2 de junho de 2013

Num feixe



FOTO: Carlos Fernandes

Secam as canas ao sol. Atadas em feixes, parecem ganhar uma robustez e uma resistência que individualmente nunca tiveram. Serão talvez reutilizadas como suporte dos vegetais da horta, para uma cerca temporária ou para cobrir um alpendre. Sendo-o ou não, se verá que essas qualidades são apenas ilusórias. Acabada a sua vulgar conveniência, irão arder num lume breve, no final da estação.
Assim parece quererem fazer à humilde gente alguns mal disfarçados admiradores do pérfido «fascio», que tão grande tragédia trouxe à Humanidade.

Soluça o regato –
O verde canavial
Foi cortado cerce.

Já não baila a fresca brisa
De braço dado com as canas.

28 de abril de 2013

Ao tacho!



FOTO: Carlos Fernandes

Sobre a parede em ruínas, um velho tacho, a lembrar os tempos que correm. Entre o significado algo acintoso de «emprego ou ocupação que dá regalias e bom salário» e a sua acepção mais comum de «utensílio para cozinhar ao lume», o tacho estará sempre ligado ao acesso aos recursos indispensáveis à sobrevivência humana. Sabendo nós que esses recursos são limitados, nunca esta imagem foi tão pertinente como em momentos de crise - que alguns chamam «de oportunidade». É que, para que uma minoria continue a acumular escandalosamente, a maioria acabará por ficar com quase nada. E haverá muitos que terão cada vez menos para pôr no tacho para que uns poucos tenham o tacho cada vez mais cheio.

Velho tacho roto -
Brilhando ao sol matinal,
Na casa em ruínas.

Refulge por entre as ervas
A memória de uma vida.

31 de março de 2013

Vai formosa e não segura


FOTO: Carlos Fernandes

Continua enlameada a vereda por onde se passeia a Primavera, vestida simplesmente com a grinalda das primeiras flores. Ainda com demasiada frequência, as nuvens entornam uma chuva espessa e gélida, fora de tempo. E o vento, esse demente, ajuda à folia, despedaçando com fúria os tenros rebentos.
Vai formosa e não segura - como diria Luís Vaz -, face à toleima de um Inverno caprichoso, mas como não é de brigas, a donzela aguardará apenas que lhe passe o mau humor.

Tarda a Primavera –
A chuva que alaga a terra
Corre sem parar.

Traindo o Equinócio,
O Inverno teima em ficar.

3 de março de 2013

A Primavera da liberdade

FOTO: Carlos Fernandes

O Inverno vem e vai, umas vezes mais ameno, outras vezes inclemente. As árvores fazem o que podem para resistir aos seus humores. Suspendem o ciclo vegetativo e despojam-se das folhas que as vestem. Açoitadas pelo vento, não têm outro remédio se não vergar-se. E por vezes quebram…
Assim o povo, perante um governo despótico. Durante um tempo, também ele se despoja, também ele se verga, também ele quebra. Mas tal como as árvores, também ele sonha com a Primavera. E há um dia em que, de flores em punho (ou bordões, ou espingardas…), faz com que a liberdade aconteça.

2 de Março de 2013
(O dia em que o povo, mais uma vez, saiu à rua)

3 de fevereiro de 2013

Morrer de pé


FOTO: Carlos Fernandes

Embora submetido ao peso dos símbolos; embora flagelado pela agrura das intempéries; embora sujeito à deriva do tempo; embora curvado e seco; embora esquecido e só… só o golpe final lhe roubará a verticalidade das suas origens, quando era verde entre o verde, árvore entre as árvores.

Sonha com a brisa
Acariciando o bosque
- Cantando baixinho.

Foi árvore, agora é mastro.
Como elas, morre de pé.

30 de dezembro de 2012

A aranha e a sua teia

FOTO: Carlos Fernandes
A aranha aplica na construção da sua teia um maravilhoso plano de engenharia, que se encontra inscrito no próprio código genético. E este é resultado do exercício que, durante milhões de anos, fizeram todas as aranhas antes dela. Podemos deixar-nos fascinar pela perfeição de uma teia de aranha, admirar a sua regularidade, enaltecer a sua exactidão matemática. No entanto, cumprida a sua função, logo a aranha se lança na tecedura de uma nova. Porque o fito dela é apanhar a mosca e não a teia em si. E isso não a impede, naquilo que faz, de fazer o melhor que sabe.

Perlada de orvalho -
Brilha ao sol da manhã
A teia de aranha.

Breve sinal de uma luta
Que na morte se faz vida.

