou deserta,
À luz do poente.

Resguardou-se a alegria
No aconchego da gente.

29 de janeiro de 2012

Haiku


Haiku from Jurriën Boogert on Vimeo.

Uma flor cadente
Vi voltar para o seu ramo
- Oh, uma borboleta.

Arakida Moritake (1473 / 1549)
[tradução de Carlos A. Silva]

27 de janeiro de 2012

Sem abrigo

 FOTO: Carlos Fernandes

Se às pessoas sem casa se chama «sem-abrigo», o que chamaremos às casas sem pessoas? Certo é que o abandono as corrói e arruína, tal como a fome, o frio e a doença fazem aos desabrigados. E como destroços se esboroam umas e outros pelas ruas da cidade velha, à míngua de calor, à míngua de amor…

mantêm-se as pedras
na teimosia da casa
- ainda paredes

mas o tempo e o desamparo
acabarão por vencê-las

8 de janeiro de 2012

Caminhada de Ano Novo

FOTO: Carlos Fernandes

Tanto que andaste, senta-te nessa pedra e recobra o alento. Escuta o silêncio, que até as aves se calaram por um momento. Apenas um leve rumor quebra o sossego do vale dormente. Ouves, naquela voz sussurrante, o cântico cristalino e fresco da água corrente? Serão as ninfas do rio que acordam nas profundezas da grota? Ou o pranto da montanha de cujo seio a corrente brota? Ou é simplesmente a Terra que respira de mansinho… Mesmo que o não saibas, já valeu a pena. Ganhaste um novo fôlego, podes continuar o caminho.

à beira do rio -
o viandante repousa
da longa jornada

o silêncio traz-lhe o alento
p’ra seguir a caminhada

3 de dezembro de 2011

Na varanda do mar

 FOTO: Carlos Fernandes

Na varanda do mar, não há passado nem futuro. Visto da falésia, o horizonte é um traço indefinido, difuso pelas brumas da distância. Lá em baixo, moldando pacientemente as fragas, o labor das ondas sussurra uma ignota melodia. Serão talvez as vozes ininteligíveis dos marinheiros de antanho erguendo-se num cântico ou numa prece. Repetindo sem cessar que o que vale é a viagem, não a partida nem a chegada - que o passado e o futuro não importaram nunca, apenas o breve momento em que se recebe e se devolve o ar que respiramos.

qual pluma errante
conduzida pelo vento

- leve como o ar
que respiras neste instante

saboreia o momento

6 de novembro de 2011

À sombra das fragas

FOTO: Carlos Fernandes

À sombra das fragas, talhadas pelo tempo com a paciência das águas, aninha-se um modesto pé de urze. Agarrado pela raiz a um interstício da rocha, enfrenta teimosamente o furor dos ventos invernais e a míngua dos estios. É certo que as condições lhe não permitem grandes exuberâncias. Mas, logo que o Outono se afirma, várias fiadas de pérolas purpurinas eclodem ao longo das suas ramagens. Lembram uma antiga lenda, segundo a qual os gnomos e os duendes procurariam abrigo nestas plantas, para si e para os seus fabulosos tesouros.



Mal chega o Outono -
Resplandece entre as fragas
A uva-do-monte

Guarda nas suas raízes
O efémero tesouro da vida.

16 de outubro de 2011

verde maré

Foto e arranjo gráfico: AUGUSTO MOTA

nesta verde maré
onde vogo
entre o silêncio e o mosto
há uma trombeta de fogo
colorindo o desejo
no teu rosto 


9 de outubro de 2011

claridade

Foto e arranjo gráfico: AUGUSTO MOTA

por negra que seja a noite
por muito que sangre a alma

basta a breve claridade
de uma improvável estrela
predizendo a alvorada


25 de setembro de 2011

Baile de gala

 FOTO: Carlos Fernandes
Disse o vento, enovelando as folhas caídas pelo chão, numa espiral inquieta:
- É chegada a hora, minhas filhas. É chegada a hora do baile de gala.
E arrancando das entranhas a toada de mil instrumentos, pôs-se a soprar uma frenética sinfonia. As folhas, embaladas pelo ímpeto vigoroso do mestre, iniciaram uma coreografia arrojada. Num ritmo crescente, restolharam, rodopiaram e remoinharam, subindo e descendo nos ares, em vertiginoso torvelinho. Até que a chuva, com a sua voz de água corrente, as chamou à razão:
- Acalmai-vos minhas filhas. É hora de descansar. Já podeis voltar de novo ao seio tutelar da Terra. Aconchegai-vos no húmus, bem junto às raízes, e adormecei. A Primavera vos despertará, refeitas em seiva, e logo voltareis a adornar os braços das árvores.

