18 de junho de 2021

Melro à chuva

(Foto de Maria Júlia Laginha / Perspetivas do olhar)

Debaixo de chuva,
canta o melro
com grande prazer.
Talvez porque saiba
que é esta
quem lhe dá de comer.


 

1 de abril de 2021

Formiga



Dona formiga
rabiga
carrega
sua migalha
para encher
a barriga.

Diadema



A chuva abraça a rosa
adornando-a com
um diadema de pérolas.

31 de março de 2021

Uma estrela



Perfuma-se a noite -
no ramo da laranjeira,
pousou uma estrela.

21 de março de 2021

No dia da Poesia


Brincos de princesa -
Não há maior poeta
Que a natureza.

19 de março de 2021

a canção da nora

 


Tangida pelo rio,
O que canta a nora?
Alegre para quem ri,
É triste para quem chora.


Numa poça de chuva

balançando na brisa -
há barquinhos das fadas
numa poça de chuva

25 de fevereiro de 2021

o beijo da chuva



o beijo da chuva
amanhece
a magnólia florida

24 de fevereiro de 2021

a minha bandeira


a minha bandeira
é feita com a luz e o riso
dos dias perfeitos

rompendo a sombra
e a mágoa
dos sonhos desfeitos

adejando ao vento
com o marulhar
único da água

11 de fevereiro de 2021

Sonho cor-de-rosa

sonho
cor-de-rosa

como um bando
de flamingos
repousando

florescem
os braços nus
da magnólia

6 de fevereiro de 2021

Rendilhado

Foto e texto de Carlos A. Silva

entre os inertes despojos
que o gélido vento
arrasta
só um frágil rendilhado
na desfolhada folha
resta

24 de outubro de 2020

A menina dos teus olhos

 


Nos teus olhos
há uma menina
Que chora quando estás triste
E ri quando estás feliz.

Também nos meus
Há um menino
Que chora quando tu choras
E ri quando tu ris.

25 de abril de 2020

Liberdade

Ilustração de André Carrilho (DN)

A Liberdade
é como uma planta
frágil e bela
num campo aberto
ou num vaso à janela

Não basta a labuta
de lançar
a semente no chão

É preciso cuidar dela
ampará-la no calor da luta
e nutri-la com o ânimo
de uma canção.

25-04-2020

2 de fevereiro de 2020

a fada da maresia


tece à luz da manhã
a fada da maresia
perlando de gotas de orvalho
a teia vazia

à flor do tojo


De rojo
no fojo
o tojo
emudece.

Brilha o sol
e o tojo
com arrojo
amanhece.

5 de janeiro de 2020

As nuvens não têm casa


As nuvens não têm casa
- a sua casa é o mundo.

Deixam-se ir nos braços do vento
de terra em terra
e de mar em mar
- vão de quarto em quarto, pela casa.

Por vezes, viajam depressa,
como se estivessem ansiosas
por aportar algures
- têm pressa de chegar a casa.

Outras vezes, vão muito devagar,
como que saboreando
todos os detalhes da paisagem
- querem conhecer todos os cantos à casa.

Carregam a esperança
de um vida renovada
nas gotas da chuva que aspergem
sobre as criaturas sedentas
- cuidam do mundo, cuidam da sua casa.

Assim fôssemos nós, como as nuvens
e o mundo fosse também para nós
a nossa casa.

11 de junho de 2019

Tílias em flor


Tílias em flor -
Embriagam-se as abelhas
Com seu doce odor.

19 de abril de 2019

Bola de sabão


À Élida, com amizade

Bola de sabão ao vento
Bailando ao sol da tarde
Num arco-íris de espuma.

Voa por um momento
Sobre a terra seca
E desfaz-se em coisa nenhuma.

Mas logo outra e outra
Se elevam no ar
E continuam a dança.

Relembrando aos incréus
Que a última coisa a finar
É a esperança.

Cidade da Praia

20 de março de 2019

O baile do Equinócio

No baile do Equinócio, as árvores de folha caduca exibem os seus vestidos de tule verde-leve. Penteadas pelo vento, agitam os braços numa saudação:
- Bem-vinda sejas, Primavera!

