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13 de setembro de 2023

Eu vi o futuro envelhecer


Eu vi o futuro envelhecer,
no espelho onde todos os dias me barbeio.
Um futuro que acordou, novinho em folha,
naquela manhã de abril gloriosa e limpa
cujos ecos ressoam ainda no éter da memória.
Era um jovem de 15 anos, tal como eu,
pleno de ideais adolescentes
de um mundo justo, de uma nova história.
E os olhos brilhavam-lhe com a certeza
de que a estrada à sua frente seria
um épico romance em que o amor tudo vencia.

E tudo haveria de valer a pena:
todas as canções, todas as flores,
todos os poemas titubeantes,
todas as alvoradas a anunciar o dia,
todas as lutas, todas as dores,
todos os beijos, todos os abraços,
todos os gritos de pura alegria,
todas as danças, todos os passos
marcados na poeira dos caminhos.

Mas, 50 anos depois, vejo que o futuro mentiu.
E nos seus avanços e recuos
ao longo da estrada que para trás ficou,
perjurou, falseou, traiu,
deixando apenas pela metade
as belas promessas que cantou.
Podeis argumentar que parte dessa tragédia
é culpa minha, culpa nossa,
porque não fiz, não fizemos, o suficiente,
na tecitura fluída do presente,
para que o futuro se mantivesse
moço e fresco como a utopia
com que fomos adoçando cada dia.

De que nos vale isso agora,
se nos soube a pouco a vida
e o futuro nos escapou por entre os dedos
e simplesmente envelheceu?

50 anos depois daquela manhã gloriosa e limpa,
do outro lado do espelho
onde todos os dias me barbeio,
há apenas um rosto vago, de olhar turvo,
à luz parda do sol de outono,
e o vai e vem da lâmina de barbear
num movimento errático e surdo,
fustigando a alma desiludida.

Carlos Alberto Silva
13/09/2023

16 de janeiro de 2022

Penteia-se a donzela


Penteia-se a donzela
Reclinada em verde manto.

Não é de oiro o pente
Ou de seda a camisa.

Mas nem por isso
é menos bela...

O seu cabelo de pétalas
Quem o penteia
É a brisa.

25 de abril de 2020

Liberdade

Ilustração de André Carrilho (DN)

A Liberdade
é como uma planta
frágil e bela
num campo aberto
ou num vaso à janela

Não basta a labuta
de lançar
a semente no chão

É preciso cuidar dela
ampará-la no calor da luta
e nutri-la com o ânimo
de uma canção.

25-04-2020

5 de janeiro de 2020

As nuvens não têm casa


As nuvens não têm casa
- a sua casa é o mundo.

Deixam-se ir nos braços do vento
de terra em terra
e de mar em mar
- vão de quarto em quarto, pela casa.

Por vezes, viajam depressa,
como se estivessem ansiosas
por aportar algures
- têm pressa de chegar a casa.

Outras vezes, vão muito devagar,
como que saboreando
todos os detalhes da paisagem
- querem conhecer todos os cantos à casa.

Carregam a esperança
de um vida renovada
nas gotas da chuva que aspergem
sobre as criaturas sedentas
- cuidam do mundo, cuidam da sua casa.

Assim fôssemos nós, como as nuvens
e o mundo fosse também para nós
a nossa casa.

19 de abril de 2019

Bola de sabão


À Élida, com amizade

Bola de sabão ao vento
Bailando ao sol da tarde
Num arco-íris de espuma.

Voa por um momento
Sobre a terra seca
E desfaz-se em coisa nenhuma.

Mas logo outra e outra
Se elevam no ar
E continuam a dança.

Relembrando aos incréus
Que a última coisa a finar
É a esperança.

