18 de maio de 2016

quando eu morrer não tragam flores



Foto de Carlos A. Silva


quando eu morrer
não tragais flores
que flor cortada
logo fenece
e morto por morto
basta no esquife
o cadáver que arrefece

não tragais sequer
lamento e pranto
que a morte
- porque certa -
não vale o espanto
nem a mágoa da perda
que o peito descerra

trazei histórias
e canções
e poemas vibrantes
com as memórias felizes
dos dias de antes
perenes como as flores
de pé na terra

24 de outubro de 2014

Cavalos no prado


Cavalos no prado –
um bailado ruminante 
na tarde de Outono.

25 de abril de 2014

havia naquela manhã de abril




[A Salgueiro Maia, nos 40 anos do 25 de Abril]

havia naquela manhã de abril
um odor a cravos
perfumando a cidade

eram brancos, vermelhos, matizados
da cor dos sonhos oprimidos
sem idade

havia no ar primaveril
um som de vozes
bailando à toa no eco das ruas

eram risos, cantos, brados festivos
arrojados do mais fundo
das almas nuas

havia no radioso céu de anil
uma alegria pura
sem conta nem medida

e uma maré de gente laboriosa
tomava por fim nas mãos
o rumo da sua própria vida

Carlos Alberto Silva
25-04-2014

5 de fevereiro de 2014

Ácidas sinetas





Ácidas sinetas -
Um tilintar amarelo
Ao sabor da brisa.

Lampejos de primavera
Salpicando os verdes prados.

*

1 de fevereiro de 2014

Uma espada chamada Maria



FOTO: Carlos Fernandes
Desafiando o poente, o vulto de um herói de outras eras. A sua espada - à qual este deu o nome de Maria - aponta o céu. «Forte Nuno» lhe chamou Camões, declarando «ditosa» a Pátria «que tal filho teve». Mas tudo nos diz que, na defesa da lusa independência, ao lado dos guerreiros, também o povo simples deu o sangue e a vida.
Cai a noite. Um vento de temporal reproduz os ecos de Aljubarrota. Ao longe, entre o tilintar das armas, uma voz entoa:
- Às armas! Às armas! Pelo povo de Portugal. Contra os Andeiros, marchar, marchar.

Ecoam no vento
O estrépito das armas
E gritos remotos

- É a bravura dos avós
Nos campos de Aljubarrota.

2 de janeiro de 2014

O deus dos ladrões


FOTO: Carlos Fernandes
Os gregos chamavam-lhe Hermes, os romanos, Mercúrio. Mensageiro dos deuses, tinha nos pés umas pequenas asas, que lhe permitiam descolar-se à velocidade da luz. Atribuíram-lhe mais funções que a qualquer outra divindade da mitologia, mas é conhecido sobretudo como o deus da eloquência, dos comerciantes e dos ladrões. Três atributos muito em voga nos tempos que correm, a lembrar certas personalidades que decidiram não deixar pedra sobre pedra, neste recanto de gente pacífica. Embora de moral duvidosa, Hermes conseguiu sempre o apoio dos Poderosos. E os que por cá lhe seguem o exemplo, parece que também.

É o deus dos ladrões -
Traz na mão o caduceu
E um chapéu alado.

Voa, sem sair do sítio,
Sob o pó acumulado.

1 de dezembro de 2013

O futuro ausente

FOTO: Carlos Fernandes
Bates à porta. Pegas no batente e desferes três sonoras pancadas, que ressoam no sossego da casa. Ficas à espera e nada. Voltas a bater, desta vez com mais força. Logo que o eco das pancadas se esbate, lá dentro nada bule. Esperas um pouco mais. Não está ninguém, concluis. Preparas-te para virar costas, mas um som vago chama-te a atenção. Afinal, está alguém, pensas tu. Voltas a bater, agora gentilmente, não vá esse alguém assustar-se. Silêncio. Desistes e vais embora.
Bateste à porta do futuro. Não sabes que, neste país adiado, o futuro está ausente.

Ao bater da aldraba
Só o silêncio responde.

No velho solar
Nem o vento se demora.

Porque ali já ninguém mora.

