5 de abril de 2022

Do brincar

 


Pegas-me na mão e dizes:
- Anda, vamos brincar.

Mas eu respondo:
- Não posso. Agora, não.
Não tenho tempo para jogar.

Ao ver no teu rosto
A sombra da desilusão,
Ensombro-me também eu.

Recordo, num canto
Da prateleira, esquecido,
Um velho brinquedo
Que um dia foi meu.

E dou conta que o menino
Que já fui e em mim mora
Ganha pó, adormecido,
No esconso museu
Do meu coração.

Algo em mim estremece.
Lembro, num baque,
Que o tempo acontece,
Gozemos nós dele ou não.

Acordo então o tal petiz
Do remanso dos dias
Em que fui feliz
E refaço a resposta:

- Agora, sim, pode ser.
Vamos, vamos brincar,
Porque brincar é viver.

16 de janeiro de 2022

Penteia-se a donzela


Penteia-se a donzela

Reclinada em verde manto.

Não é de oiro o pente

Ou de seda a camisa.

Mas nem por isso

é menos bela...

O seu cabelo de pétalas

Quem o penteia

É a brisa.

18 de junho de 2021

Melro à chuva

(Foto de Maria Júlia Laginha / Perspetivas do olhar)

Debaixo de chuva,
canta o melro
com grande prazer.
Talvez porque saiba
que é esta
quem lhe dá de comer.


 

1 de abril de 2021

Formiga



Dona formiga
rabiga
carrega
sua migalha
para encher
a barriga.

Diadema



A chuva abraça a rosa
adornando-a com
um diadema de pérolas.

31 de março de 2021

Uma estrela



Perfuma-se a noite -
no ramo da laranjeira,
pousou uma estrela.

21 de março de 2021

No dia da Poesia


Brincos de princesa -
Não há maior poeta
Que a natureza.

19 de março de 2021

a canção da nora

 


Tangida pelo rio,
O que canta a nora?
Alegre para quem ri,
É triste para quem chora.


Numa poça de chuva

balançando na brisa -
há barquinhos das fadas
numa poça de chuva

25 de fevereiro de 2021

o beijo da chuva



o beijo da chuva
amanhece
a magnólia florida

24 de fevereiro de 2021

a minha bandeira


a minha bandeira
é feita com a luz e o riso
dos dias perfeitos

rompendo a sombra
e a mágoa
dos sonhos desfeitos

adejando ao vento
com o marulhar
único da água

11 de fevereiro de 2021

Sonho cor-de-rosa

sonho
cor-de-rosa

como um bando
de flamingos
repousando

florescem
os braços nus
da magnólia

6 de fevereiro de 2021

Rendilhado

Foto e texto de Carlos A. Silva

entre os inertes despojos
que o gélido vento
arrasta
só um frágil rendilhado
na desfolhada folha
resta

24 de outubro de 2020

A menina dos teus olhos

 


Nos teus olhos
há uma menina
Que chora quando estás triste
E ri quando estás feliz.

Também nos meus
Há um menino
Que chora quando tu choras
E ri quando tu ris.

20 de setembro de 2020

Cactos


 

25 de abril de 2020

Liberdade

Ilustração de André Carrilho (DN)

A Liberdade
é como uma planta
frágil e bela
num campo aberto
ou num vaso à janela

Não basta a labuta
de lançar
a semente no chão

É preciso cuidar dela
ampará-la no calor da luta
e nutri-la com o ânimo
de uma canção.

25-04-2020

2 de fevereiro de 2020

a fada da maresia


tece à luz da manhã
a fada da maresia
perlando de gotas de orvalho
a teia vazia

à flor do tojo


De rojo
no fojo
o tojo
emudece.

Brilha o sol
e o tojo
com arrojo
amanhece.

5 de janeiro de 2020

As nuvens não têm casa


As nuvens não têm casa
- a sua casa é o mundo.

Deixam-se ir nos braços do vento
de terra em terra
e de mar em mar
- vão de quarto em quarto, pela casa.

Por vezes, viajam depressa,
como se estivessem ansiosas
por aportar algures
- têm pressa de chegar a casa.

Outras vezes, vão muito devagar,
como que saboreando
todos os detalhes da paisagem
- querem conhecer todos os cantos à casa.

Carregam a esperança
de um vida renovada
nas gotas da chuva que aspergem
sobre as criaturas sedentas
- cuidam do mundo, cuidam da sua casa.

Assim fôssemos nós, como as nuvens
e o mundo fosse também para nós
a nossa casa.