Cidade da Praia

12 de fevereiro de 2019

Folha ou pássaro

Uma folha
ou um pássaro
adeja nos braços
irrequietos do vento

Um pássaro-folha
de asas nervosas
rabiscando a tela
do horizonte

Uma folha-pássaro
de bico ávido
sorvendo o azul
saboreando a luz

Se folha
se pássaro
tanto faz

O que importa
é a vertigem do voo
que me fascina
e seduz

11 de novembro de 2018

Um país



Um país nunca é apenas um país.
É muitos mais.
É o país dos ricos
E o país dos pobres.
É o país dos cultos
E o dos ignorantes.
É o país dos nativos
E o dos migrantes.
Dos que cá nasceram
Mas aqui não moram
E o dos que aqui moram
Mas não nasceram cá.
É o país dos citadinos
E o dos provincianos
(mesmo que os primeiros
vivam no campo
e os segundos na cidade).
É o país dos homens
E o país das mulheres
E o das crianças.
É o país dos adultos.
É o país dos adúlteros.
É país dos mansos
E o dos violentos.
O país dos crentes
O dos ateus
O dos agnósticos
E o dos assim assim.
É o país dos católicos
E o dos protestantes
E o dos muçulmanos
E o dos budistas
(mesmo que estes sejam
uma ínfima minoria).
É o país dos camponeses
E o dos operários
O país dos banqueiros
E o dos ladrões
(que os há em todas
as classes e profissões).
O país dos doutores
E dos engenheiros
E o dos almeidas
E dos coveiros.
O país dos heteros
E o dos homos
E o dos bis e o dos polis
E o dos assexuais.
É o país dos cromos
E o das vedetas.
O país da verdade
E o das grandes tretas.
O país onde se desfalece de fome
E se morre de obesidade.
O país dos que sofrem de solidão
E o dos que tentam espantar
Uma solidão maior
No meio da multidão.
O país dos sem abrigo
E o dos que passam ao largo
Em carros topo de gama
(mesmo que estes não tenham
mais nada a não ser dinheiro
e outras coisas que não digo).
...
Por isso, um país nunca é
Apenas um país.
Mas, só na amálgama
De todos estes outros países
E mais alguns de que não se fala aqui
Um país
Poderá ser verdadeiramente
Um país.

4 de dezembro de 2017

O sono de Ícaro


acordei com o odor
da tua ausência

coloquei as asas
e fui em busca de ti
pelos insondáveis
labirintos do mundo

resistindo
à vertigem do sol

17 de outubro de 2017

O vento arrasta a cinza


Em 2004, quando foi escrito, este poema tinha as palavras «o pólen» no lugar das palavras «a cinza». Fica a homenagem aos que combateram e sofreram com os incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017, em particular no Pinhal de Leiria.

Num ligeiro remoinho 
o vento arrasta a cinza 
das flores do verde pino. 

E traz consigo a memória 
do velho rei trovador: 
- Ai flores do verde pino. 

Quem suspira mansamente 
pelos pinhais do litoral? 
Será o vento ou o mar? 

Ou serão ainda os ecos 
duma cantiga de amigo? 
- Ai flores do verde pino. 

Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão 
soa a mágoa do poeta: 

- Ainda ouvis minha voz? 
Ainda vos lembrais de mim 
ó flores do verde pino? 

Mas só responde o murmúrio 
do vento que arrasta a cinza 
das flores do verde pino.

18 de maio de 2016

quando eu morrer não tragam flores



Foto de Carlos A. Silva


quando eu morrer
não tragam flores
que flor cortada
logo fenece
e morto por morto
basta no esquife
o cadáver que arrefece

não tragam sequer
lamento e pranto
que a morte
- porque certa -
não vale o espanto
nem a mágoa da perda
que o peito descerra

tragam histórias
e canções
e poemas vibrantes
com as memórias felizes
dos dias de antes
perenes como as flores
de pé na terra

25 de abril de 2014

havia naquela manhã de abril




[A Salgueiro Maia, nos 40 anos do 25 de Abril]

havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade

eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade

havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas

eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas

havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida

e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida

Carlos Alberto Silva
25-04-2014

30 de agosto de 2009

Pôr do sol


Uma ave errante chocou um ovo no horizonte
e o mar todo de luz se esbraseou.
O negrume da falésia traçou um mapa
de perfil incerto no céu vermelho.
Mas eis que a noite abriu caminho,
abraçou o areal e tudo sossegou.
Apenas o sussurro das ondas ali ficou.