3 de novembro de 2013

Um país de marinheiros

FOTO: Carlos Fernandes
Diz a tradição que somos um país de marinheiros; que os nossos antepassados derrotaram o terrível Adamastor e deram novos mundos ao mundo. Um poeta maior cantou tais feitos, em oitavas decassilábicas, e fez dessa epopeia o poema matricial da nação. No entanto, denuncia também os que, em solo pátrio, se deixam tomar pela cobiça e o afundam «na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza». Pelo que (vi)vemos hoje, é urgente reler Camões. E acordar para o mar…

Tal como as gaivotas -
Quando perdem terra à vista
Voltam a aportar

Somos um povo marinheiro
Que virou costas ao mar

31 de agosto de 2013

No rasto do pincel


FOTO: Carlos Fernandes

No rasto do pincel, tomam forma ruas serpenteantes, casas alinhadas, planícies verdejantes, prados floridos, montes nevados, falésias abruptas, ondas encrespadas e outros fragmentos pictóricos da realidade. Ora mais figurativos, ora mais abstractos, filtrados pela emoção do pintor, são os breves registos de um tempo que se não repete.
Rebrilhando ao sol da tarde, ficam então expostos ao olhar dos passantes, tentando despertar o interesse de um eventual comprador. E a troco de algumas notas, mais do que o seu labor, o artista cede um pouco das suas próprias memórias.

Manchas coloridas
Sob a poeira do tempo
- Memórias felizes.

Resplandece a luz do sol
Na tela do pensamento.

1 de agosto de 2013

Fábula




FOTO: Carlos Fernandes
Por detrás do enorme portão gradeado de uma casa senhorial, um feroz cãozarrão tomava-se de razões perante um minúsculo ratinho:
- Mas quem és tu, insignificante criatura, para te atreveres a pisar a minha sombra? Saberás, por acaso, com quem estás a lidar? Olha para o meu porte, para a imponência dos meus músculos, para os meus possantes colmilhos, sinais inequívocos da minha força, da minha bravura e da minha nobreza. Fica sabendo que sou macho premiado nos mais concorridos certames caninos, desejado e farejado por tudo quanto é cadela de raça…
Sem perder a compostura, embora sentindo o coraçãozito agitado como folha em dia de vendaval, o ratinho ia recuando disfarçadamente em direcção ao portão. Vendo que o atroz canídeo cerrava os olhos, embriagado pelos arroubos do auto-elogio, logo se escapuliu por entre o gradeamento. E, já do outro lado, fez ouvir a sua vozinha:
- De que te servem agora a tua nobreza, a tua bravura e a tua força, prisioneiro que és dessas grades, ó cão? Posso ser pequeno e insignificante, indigno até de pisar a tua sombra, mas ao menos sou livre! Poderás tu dizer o mesmo?
O cãozarrão baixou as orelhas e meteu o rabo entre as pernas. O ratinho lá foi à sua vida.

30 de junho de 2013

A lenta erosão do tempo

FOTO: Carlos Fernandes
Ferro e pedra, arrancados ao seio da terra, são os materiais preferidos dos construtores de cidades. Moldados pelo fogo, com eles se armam as silhuetas das vertiginosas estruturas que recortam o horizonte. Robustos e poderosos, são imunes aos ímpetos do vento e da chuva em dia de temporal e resistem firmes aos próprios abalos telúricos. Na soberba dos homens, são presumidamente eternos. Mas o tempo é um bicho paciente que tudo devora. Ferro e pedra, como a efémera carne de servos e reis, tudo tornará um dia à poeira primordial.

Irmãos da ferrugem
Que rói o duro metal
- os fungos na pedra.

Agentes e testemunhas
Da lenta erosão do tempo.

2 de junho de 2013

Num feixe



FOTO: Carlos Fernandes

Secam as canas ao sol. Atadas em feixes, parecem ganhar uma robustez e uma resistência que individualmente nunca tiveram. Serão talvez reutilizadas como suporte dos vegetais da horta, para uma cerca temporária ou para cobrir um alpendre. Sendo-o ou não, se verá que essas qualidades são apenas ilusórias. Acabada a sua vulgar conveniência, irão arder num lume breve, no final da estação.
Assim parece quererem fazer à humilde gente alguns mal disfarçados admiradores do pérfido «fascio», que tão grande tragédia trouxe à Humanidade.