2 de dezembro de 2012

Dezembro

FOTO: Carlos Fernandes

Dezembro chega e com ele a certeza de um Inverno duro. Não o desmentem os fiapos das nuvens nem o sol baixo que se acoita atrás das casas. Para além do frio e da crueza dos dias curtos, a vida não será fácil para quem tem de fincar os dedos na terra por arar. Nunca o foi, mas agora sê-lo-á menos que nunca, face aos desmandos dos senhores de mãos macias e discurso fácil. Por isso, a urgência de manter viva a teimosa luz da esperança.

Altivas e ledas -
Passam ligeiras as nuvens
Namorando o vento.

Por detrás do casario
Vai minguando a luz do sol.

2 de novembro de 2012

O brilho da lua

FOTO: Carlos Fernandes
Hierática e bela, revela-se inteira apenas de mês a mês, atenuando a treva com a sua luz fantasmática - por vezes, nem isso, que as nuvens gostam de jogar com ela o jogo das escondidas. No rosto redondo, sempre a mesma expressão serena, o mesmo sorriso enigmático. Que mistérios guardará na sua face oculta? Que segredos? Que sortilégios usará para enfeitiçar os apaixonados, os ébrios, os gatos e os poetas? Só ela o saberá, a lua.

Noite de luar -
Uma poalha de luz
Quebra a escuridão.

Um casal de namorados
Arrulha, a mão na mão.

30 de setembro de 2012

A José Régio

FOTO: Carlos Fernandes

Quantas vezes o trilho dito certo, palmilhado anos e anos como tal, conduz a um beco, a um deserto, a uma charneca em noite de vendaval?
Quantas vezes o horizonte rasgado, miragem de um futuro por cumprir, se torna num estreito acanhado? Que pode o caminhante decidir?
Audaz como no cântico de Régio, mesmo sem saber por nem para onde, rasgar novo caminho entre as giestas, até ouvir que o eco lhe responde.

Ignorantes e nus -
Chegamos a este mundo
Sem mapa nem guia.

São os nossos próprios pés
Que vão traçando o caminho.

25 de agosto de 2012

Prece

FOTO: Carlos Fernandes

Que se franqueiem todas as portas, para que por elas passe a doce brisa da liberdade. Que se desimpeçam todas as escadas, para que possamos emergir das trevas de nós próprios. Que se abram bem os olhos, os ouvidos e as narinas, para que nos deleitemos com a verde e sussurrante fragrância da Primavera. Que se descerre, enfim, o coração, para que saibamos usufruir plenamente do privilégio de estar vivos.

Dá-me a tua mão –
Iremos a par e passo
Pela vida, sem pressas.

Para iluminar o caminho,
Basta apenas um sorriso.

29 de julho de 2012

Pouca terra!

FOTO: Carlos Fernandes

Pouca terra, pouca terra, pouca terra… ecoa ao longe o monótono lamento do comboio. Lá vai ele, gemebundo, subindo e descendo montes, atravessando planícies, cruzando pontes sobre rios e ribeiras. O seu labor torna permanente na paisagem um duplo rasto, que ele percorre em contínuo vai e vem, ora para lá, ora para cá.
Leva no ventre gente de todas as condições à procura de novos destinos. Uns para perto, outros para longe. Uns voltarão, outros talvez não.

Lá vai o comboio -
Traço negro na paisagem
Ofegante e lesto

Como um cavalo de ferro
Em constante movimento

7 de julho de 2012

Novo blogue «Ficções Breves»


Os textos em 77 palavras que redigi em resposta aos desafios do blogue do mesmo nome, da escritora Margarida Fonseca Santos, migraram para o meu novo blogue, denominado «Ficções Breves».
É também lá que passarei a publicar os micro-contos realizados no âmbito da página do Facebook «Escritas de Microficção».
Espero a vossa visita.
Para aceder, bastar ir a ficcoesbreves.blogspot.pt

30 de junho de 2012

A geometria das casas

FOTO: Carlos Fernandes
Sonhadas a régua e esquadro, subjugadas ao rigor do fio-de-prumo, erguem-se as casas, verticais e geométricas, amuralhando as ruas da cidade. Imóveis e hirtas, nem dão pelo passar do tempo que lhes corrói a caliça. Mas é dentro delas que o fogo amorna as noites de inverno. É dentro delas que a sombra melhor refresca os dias de estio. É dentro delas que as paixões se temperam e os corpos se afeiçoam. É dentro delas que a vida se renova.

Ergue-se a cidade
na geometria das casas –
sonho de arquitecto.