11 de junho de 2019

Tílias em flor


Tílias em flor -
Embriagam-se as abelhas
Com seu doce odor.

19 de abril de 2019

Bola de sabão


À Élida, com amizade

Bola de sabão ao vento
Bailando ao sol da tarde
Num arco-íris de espuma.

Voa por um momento
Sobre a terra seca
E desfaz-se em coisa nenhuma.

Mas logo outra e outra
Se elevam no ar
E continuam a dança.

Relembrando aos incréus
Que a última coisa a finar
É a esperança.

Cidade da Praia

20 de março de 2019

O baile do Equinócio

No baile do Equinócio, as árvores de folha caduca exibem os seus vestidos de tule verde-leve. Penteadas pelo vento, agitam os braços numa saudação:
- Bem-vinda sejas, Primavera!

12 de fevereiro de 2019

Folha ou pássaro

Uma folha
ou um pássaro
adeja nos braços
irrequietos do vento

Um pássaro-folha
de asas nervosas
rabiscando a tela
do horizonte

Uma folha-pássaro
de bico ávido
sorvendo o azul
saboreando a luz

Se folha
se pássaro
tanto faz

O que importa
é a vertigem do voo
que me fascina
e seduz

20 de novembro de 2018

Ninho vazio



no topo da árvore
despida pela ventania
- um ninho vazio

16 de novembro de 2018

Flores outonais



ignorando o Outono,

a planta exótica
cobre-se de flores.

11 de novembro de 2018

Um país



Um país nunca é apenas um país.
É muitos mais.
É o país dos ricos
E o país dos pobres.
É o país dos cultos
E o dos ignorantes.
É o país dos nativos
E o dos migrantes.
Dos que cá nasceram
Mas aqui não moram
E o dos que aqui moram
Mas não nasceram cá.
É o país dos citadinos
E o dos provincianos
(mesmo que os primeiros
vivam no campo
e os segundos na cidade).
É o país dos homens
E o país das mulheres
E o das crianças.
É o país dos adultos.
É o país dos adúlteros.
É país dos mansos
E o dos violentos.
O país dos crentes
O dos ateus
O dos agnósticos
E o dos assim assim.
É o país dos católicos
E o dos protestantes
E o dos muçulmanos
E o dos budistas
(mesmo que estes sejam
uma ínfima minoria).
É o país dos camponeses
E o dos operários
O país dos banqueiros
E o dos ladrões
(que os há em todas
as classes e profissões).
O país dos doutores
E dos engenheiros
E o dos almeidas
E dos coveiros.
O país dos heteros
E o dos homos
E o dos bis e o dos polis
E o dos assexuais.
É o país dos cromos
E o das vedetas.
O país da verdade
E o das grandes tretas.
O país onde se desfalece de fome
E se morre de obesidade.
O país dos que sofrem de solidão
E o dos que tentam espantar
Uma solidão maior
No meio da multidão.
O país dos sem abrigo
E o dos que passam ao largo
Em carros topo de gama
(mesmo que estes não tenham
mais nada a não ser dinheiro
e outras coisas que não digo).
...
Por isso, um país nunca é
Apenas um país.
Mas, só na amálgama
De todos estes outros países
E mais alguns de que não se fala aqui
Um país
Poderá ser verdadeiramente
Um país.

Poente



A chuva deu trégua
para o sol vir dizer:
- Até amanhã!

8 de novembro de 2018

Outono



folha a folha
se entrega o Outono
nos braços da brisa

4 de dezembro de 2017

O sono de Ícaro


acordei com o odor
da tua ausência

coloquei as asas
e fui em busca de ti
pelos insondáveis
labirintos do mundo

resistindo
à vertigem do sol

17 de outubro de 2017

O vento arrasta a cinza


Em 2004, quando foi escrito, este poema tinha as palavras «o pólen» no lugar das palavras «a cinza». Fica a homenagem aos que combateram e sofreram com os incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017, em particular no Pinhal de Leiria.

Num ligeiro remoinho 
o vento arrasta a cinza 
das flores do verde pino. 

E traz consigo a memória 
do velho rei trovador: 
- Ai flores do verde pino. 

Quem suspira mansamente 
pelos pinhais do litoral? 
Será o vento ou o mar? 

Ou serão ainda os ecos 
duma cantiga de amigo? 
- Ai flores do verde pino. 

Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão 
soa a mágoa do poeta: 

- Ainda ouvis minha voz? 
Ainda vos lembrais de mim 
ó flores do verde pino? 

Mas só responde o murmúrio 
do vento que arrasta a cinza 
das flores do verde pino.