Soluça o regato –
O verde canavial
Foi cortado cerce.

Já não baila a fresca brisa
De braço dado com as canas.

28 de abril de 2013

Ao tacho!



FOTO: Carlos Fernandes

Sobre a parede em ruínas, um velho tacho, a lembrar os tempos que correm. Entre o significado algo acintoso de «emprego ou ocupação que dá regalias e bom salário» e a sua acepção mais comum de «utensílio para cozinhar ao lume», o tacho estará sempre ligado ao acesso aos recursos indispensáveis à sobrevivência humana. Sabendo nós que esses recursos são limitados, nunca esta imagem foi tão pertinente como em momentos de crise - que alguns chamam «de oportunidade». É que, para que uma minoria continue a acumular escandalosamente, a maioria acabará por ficar com quase nada. E haverá muitos que terão cada vez menos para pôr no tacho para que uns poucos tenham o tacho cada vez mais cheio.

Velho tacho roto -
Brilhando ao sol matinal,
Na casa em ruínas.

Refulge por entre as ervas
A memória de uma vida.

31 de março de 2013

Vai formosa e não segura


FOTO: Carlos Fernandes

Continua enlameada a vereda por onde se passeia a Primavera, vestida simplesmente com a grinalda das primeiras flores. Ainda com demasiada frequência, as nuvens entornam uma chuva espessa e gélida, fora de tempo. E o vento, esse demente, ajuda à folia, despedaçando com fúria os tenros rebentos.
Vai formosa e não segura - como diria Luís Vaz -, face à toleima de um Inverno caprichoso, mas como não é de brigas, a donzela aguardará apenas que lhe passe o mau humor.

Tarda a Primavera –
A chuva que alaga a terra
Corre sem parar.

Traindo o Equinócio,
O Inverno teima em ficar.

3 de março de 2013

A Primavera da liberdade

FOTO: Carlos Fernandes

O Inverno vem e vai, umas vezes mais ameno, outras vezes inclemente. As árvores fazem o que podem para resistir aos seus humores. Suspendem o ciclo vegetativo e despojam-se das folhas que as vestem. Açoitadas pelo vento, não têm outro remédio se não vergar-se. E por vezes quebram…
Assim o povo, perante um governo despótico. Durante um tempo, também ele se despoja, também ele se verga, também ele quebra. Mas tal como as árvores, também ele sonha com a Primavera. E há um dia em que, de flores em punho (ou bordões, ou espingardas…), faz com que a liberdade aconteça.

2 de Março de 2013
(O dia em que o povo, mais uma vez, saiu à rua)

3 de fevereiro de 2013

Morrer de pé


FOTO: Carlos Fernandes

Embora submetido ao peso dos símbolos; embora flagelado pela agrura das intempéries; embora sujeito à deriva do tempo; embora curvado e seco; embora esquecido e só… só o golpe final lhe roubará a verticalidade das suas origens, quando era verde entre o verde, árvore entre as árvores.

Sonha com a brisa
Acariciando o bosque
- Cantando baixinho.

Foi árvore, agora é mastro.
Como elas, morre de pé.

30 de dezembro de 2012

A aranha e a sua teia

FOTO: Carlos Fernandes
A aranha aplica na construção da sua teia um maravilhoso plano de engenharia, que se encontra inscrito no próprio código genético. E este é resultado do exercício que, durante milhões de anos, fizeram todas as aranhas antes dela. Podemos deixar-nos fascinar pela perfeição de uma teia de aranha, admirar a sua regularidade, enaltecer a sua exactidão matemática. No entanto, cumprida a sua função, logo a aranha se lança na tecedura de uma nova. Porque o fito dela é apanhar a mosca e não a teia em si. E isso não a impede, naquilo que faz, de fazer o melhor que sabe.

Perlada de orvalho -
Brilha ao sol da manhã
A teia de aranha.

Breve sinal de uma luta
Que na morte se faz vida.

