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17 de fevereiro de 2006

ode amazónica

amazonia.jpg

descrentes do tropical dilúvio
os pássaros tornam autónomas as asas
manuseando um robusto utensílio
de funções circulares

intensas e verdes
as fêmeas auscultam a temperatura da seiva
nesse universo habitado
onde as árvores adormecem à chuva

habituadas à fina cútis das ostras
tomam nas presas
a dieta incalculável das areias
sob a planície transparente das águas

mas é da torrente ininterrupta
onde se misturam os sedimentos dos rios
e dos lagos
que os mais jovens se alimentam

partindo então rumo à savana branca
atraídos pela exuberante panorâmica
dos incêndios

15 de fevereiro de 2006

o lado cruel das palavras

seresopacos.jpg

a noite é dos seres opacos
que preferem o silêncio das trevas
à crueza da luz

eles sonham que lá no fundo
no reduto mais sombrio da alma
arqueja o lado cruel das palavras

como uma víbora mortífera
à espera do momento certo
para dar o bote

eis porque se ocultam
silenciosos e opacos
os seres da noite

quem sabe se em penitência

5 de fevereiro de 2006

jardinagem

jardinage.jpg

um espinho de roseira
rasga o dorso da tarde

solta-se a terra das botas
no canteiro das horas

e há uma semente perene
germinando entre os dedos

uma flor de névoa
amornando os lábios

um alfobre de ilusões
cantando aqui e agora

- é com as rugas da face
que se aduba a fantasia

12 de novembro de 2005

testamento onírico

eva.jpg

com os cabelos da musa
aconchego a almofada

dou asas à fantasia
sob um céu de marmelada

sinto um certo desconforto
na palavra voluntária

filo pois do azorrague
açoito a fama precária

lá fora o dito ladra
- de nada serve ter medo

que mesmo atrás da máscara
a vida não é segredo

22 de outubro de 2005

aberta a crisálida

caneta.jpg

aberta a crisálida
matinal
a palavra declina o voo

o corpo translúcido
firmado
na solidez da página

que do esforço das asas
sobeja tão só
o lampejo de um clarão

mas basta um sussurro e
[na combustão do poema]
inicia-se a metamorfose
da ave primordial

11 de outubro de 2005

é quando

musa.jpg

é quando os estames
assomam
por entre a turfa

e trazem à luz
o vigor da seiva

é quando a maresia
espreita
o declínio da tarde

e simula o voo
opalino das garças

é quando esse ser
antigo
esboça um rito mortal

e o nevoeiro se ensopa
de vozes férteis

é quando as palavras
(sempre as palavras)
se recusam

4 de outubro de 2005

ontem era assim

kandinsky_c4.jpg
[Wassily Kandinsky - Composition 4]


ontem era assim

a lavra das ondas
ao redor da ilha

o incerto abismo
que não sabe o nome

pecíolos suspensos
na muralha impura

gestos e palavras
protelados

hoje ainda