Às ordens do vento -
Num bailarico demente
Giram folhas secas

Até que a chuva as acalme
E adormeçam sobre a terra.

Carlos Alberto Silva
23 Setembro 2011
(primeiro dia de Outono)

28 de agosto de 2011

Saudades do mar

FOTO: Carlos Fernandes


- Ai, que saudades do mar… - lamentava-se uma gaivota transviada pela tempestade, pousada sobre uma fraga de remota serrania. – Que saudades dessa imensa seara de água batida pelo vento, ondeando para cá e para lá, desse embalo permanente quando pouso na sua superfície e me deixo levar, desse enorme espelho azul e ouro à hora do poente… E agora aqui estou eu, perdida entre penedos e mato baixo e não sei como voltar.
Um melro-das-rochas, que ouvira o desabafo da gaivota, exclamou:
- Gostava de conhecer o mar. Levas-me contigo a vê-lo?
- Levava, se soubesse o caminho… - disse a gaivota.
- Mas eu sei – respondeu o melro, apontando para o horizonte –. Segundo ouvi dizer, o mar fica onde o sol se deita ao fim do dia. Ali mesmo, nesta direcção.
Partiram ambos, procurando acertar os respectivos ritmos de voo. Quando chegaram, o melro achou exagerada e fantasiosa a descrição da gaivota e decidiu volver para a serra. Esta, no entanto, pôs-se a trovar:

Imensa seara de água
Tocada p’lo vento

Que em vez de medrar pão
Me nutres com o teu peixe

– Salve, mar sem fim!

26 de julho de 2011

Equívoco estival


 FOTO: Carlos Fernandes

Corria ansiosa pela rua uma leve folha de árvore, aproveitando o ímpeto ocasional da brisa. Um pampilho, com quem ela se cruzou, questionou-a:
– Porque corres tu tão ansiosa, ó leve folha de árvore?
– Vou juntar-me à maratona do Equinócio – disse-lhe ela. – Senti em mim uma ânsia que me secou o pecíolo e me alourou o limbo e isso só pode ser o apelo do Outono, dando ordem para que me lance nesta demanda…
– Enganas-te – volveu-lhe o malmequer amarelo. – O Verão ainda agora se acendeu na forja do sol. Muito falta para que o fole de Bóreas venha dissipar as cinzas do estio e o Outono possa reinar entre nós.
Mas a ansiosa e leve folha de árvore não quis saber e continuou a sua insana correria. Até que uma alta muralha lhe impediu o curso e a folha ali se aquietou, consumindo-se num breve e ligeiro húmus.

Porque corre a folha
– empurrada pela brisa –
em busca do Outono

Se ainda no adro vai
o cortejo do estio?

3 de julho de 2011

As novas castelãs

FOTO: Carlos Fernandes

Palco de antigas glórias que o tempo mitificou, já nada mais resta do velho paço que as pedras nuas – ou pouco mais – que lhe dão ainda um ar da sua remota imponência. E, no entanto, não há viajante que por ali passe que resista a subir ao alto da colina e a trepar ao que resta das muralhas, para fruir um breve mas largo relance sobre o horizonte. Que o digam as andorinhas das rochas, entregues à mornidão das lajes lambidas pelo sol, tornando-se agora nas novas castelãs.

no velho castelo –
repousam as andorinhas
ao sol da manhã

não querem saber de glórias
nem de guerras e tratados

28 de maio de 2011

Tragicomédia



















FOTO: Carlos Fernandes

Há quem diga que a vida é um imenso palco onde acumulamos as funções de dramaturgo, encenador, actor e espectador. Sob as máscaras que, conforme as circunstâncias, vamos colocando, nem o riso é duradouro, nem a dor definitiva. Tudo depende do ânimo do momento. Num piscar de olhos, passa-se da comédia ao drama e deste à tragédia. E o contrário também é verdade, pois quantas vezes os incidentes agora considerados dramáticos, ou até trágicos, se tornam, com o tempo, assunto risível para quem os viveu.

o riso da máscara
traduz, num esgar de pedra,
a essência da vida:

- dão as mãos no mesmo palco
a tragédia e a comédia.