2 de dezembro de 2012

Dezembro

FOTO: Carlos Fernandes

Dezembro chega e com ele a certeza de um Inverno duro. Não o desmentem os fiapos das nuvens nem o sol baixo que se acoita atrás das casas. Para além do frio e da crueza dos dias curtos, a vida não será fácil para quem tem de fincar os dedos na terra por arar. Nunca o foi, mas agora sê-lo-á menos que nunca, face aos desmandos dos senhores de mãos macias e discurso fácil. Por isso, a urgência de manter viva a teimosa luz da esperança.

Altivas e ledas -
Passam ligeiras as nuvens
Namorando o vento.

Por detrás do casario
Vai minguando a luz do sol.

2 de novembro de 2012

O brilho da lua

FOTO: Carlos Fernandes
Hierática e bela, revela-se inteira apenas de mês a mês, atenuando a treva com a sua luz fantasmática - por vezes, nem isso, que as nuvens gostam de jogar com ela o jogo das escondidas. No rosto redondo, sempre a mesma expressão serena, o mesmo sorriso enigmático. Que mistérios guardará na sua face oculta? Que segredos? Que sortilégios usará para enfeitiçar os apaixonados, os ébrios, os gatos e os poetas? Só ela o saberá, a lua.

Noite de luar -
Uma poalha de luz
Quebra a escuridão.

Um casal de namorados
Arrulha, a mão na mão.

30 de setembro de 2012

A José Régio

FOTO: Carlos Fernandes

Quantas vezes o trilho dito certo, palmilhado anos e anos como tal, conduz a um beco, a um deserto, a uma charneca em noite de vendaval?
Quantas vezes o horizonte rasgado, miragem de um futuro por cumprir, se torna num estreito acanhado? Que pode o caminhante decidir?
Audaz como no cântico de Régio, mesmo sem saber por nem para onde, rasgar novo caminho entre as giestas, até ouvir que o eco lhe responde.

Ignorantes e nus -
Chegamos a este mundo
Sem mapa nem guia.

São os nossos próprios pés
Que vão traçando o caminho.

25 de agosto de 2012

Prece

FOTO: Carlos Fernandes

Que se franqueiem todas as portas, para que por elas passe a doce brisa da liberdade. Que se desimpeçam todas as escadas, para que possamos emergir das trevas de nós próprios. Que se abram bem os olhos, os ouvidos e as narinas, para que nos deleitemos com a verde e sussurrante fragrância da Primavera. Que se descerre, enfim, o coração, para que saibamos usufruir plenamente do privilégio de estar vivos.

Dá-me a tua mão –
Iremos a par e passo
Pela vida, sem pressas.

Para iluminar o caminho,
Basta apenas um sorriso.

29 de julho de 2012

Pouca terra!

FOTO: Carlos Fernandes

Pouca terra, pouca terra, pouca terra… ecoa ao longe o monótono lamento do comboio. Lá vai ele, gemebundo, subindo e descendo montes, atravessando planícies, cruzando pontes sobre rios e ribeiras. O seu labor torna permanente na paisagem um duplo rasto, que ele percorre em contínuo vai e vem, ora para lá, ora para cá.
Leva no ventre gente de todas as condições à procura de novos destinos. Uns para perto, outros para longe. Uns voltarão, outros talvez não.

Lá vai o comboio -
Traço negro na paisagem
Ofegante e lesto

Como um cavalo de ferro
Em constante movimento

7 de julho de 2012

Novo blogue «Ficções Breves»


Os textos em 77 palavras que redigi em resposta aos desafios do blogue do mesmo nome, da escritora Margarida Fonseca Santos, migraram para o meu novo blogue, denominado «Ficções Breves».
É também lá que passarei a publicar os micro-contos realizados no âmbito da página do Facebook «Escritas de Microficção».
Espero a vossa visita.
Para aceder, bastar ir a ficcoesbreves.blogspot.pt

30 de junho de 2012

A geometria das casas

FOTO: Carlos Fernandes
Sonhadas a régua e esquadro, subjugadas ao rigor do fio-de-prumo, erguem-se as casas, verticais e geométricas, amuralhando as ruas da cidade. Imóveis e hirtas, nem dão pelo passar do tempo que lhes corrói a caliça. Mas é dentro delas que o fogo amorna as noites de inverno. É dentro delas que a sombra melhor refresca os dias de estio. É dentro delas que as paixões se temperam e os corpos se afeiçoam. É dentro delas que a vida se renova.

