Uma folha
ou um pássaro
adeja nos braços
irrequietos do vento
Um pássaro-folha
de asas nervosas
rabiscando a tela
do horizonte
Uma folha-pássaro
de bico ávido
sorvendo o azul
saboreando a luz
Se folha
se pássaro
tanto faz
O que importa
é a vertigem do voo
que me fascina
e seduz
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
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12 de fevereiro de 2019
4 de dezembro de 2017
O sono de Ícaro
acordei com o odor
da tua ausência
coloquei as asas
e fui em busca de ti
pelos insondáveis
labirintos do mundo
resistindo
à vertigem do sol
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17 de outubro de 2017
O vento arrasta a cinza
Em 2004, quando foi escrito, este poema tinha as palavras «o pólen» no lugar das palavras «a cinza». Fica a homenagem aos que combateram e sofreram com os incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017, em particular no Pinhal de Leiria.
Num ligeiro remoinho
o vento arrasta a cinza
das flores do verde pino.
E traz consigo a memória
do velho rei trovador:
- Ai flores do verde pino.
Quem suspira mansamente
pelos pinhais do litoral?
Será o vento ou o mar?
Ou serão ainda os ecos
duma cantiga de amigo?
- Ai flores do verde pino.
Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão
soa a mágoa do poeta:
- Ainda ouvis minha voz?
Ainda vos lembrais de mim
ó flores do verde pino?
Mas só responde o murmúrio
do vento que arrasta a cinza
das flores do verde pino.
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18 de maio de 2016
quando eu morrer não tragam flores
![]() |
| Foto de Carlos A. Silva |
quando eu morrer
não tragam flores
que flor cortada
logo fenece
e morto por morto
basta no esquife
o cadáver que arrefece
não tragam sequer
lamento e pranto
que a morte
- porque certa -
não vale o espanto
nem a mágoa da perda
que o peito descerra
tragam histórias
e canções
e canções
e poemas vibrantes
com as memórias felizes
dos dias de antes
perenes como as flores
de pé na terra
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25 de abril de 2014
havia naquela manhã de abril
[A Salgueiro Maia, nos 40 anos do 25
de Abril]
havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade
eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade
havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas
eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas
havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida
e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida
Carlos Alberto Silva
25-04-2014
havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade
eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade
havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas
eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas
havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida
e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida
Carlos Alberto Silva
25-04-2014
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30 de agosto de 2009
Pôr do sol

Uma ave errante chocou um ovo no horizonte
e o mar todo de luz se esbraseou.
O negrume da falésia traçou um mapa
de perfil incerto no céu vermelho.
Mas eis que a noite abriu caminho,
abraçou o areal e tudo sossegou.
Apenas o sussurro das ondas ali ficou.
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19 de agosto de 2009
Não é preciso

Não é preciso a torrente
para explicar uma ponte,
basta um bago de suor
deslizando pela fronte.
Não é preciso o luzeiro
de uma estrela cadente,
basta apenas duas casas,
com as portas frente a frente.
Não é preciso um rugido
arrancado à multidão,
basta um fio de voz
entoando uma canção.
Não é preciso juncar
a rua toda de flores,
basta o vento que traz
o som cavo dos tambores.
Não é preciso correr mundo
à procura da verdade,
basta acalentar no peito
esse sonho sem idade.
Não é preciso bandeira,
nem emblema ou sinal,
bastam duas almas simples
irmanadas num ideal.
Não é preciso que o sol brilhe
para que o dia valha a pena,
basta abrir o coração
e colher uma açucena.
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8 de março de 2008
Resistir
Quando o medo tolhe o canto nas gargantas
e à viva voz se sobrepõe a voz do dono
é preciso resistir
Quando a razão se verga ao jugo do mais forte
e a palavra desfalece na mordaça
é preciso resistir
Quando a semente da calúnia cai à terra
e o ar se enche com o rosnar do mostrengo
é preciso resistir
Quando a verdade se embaça sob os panos
e enverga a canga do discurso oficial
é preciso resistir
E quando sopra o vento gélido da cobiça
e o pudor se torna servo da abastança
é preciso resistir
E quando a mágoa for a moeda de troca
com que nos pagam o labor de uma vida
é preciso resistir
E se o silêncio for a arma que nos resta
e só a rua for bastante para gritar
aí estaremos
assim faremos
a resistir
a resistir
e à viva voz se sobrepõe a voz do dono
é preciso resistir
Quando a razão se verga ao jugo do mais forte
e a palavra desfalece na mordaça
é preciso resistir
Quando a semente da calúnia cai à terra
e o ar se enche com o rosnar do mostrengo
é preciso resistir
Quando a verdade se embaça sob os panos
e enverga a canga do discurso oficial
é preciso resistir
E quando sopra o vento gélido da cobiça
e o pudor se torna servo da abastança
é preciso resistir
E quando a mágoa for a moeda de troca
com que nos pagam o labor de uma vida
é preciso resistir
E se o silêncio for a arma que nos resta
e só a rua for bastante para gritar
aí estaremos
assim faremos
a resistir
a resistir
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16 de novembro de 2007
a tarde definha