1 de maio de 2011

Tecelagem































FOTO: Carlos Fernandes

Entrelaçam-se as palavras no tear da língua: armada a trama dos signos, urdem-se os significados numa tessitura consistente. O padrão varia conforme a tonalidade e a consistência do fio da vida, dobado na cadência das horas e dos dias. O labor é contínuo e persistente, refinando o burel da fala, perseguindo uma intangível clarividência, um universal entendimento. Desde a alvorada ao ocaso do Homem.

de linho ou de lã
tece no tear o pano
– canta a tecelã

a sua voz elabora
o tecido das palavras

3 de abril de 2011

No alto do ninho


































FOTO: Carlos Fernandes

Tidas como sinal de prosperidade, de felicidade e de sorte, as cegonhas são vistas, em grande parte do mundo, como símbolos da maternidade e da dedicação familiar. Para além de serem tidas como mães e pais extremosos, acreditava-se, na Antiguidade, que alimentavam e protegiam os seus próprios pais na velhice, o que terá originado a «lex ciconaria» romana.
Sabe-se que guardam fidelidade ao companheiro de uma vida e refazem o lar sempre no mesmo local, embora os seus hábitos migratórios as levem a voar milhares de quilómetros, todos os anos. No aconchego do ninho, feito no mais alto dos sítios altos, o desvelo com que ambos os progenitores tratam as crias é fundamento suficiente para dar crédito a todos estes mitos.

Ouço castanholas
Qual concerto ao desafio
Retinindo pelo ar

- É um casal de cegonhas
De regresso ao lar.

27 de fevereiro de 2011

A rama da oliveira






















FOTO: Carlos Fernandes

A brisa faz tremelicar de forma intermitente as magras folhas da rama da oliveira. O varejo e a poda pouco deixaram nas finas hastes que adornam a árvore. Como se a paga pela dádiva da azeitona fosse o açoite e a amputação. Mas estes destemperados tratos não são castigo nem crueldade. Apenas os necessários procedimentos de um ciclo que inclui o esmagamento dos negros frutos para que o azeite pingue claro da prensa do lagar.
E logo que acabem as rudezas da invernia, a seiva tornará a subir pelas raízes, rejuvenescerá o corpo maltratado da árvore, fará brotar as ternas flores e engrossará os frutos que o sol há-de amadurecer. E o povo cantará de novo com alegria: ó rama, ó que linda rama, ó rama da oliveira...

Tombou a azeitona
Da rama da oliveira
- Foi ter ao lagar

Corre o azeite na bica
E o povo põe-se a cantar.

29 de janeiro de 2011

A sombra na estrada


















FOTO: Carlos Fernandes

Tal como a alva antecipa o dia, a nostalgia da distância leva o caminhante a lançar-se na aspereza dos caminhos. Leve bagagem de quem nada tem, a sua sombra movediça e indistinta é a contrapartida de um sol resplandecente. Mas, mesmo que a sede lhe afogueie a garganta e o suor lhe empape o rosto, o astro-rei é sempre o companheiro mais apetecido. Com ele, vem a promessa de um dia renovado, de uma seara perene, do cantar das cotovias…
Move-se a sombra ao ritmo dos passos, até que o recato de um penedo vigilante ou o rumor de uma árvore oscilando na brisa lhe proporcionem o provisório repouso de uma breve sesta. Depois, sombra e caminhante continuam a viagem, irmanados nessa busca sem destino…

Fiel camarada
dos passos do viajante
– a sombra na estrada

É a dádiva do sol
a acompanhar a jornada.

29 de dezembro de 2010

O rasto do Inverno



FOTO: Carlos Fernandes
 Antes que se apaguem as últimas brasas na lareira, vamos à janela observar o rasto do Inverno. Lá fora, tudo é sombrio e brumoso. O vento norte revolteia o arvoredo e a chuva gelada submerge a paisagem sob um véu fantasmagórico. O que na Primavera foi verde, se alourou no Verão e no Outono se tornou rubro é agora aquela massa informe e escura no atoleiro. O que até há poucos meses era fulgor e vida decompõe-se agora em lama e húmus. Mas não será esse o nobre mandato da invernia? Garantir que, quando se apagar enfim a lareira, podemos adormecer confiantes de que a Primavera retornará, fecunda e generosa...

o rigor do inverno
faz do campo um atoleiro

- debaixo da lama
a semente da esperança
aguarda a primavera

8 de dezembro de 2010

folhas outonais



persiste a luz do sol
nas folhas outonais -
dourando o dia chuvoso

28 de novembro de 2010

A epopeia do barro


FOTO: Carlos Fernandes

Este é o barro, a substância lendária da divina Criação. Dele terá surgido o próprio Homem, moldado pela vontade dos deuses. Certo é que a sua excepcional plasticidade fez dele a matéria universal da humana criação. Temperado pelo fogo, resiste às agruras do Tempo, por centenas, milhares de anos. Por isso, sabemos que foi suporte da escrita na Suméria, morada rústica na Índia, sol ritual entre os Incas, zigurate na mítica Babilónia, mural em alto-relevo na desaparecida Assíria, estátua vigilante na antiga China, vaso decorado na Grécia clássica. Acarinhado por mãos habilidosas, será tudo o que a imaginação nele quiser afeiçoar, do mais humilde objecto utilitário ao mais alto expoente do génio artístico. Este é o barro.