Ergue-se a cidade
na geometria das casas –
sonho de arquitecto.

Espreitando pela janela,
uma avó embala o neto.

27 de maio de 2012

A canção do rio

FOTO: Carlos Fernandes

Os longos pilares de cimento e aço atravessam o vale, aprumados como as colunas de uma catedral. São quase belos, não fora o facto de sustentarem as vigas de um progresso questionável. Símbolos da arrogância humana, fazem tábua rasa da geologia, alinhando o que é naturalmente desalinhado. Mas é falsa a sua imagem de solidez eterna: em menos de um século, irão ceder e desmoronar-se. E o que é um século para o paciente rio que canta lá em baixo? Foi ele quem cavou o vale…

Rumoreja o rio
ao ritmo das estações
- com a voz das águas.

Vai abraçar-se com o mar,
lavando penas e mágoas.

28 de abril de 2012

Lua cheia

FOTO: Carlos Fernandes

Poder-se-á aprisionar a lua cheia? Haverá grades tamanhas ou muralhas tão poderosas que a possam reter? Que impeçam o seu terno sorriso de desamortalhar os campos da nocturna capa de breu?
Não! Toda a gente sabe que a lua é livre. Toda a gente sabe que o luar não tem dono. Tal como os gatos vadios, que por isso a reverenciam e louvam sobre os telhados.
Descomprometida, na sua inquietude, toda a noite jornadeia entre o horizonte e o zénite. Até que a treva se rasgue e renasça a alvorada.

Longos cabelos de prata
Sobre o colo de alabastro -
Sorridente e nua.

Quem rasga o manto da noite?
- Não vês que é a lua?

2 de abril de 2012

As tábuas do cais

FOTO: Carlos Fernandes

Poderiam ser as tábuas de um cais, ligando as margens de um rio sereno ou acolhendo viajantes de diferentes continentes. Poderiam ser as tábuas do varandim do palácio onde as mãos da filha do comandante da Nau Catrineta tecem reinos imaginários no bastidor de linho. Poderiam ser até as tábuas da própria Nau Catrineta, animadas pela promessa do retorno a casa, da qual só resta a vaga memória de um odor a pão acabado de cozer…

A brisa da manhã
Desvenda o horizonte
Para lá da espuma.

É um navio que chega
Ou uma ilusão da bruma?

25 de fevereiro de 2012

À luz do poente


FOTO: Carlos Fernandes
 
Tudo se altera, nessa hora mágica. Não apenas a luz, mas a mais íntima substância das coisas. Esbate-se o mundo no alastrar das sombras. Dissipa-se o contorno físico das partes, enquanto o todo ganha, por breves instantes, um recorte inusitado. É a hora em que a matéria enjeita a sua própria identidade. A hora em que o morcego abandona o covil e arroja o seu estridente aviso: Resguardai-vos! Já o dia se esgueira pelo negro portal da noite.

Feneceu o dia -
A rua ficou deserta,
À luz do poente.

Resguardou-se a alegria
No aconchego da gente.

29 de janeiro de 2012

Haiku


Haiku from Jurriën Boogert on Vimeo.

Uma flor cadente
Vi voltar para o seu ramo
- Oh, uma borboleta.

Arakida Moritake (1473 / 1549)
[tradução de Carlos A. Silva]

27 de janeiro de 2012

Sem abrigo

 FOTO: Carlos Fernandes

Se às pessoas sem casa se chama «sem-abrigo», o que chamaremos às casas sem pessoas? Certo é que o abandono as corrói e arruína, tal como a fome, o frio e a doença fazem aos desabrigados. E como destroços se esboroam umas e outros pelas ruas da cidade velha, à míngua de calor, à míngua de amor…

mantêm-se as pedras
na teimosia da casa
- ainda paredes

mas o tempo e o desamparo
acabarão por vencê-las