http://olhares.aeiou.pt/calbsilva
a tarde definha
à luz esmaecida do Outono
os imperativos da estação
continuam a desnudar a árvore
que folha a folha
se despede do sol enfraquecido
em amarelecida vénia
mas logo uma revoada de pardais
repovoa os ramos de asas
assombrando a praça num tumulto ruidoso
a chuva
que havia de acordar os íntimos odores da terra
é ainda uma promessa por cumprir
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25 de abril de 2007
25 de Abril Sempre!

FOTO: Carlos A. Silva
lembra-te do dia
em que as flores calaram as armas
e a gente veio à rua de mão dada
e um pássaro de cor indefinida
trouxe de novo
a luz da madrugada
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24 de abril de 2007
entre pétalas
nos lábios da rosa
o brilho do desejo
a inquietação da carne
a humidade do beijo
o brilho do desejo
a inquietação da carne
a humidade do beijo
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10 de abril de 2007
a linguagem secreta dos pássaros
anda, vem comigo
vamos aprender a linguagem
secreta dos pássaros
vamos trepar à árvore mais alta
e adivinhar o sabor do luar
vamos perscrutar a solidão da noite
em busca do sussurro das estrelas
vamos descobrir numa praia qualquer
o brilho acetinado da madrepérola
vamos resgatar a inocência
que a bigorna do tempo destroçou
e aceitaremos a chuva morna da Primavera
como uma dádiva perene
vamos aprender a linguagem
secreta dos pássaros
vamos trepar à árvore mais alta
e adivinhar o sabor do luar
vamos perscrutar a solidão da noite
em busca do sussurro das estrelas
vamos descobrir numa praia qualquer
o brilho acetinado da madrepérola
vamos resgatar a inocência
que a bigorna do tempo destroçou
e aceitaremos a chuva morna da Primavera
como uma dádiva perene
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8 de março de 2007
porque geme a brisa

porque geme a brisa
entre as ervas
lamentando a sua sina de mulher
se o sol enche a tarde de oiro
e até os braços fatigados
da velha macieira
continuam a celebrar a primavera…
entre as ervas
lamentando a sua sina de mulher
se o sol enche a tarde de oiro
e até os braços fatigados
da velha macieira
continuam a celebrar a primavera…
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19 de outubro de 2006
os lírios

silenciosos e flexíveis
agitam-nos por dentro
os lírios
que afluem do interior das sombras
à berma dos campos lavrados
a pétala perfeita e suave
reflectida no espelho inquieto das águas
e a folhagem breve
mais fugaz que um dia de sol
robustos lírios sensíveis ao improviso
aplacai a nossa ânsia profunda
dispensai à carne que se esvai
um pouco da vossa essência oblíqua e vegetal
armazenai no pecíolo sedento
palavras raras, essenciais
das que nem sempre trazem certezas,
mas sim aromas laterais
que de tal ânimo
nos refundem os sentidos
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18 de maio de 2006
giesta
o grilo já canta
à hora da sesta
louva o sol de Maio
que doura a giesta
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13 de março de 2006
esta manhã
esta manhã
uma árvore nasceu
com as raízes embutidas
no húmus do meu peito
o sol acordou no lenho
o anseio vertical da seiva
e a copa confundiu-se com
as fibras dos meus cabelos
eram muitos os pássaros
que habitavam a árvore do meu peito
exaltando-a em arrebatados gorjeios
esta manhã
era eu a árvore do meu peito
e eu também
os pássaros que a habitavam
esta manhã
acordou em mim a primavera
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18 de fevereiro de 2006
chuva
que importam as lágrimas
impacientes de Perséfone
a líquida melancolia
escorrendo na vidraça
se a macieira agradece
a mercê das águas
e engendra em segredo
os perfumes da Primavera
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13 de fevereiro de 2006
deixa mirar-te
deixa mirar-te em silêncio
enquanto aguardo
que o voo sincopado da carriça
traga um presságio
de primavera
e a ternura das tuas mãos
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11 de fevereiro de 2006
epitáfio
quando a ira primitiva
incendeia a turba
e a indignação se muda
em indignidade
com sangue se grafam
as laudas do credo
e agoniza na calçada
a pomba da Liberdade
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5 de dezembro de 2005
lamento atlante
como resistir ao apelo das ondas
se nos demandam
do mais profundo do ser
se em cada célula do corpo
inscreve a água
o seu testamento
se em cada recanto da alma
brada a voz
do nosso marítimo destino
se nos demandam
do mais profundo do ser
se em cada célula do corpo
inscreve a água
o seu testamento
se em cada recanto da alma
brada a voz
do nosso marítimo destino
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