O barro entre as mãos -
É como um corpo que cede
À voz do desejo

E se entrega por inteiro
À carícia de um beijo

31 de outubro de 2010

Além do chinelo

FOTO: Carlos Fernandes

Reza o ditame popular que «não vá o sapateiro além do chinelo», como quem diz que devemos equacionar sempre as nossas aptidões e capacidades e ajuizar até onde podemos ir na nossa ousadia. É um alerta para o risco que corremos quando nos atrevemos em determinadas proezas ou nos abalançamos em empresas para as quais não estamos habilitados. Mas, por outro lado, se não corrermos alguns riscos, nunca nos ultrapassaremos a nós próprios, nem sairemos, como também o povo diz, «da cepa torta». Não esqueçamos que foi em tremendo risco, sem saber nada do caminho, que os audazes marinheiros de antanho, alguns deles remendões, chegaram às Índias [e aos Brasis]…

O esto do sol
Acalenta nos chinelos
Uma leve carícia

Para uns pés magoados
Pelas vielas da vida

3 de outubro de 2010

Por detrás das cortinas


















FOTO: Carlos Fernandes

Por detrás das cortinas, esconde-se um emaranhado de cordas e roldanas, telas, engradados, estrados, ripas e sarrafos. O pó uniformizou formas, cores e texturas, mimetizando uma sorte de fantasmagoria lunar. Tudo ali é imobilidade e silêncio, apenas quebrados pelo murmúrio vago dos insectos e pela ocasional deambulação dos roedores.
Longe vai o eco dos discursos, das «falas», das «deixas» e das «buchas». Longe vão as melodias das árias, das baladas e outras cantorias. Longe vão os gestos calculados, ensaiados vezes sem conta e, vezes sem conta, repetidos nos mesmos trilhos repisados. Longe vão as tragédias, os dramas, as cenas de romance e ciúme, as fábulas, as rábulas e as comédias. Longe vão o riso e as palmas… Até que as cortinas se abram de novo.

no palco vazio -
só o pó e o silêncio
são protagonistas

até que a voz dos artistas
encha o teatro de gente

29 de agosto de 2010

O abraço do feijoeiro

















FOTO: Carlos Fernandes

Poderia ser flauta, rememorando o agudo sussurro do vento que lhe penteou as folhas; poderia ser roca de fiar, pente de tear, bengala, cesto, chapéu, chincalho, reco-reco, engenho de pesca, boiz, gaiola, casa de bonecas… Poderia dar corpo ao papagaio de papel e subir nos céus como as aves que lhe arremedaram de cima. Mas preferiu ser esteio, tornar-se cúmplice de uma fertilidade que nunca teve. Embora amputada das raízes, aninhou de novo o pé na terra e esperou pelo ímpeto fecundo da natureza. Deixou-se abraçar amorosamente pelo feijoeiro, deu-lhe suporte e altura. Reverdejou, floriu, frutificou... Reinventou a sua vegetal vocação.

amparo da horta -
volta de novo à terra
mesmo sem raiz

renasce a caninha seca
no abraço do feijoeiro

1 de agosto de 2010

um cão no telhado






















FOTO: Carlos Fernandes

Passamos uma vida inteira condicionados por um conjunto de crenças, normas e pre[con]ceitos que nos foram impostos desde o nascimento. Dizem-nos ser essa uma condição indispensável para viver em sociedade...
Reprimidos na nossa espontaneidade, recalcados nos nossos desejos mais profundos, domesticados como o gado de trabalho, deixamos vergar-nos ao jugo do “sucesso” a todo o custo…
Até que um dia, acabado o tempo que nos é dado, tudo se esvai, feito poeira nos devaneios do vento. E aí damos conta que talvez nos tenhamos esquecido da primordial razão da existência: a felicidade.

um cão no telhado -
fitando o horizonte
ao sol da manhã

sabe que o devir se oculta
na lonjura da paisagem