Espreitando pela janela,
uma avó embala o neto.

27 de maio de 2012

A canção do rio

FOTO: Carlos Fernandes

Os longos pilares de cimento e aço atravessam o vale, aprumados como as colunas de uma catedral. São quase belos, não fora o facto de sustentarem as vigas de um progresso questionável. Símbolos da arrogância humana, fazem tábua rasa da geologia, alinhando o que é naturalmente desalinhado. Mas é falsa a sua imagem de solidez eterna: em menos de um século, irão ceder e desmoronar-se. E o que é um século para o paciente rio que canta lá em baixo? Foi ele quem cavou o vale…

Rumoreja o rio
ao ritmo das estações
- com a voz das águas.

Vai abraçar-se com o mar,
lavando penas e mágoas.

28 de abril de 2012

Lua cheia

FOTO: Carlos Fernandes

Poder-se-á aprisionar a lua cheia? Haverá grades tamanhas ou muralhas tão poderosas que a possam reter? Que impeçam o seu terno sorriso de desamortalhar os campos da nocturna capa de breu?
Não! Toda a gente sabe que a lua é livre. Toda a gente sabe que o luar não tem dono. Tal como os gatos vadios, que por isso a reverenciam e louvam sobre os telhados.
Descomprometida, na sua inquietude, toda a noite jornadeia entre o horizonte e o zénite. Até que a treva se rasgue e renasça a alvorada.

Longos cabelos de prata
Sobre o colo de alabastro -
Sorridente e nua.

Quem rasga o manto da noite?
- Não vês que é a lua?

2 de abril de 2012

As tábuas do cais

FOTO: Carlos Fernandes

Poderiam ser as tábuas de um cais, ligando as margens de um rio sereno ou acolhendo viajantes de diferentes continentes. Poderiam ser as tábuas do varandim do palácio onde as mãos da filha do comandante da Nau Catrineta tecem reinos imaginários no bastidor de linho. Poderiam ser até as tábuas da própria Nau Catrineta, animadas pela promessa do retorno a casa, da qual só resta a vaga memória de um odor a pão acabado de cozer…

A brisa da manhã
Desvenda o horizonte
Para lá da espuma.

É um navio que chega
Ou uma ilusão da bruma?

25 de fevereiro de 2012

À luz do poente


FOTO: Carlos Fernandes
 
Tudo se altera, nessa hora mágica. Não apenas a luz, mas a mais íntima substância das coisas. Esbate-se o mundo no alastrar das sombras. Dissipa-se o contorno físico das partes, enquanto o todo ganha, por breves instantes, um recorte inusitado. É a hora em que a matéria enjeita a sua própria identidade. A hora em que o morcego abandona o covil e arroja o seu estridente aviso: Resguardai-vos! Já o dia se esgueira pelo negro portal da noite.

Feneceu o dia -
A rua ficou deserta,
À luz do poente.

Resguardou-se a alegria
No aconchego da gente.

29 de janeiro de 2012

Haiku


Haiku from Jurriën Boogert on Vimeo.

Uma flor cadente
Vi voltar para o seu ramo
- Oh, uma borboleta.

Arakida Moritake (1473 / 1549)
[tradução de Carlos A. Silva]

27 de janeiro de 2012

Sem abrigo

 FOTO: Carlos Fernandes

Se às pessoas sem casa se chama «sem-abrigo», o que chamaremos às casas sem pessoas? Certo é que o abandono as corrói e arruína, tal como a fome, o frio e a doença fazem aos desabrigados. E como destroços se esboroam umas e outros pelas ruas da cidade velha, à míngua de calor, à míngua de amor…

mantêm-se as pedras
na teimosia da casa
- ainda paredes

mas o tempo e o desamparo
acabarão por vencê-las

8 de janeiro de 2012

Caminhada de Ano Novo

FOTO: Carlos Fernandes

Tanto que andaste, senta-te nessa pedra e recobra o alento. Escuta o silêncio, que até as aves se calaram por um momento. Apenas um leve rumor quebra o sossego do vale dormente. Ouves, naquela voz sussurrante, o cântico cristalino e fresco da água corrente? Serão as ninfas do rio que acordam nas profundezas da grota? Ou o pranto da montanha de cujo seio a corrente brota? Ou é simplesmente a Terra que respira de mansinho… Mesmo que o não saibas, já valeu a pena. Ganhaste um novo fôlego, podes continuar o caminho.

à beira do rio -
o viandante repousa
da longa jornada

o silêncio traz-lhe o alento
p’ra seguir a caminhada