12 de fevereiro de 2019

Folha ou pássaro

Uma folha
ou um pássaro
adeja nos braços
irrequietos do vento

Um pássaro-folha
de asas nervosas
rabiscando a tela
do horizonte

Uma folha-pássaro
de bico ávido
sorvendo o azul
saboreando a luz

Se folha
se pássaro
tanto faz

O que importa
é a vertigem do voo
que me fascina
e seduz

20 de novembro de 2018

Ninho vazio



no topo da árvore
despida pela ventania
- um ninho vazio

16 de novembro de 2018

Flores outonais



ignorando o Outono,

a planta exótica
cobre-se de flores.

11 de novembro de 2018

Um país



Um país nunca é apenas um país.
É muitos mais.
É o país dos ricos
E o país dos pobres.
É o país dos cultos
E o dos ignorantes.
É o país dos nativos
E o dos migrantes.
Dos que cá nasceram
Mas aqui não moram
E o dos que aqui moram
Mas não nasceram cá.
É o país dos citadinos
E o dos provincianos
(mesmo que os primeiros
vivam no campo
e os segundos na cidade).
É o país dos homens
E o país das mulheres
E o das crianças.
É o país dos adultos.
É o país dos adúlteros.
É país dos mansos
E o dos violentos.
O país dos crentes
O dos ateus
O dos agnósticos
E o dos assim assim.
É o país dos católicos
E o dos protestantes
E o dos muçulmanos
E o dos budistas
(mesmo que estes sejam
uma ínfima minoria).
É o país dos camponeses
E o dos operários
O país dos banqueiros
E o dos ladrões
(que os há em todas
as classes e profissões).
O país dos doutores
E dos engenheiros
E o dos almeidas
E dos coveiros.
O país dos heteros
E o dos homos
E o dos bis e o dos polis
E o dos assexuais.
É o país dos cromos
E o das vedetas.
O país da verdade
E o das grandes tretas.
O país onde se desfalece de fome
E se morre de obesidade.
O país dos que sofrem de solidão
E o dos que tentam espantar
Uma solidão maior
No meio da multidão.
O país dos sem abrigo
E o dos que passam ao largo
Em carros topo de gama
(mesmo que estes não tenham
mais nada a não ser dinheiro
e outras coisas que não digo).
...
Por isso, um país nunca é
Apenas um país.
Mas, só na amálgama
De todos estes outros países
E mais alguns de que não se fala aqui
Um país
Poderá ser verdadeiramente
Um país.

Poente



A chuva deu trégua
para o sol vir dizer:
- Até amanhã!

8 de novembro de 2018

Outono



folha a folha
se entrega o Outono
nos braços da brisa

4 de dezembro de 2017

O sono de Ícaro


acordei com o odor
da tua ausência

coloquei as asas
e fui em busca de ti
pelos insondáveis
labirintos do mundo

resistindo
à vertigem do sol

17 de outubro de 2017

O vento arrasta a cinza


Em 2004, quando foi escrito, este poema tinha as palavras «o pólen» no lugar das palavras «a cinza». Fica a homenagem aos que combateram e sofreram com os incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017, em particular no Pinhal de Leiria.

Num ligeiro remoinho 
o vento arrasta a cinza 
das flores do verde pino. 

E traz consigo a memória 
do velho rei trovador: 
- Ai flores do verde pino. 

Quem suspira mansamente 
pelos pinhais do litoral? 
Será o vento ou o mar? 

Ou serão ainda os ecos 
duma cantiga de amigo? 
- Ai flores do verde pino. 

Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão 
soa a mágoa do poeta: 

- Ainda ouvis minha voz? 
Ainda vos lembrais de mim 
ó flores do verde pino? 

Mas só responde o murmúrio 
do vento que arrasta a cinza 
das flores do verde pino.

18 de maio de 2016

quando eu morrer não tragam flores



Foto de Carlos A. Silva


quando eu morrer
não tragam flores
que flor cortada
logo fenece
e morto por morto
basta no esquife
o cadáver que arrefece

não tragam sequer
lamento e pranto
que a morte
- porque certa -
não vale o espanto
nem a mágoa da perda
que o peito descerra

tragam histórias
e canções
e poemas vibrantes
com as memórias felizes
dos dias de antes
perenes como as flores
de pé na terra

24 de outubro de 2014

Cavalos no prado


Cavalos no prado –
um bailado ruminante 
na tarde de Outono.

25 de abril de 2014

havia naquela manhã de abril




[A Salgueiro Maia, nos 40 anos do 25 de Abril]

havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade

eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade

havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas

eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas

havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida

e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida

Carlos Alberto Silva
25-04-2014