19 de agosto de 2009

Não é preciso



Não é preciso a torrente
para explicar uma ponte,
basta um bago de suor
deslizando pela fronte.

Não é preciso o luzeiro
de uma estrela cadente,
basta apenas duas casas,
com as portas frente a frente.

Não é preciso um rugido
arrancado à multidão,
basta um fio de voz
entoando uma canção.

Não é preciso juncar
a rua toda de flores,
basta o vento que traz
o som cavo dos tambores.

Não é preciso correr mundo
à procura da verdade,
basta acalentar no peito
esse sonho sem idade.

Não é preciso bandeira,
nem emblema ou sinal,
bastam duas almas simples
irmanadas num ideal.

Não é preciso que o sol brilhe
para que o dia valha a pena,
basta abrir o coração
e colher uma açucena.

8 de março de 2008

Resistir

Quando o medo tolhe o canto nas gargantas
e à viva voz se sobrepõe a voz do dono
é preciso resistir

Quando a razão se verga ao jugo do mais forte
e a palavra desfalece na mordaça
é preciso resistir

Quando a semente da calúnia cai à terra
e o ar se enche com o rosnar do mostrengo
é preciso resistir

Quando a verdade se embaça sob os panos
e enverga a canga do discurso oficial
é preciso resistir

E quando sopra o vento gélido da cobiça
e o pudor se torna servo da abastança
é preciso resistir

E quando a mágoa for a moeda de troca
com que nos pagam o labor de uma vida
é preciso resistir

E se o silêncio for a arma que nos resta
e só a rua for bastante para gritar

aí estaremos
assim faremos

a resistir
a resistir

16 de novembro de 2007

a tarde definha


http://olhares.aeiou.pt/calbsilva

a tarde definha
à luz esmaecida do Outono

os imperativos da estação
continuam a desnudar a árvore

que folha a folha
se despede do sol enfraquecido
em amarelecida vénia

mas logo uma revoada de pardais
repovoa os ramos de asas
assombrando a praça num tumulto ruidoso

a chuva
que havia de acordar os íntimos odores da terra
é ainda uma promessa por cumprir

25 de abril de 2007

25 de Abril Sempre!


FOTO: Carlos A. Silva

lembra-te do dia
em que as flores calaram as armas
e a gente veio à rua de mão dada


e um pássaro de cor indefinida
trouxe de novo

a luz da madrugada

24 de abril de 2007

entre pétalas

nos lábios da rosa
o brilho do desejo
a inquietação da carne
a humidade do beijo

10 de abril de 2007

a linguagem secreta dos pássaros

anda, vem comigo

vamos aprender a linguagem
secreta dos pássaros

vamos trepar à árvore mais alta
e adivinhar o sabor do luar

vamos perscrutar a solidão da noite
em busca do sussurro das estrelas

vamos descobrir numa praia qualquer
o brilho acetinado da madrepérola

vamos resgatar a inocência
que a bigorna do tempo destroçou

e aceitaremos a chuva morna da Primavera
como uma dádiva perene

8 de março de 2007

porque geme a brisa



porque geme a brisa
entre as ervas
lamentando a sua sina de mulher

se o sol enche a tarde de oiro

e até os braços fatigados
da velha macieira
continuam a celebrar a primavera…

19 de outubro de 2006

os lírios



silenciosos e flexíveis
agitam-nos por dentro

os lírios

que afluem do interior das sombras
à berma dos campos lavrados

a pétala perfeita e suave
reflectida no espelho inquieto das águas

e a folhagem breve
mais fugaz que um dia de sol

robustos lírios sensíveis ao improviso
aplacai a nossa ânsia profunda

dispensai à carne que se esvai
um pouco da vossa essência oblíqua e vegetal

armazenai no pecíolo sedento
palavras raras, essenciais

das que nem sempre trazem certezas,
mas sim aromas laterais

que de tal ânimo
nos refundem os sentidos