Quinta-feira, Julho 3

a curva da estrada

(em homenagem a Fernando Pessoa)

FOTO: Carlos Fernandes

Diz o poeta dos heterónimos que «a morte é a curva da estrada», assinando por baixo com o nome de todos os dias. Se morrer é apenas «não ser visto» e viver é escutar a passada de quem se foi, a memória é o repositório vivo daqueles que amamos, estejam ou não presentes. Neste percurso com termo certo que nos foi dado realizar, avancemos sem receio, que aqueles a quem damos a mão continuarão a acenar-nos para lá da bruma.

como uma toada
corre a voz no teu poema

deixo-te um abraço

e além da curva da estrada
oiço o eco do teu passo

Quinta-feira, Junho 12

hora da sesta


FOTO: Carlos A. Silva

ébrio de pólen -
entre as pétalas da flor
dorme o escaravelho

Domingo, Junho 1

o portal das estações


FOTO: Carlos Fernandes

Há um portal aberto nas estações, abraçado pela vegetação, envolto por ora na carícia dos perfumes, sob a terna moldura das nuvens. Para lá da ombreira, verdejam as fímbrias do carreiro ainda não sujeito à inclemência do asfalto. A água das chuvas mistura-se com a terra, nesse amplexo fértil que é a origem de todas as coisas - vicissitude serôdia de uma primavera húmida e instável. Mas ele aí está, trazendo o ímpeto cálido do suão. Ele aí está, à espera para entrar, com o firme propósito de amadurecer aquilo que a Primavera gerou. Ele aí está, não tarda nada, o Verão.

por este portal
vai sair a Primavera
e entrar o Verão

avermelhando a fruta
amadurando o pão

Quarta-feira, Abril 16

a flor do tojo


FOTO: Carlos Fernandes

Quantas vezes o caminho se torna difícil e agreste e nos parece impossível de trilhar... Quantas vezes a brenha nos fustiga as pernas e a escória nos fere os pés. Quantas vezes se magoam corpo e alma nas atribulações da jornada. No entanto, há que inspirar fundo, saborear o amarelo dourado das flores do tojo brilhando entre os espinhos e seguir em frente.

brilha a flor do tojo
entre o gume dos espinhos
ao sol da manhã

e o trilo agudo dos grilos
acalenta o viajante

Sábado, Março 29

Mensageiros do sol


FOTO: Carlos Fernandes

No final de Março, um grito de cor dilacera as obscuras entranhas da invernia, irradiando por prados e taludes, à poalha dourada da manhã. Nem grades nem muralhas embargam a emergência destes mensageiros do sol, numa renovada promessa de luz. Acorda a natureza da sua longa apatia, na vitalidade da seiva, e o ar reveste-se de novos e delicados odores. É Primavera!

Vicejam os prados -
O sol já mandou recado
pelas flores silvestres:

A Primavera chegou.
É hora de acordar!

Segunda-feira, Março 24

A distorção do tempo


FOTO: Carlos A. Silva

O que resta
de uma vida inteira
nas linhas distorcidas
da pauta do tempo?

Apenas um sussurro,
um eco perdido,
uma melodia vaga...

Quinta-feira, Março 20

Azul


FOTO: Carlos A. Silva

Quando o azul desabrocha entre as ervas, é sinal que a Primavera não tarda.

Domingo, Março 16

Rendilhados de luz e sombra


FOTO: Carlos A. Silva

É por vezes no recorte das sombras que a luz mais se afirma, revelando a secreta intimidade das coisas.

Sábado, Março 8

Resistir

Quando o medo tolhe o canto nas gargantas
e à viva voz se sobrepõe a voz do dono
é preciso resistir

Quando a razão se verga ao jugo do mais forte
e a palavra desfalece na mordaça
é preciso resistir

Quando a semente da calúnia cai à terra
e o ar se enche com o rosnar do mostrengo
é preciso resistir

Quando a verdade se embaça sob os panos
e enverga a canga do discurso oficial
é preciso resistir

E quando sopra o vento gélido da cobiça
e o pudor se torna servo da abastança
é preciso resistir

E quando a mágoa for a moeda de troca
com que nos pagam o labor de uma vida
é preciso resistir

E se o silêncio for a arma que nos resta
e só a rua for bastante para gritar

aí estaremos
assim faremos

a resistir
a resistir

Domingo, Março 2

a persistência da raiz


FOTO: Carlos Fernandes

Mesmo quando amputada da árvore, a raiz continua tenazmente agarrada ao chão, até que nada mais reste senão pó e cinza, devolvendo à terra o influxo que a susteve.
Mas quantas vezes aquela não emerge de novo, na perseverança da seiva, voltando a encher o ar de vegetais perfumes.


o cheiro a resina
flúi do corpo decepado
apenas raiz

e perfuma a colina
como um verso que se diz

Domingo, Fevereiro 10

Testamento


FOTO: Carlos A. Silva

(a Miguel Torga)

entre o primeiro vagido
e o último grito
o tempo é uma janela
rasgada na tela
opaca do infinito

aquém do nascimento
e além da morte
talvez a eternidade
talvez o nada

ou qualquer outra coisa
sem ponto de partida
ou de chegada

por isso
enquanto o tempo acontece
abri bem a gelosia
deixai entrar a luz do sol
que amadurece
deixai fluir a voz da poesia

Terça-feira, Fevereiro 5

No estendal


Foto: Carlos Fernandes

Aqui estamos de novo, suspensos, à cata de um pouco de calor. Se é a água que nos asseia, é o sol que nos dá de novo luz e cor. Aqui estamos, embalados pela brisa, numa dança lenta, como se nada de melhor houvesse que estar preguiçosamente a ouvir o silêncio da tarde. Como os velhos, lá em baixo, no banco coçado da praça, a emprenhar o futuro com as memórias do passado.

roupa a secar -
passa a brisa no varal
e fá-la dançar

e o sol vem bailar também
enchendo a rua de cor

Quarta-feira, Janeiro 23

Pérolas de luz


FOTO: Carlos A. Silva

Agarrados à ilusão do «deve e haver», passamos ao lado da verdadeira essência da vida, alheios à beleza efémera de uma gota de orvalho numa teia de aranha.

Sábado, Janeiro 5

A teia da amizade


FOTO: Carlos Fernandes

Dia a dia se engendra a teia: fio após fio, nó após nó, emenda após emenda - a teia que nos liga aos outros e nos mantém comunicantes e solidários. Cada fio é uma presença, um abraço, um sorriso, um gesto de amizade; ou até um sobressalto, um arrufo, uma desilusão. Porque até na recusa se cumpre a espiral da vida e a teia se enlaça e desenlaça.

dá-me a tua mão -
ajuda-me a entretecer
um cantar de amigo

porque a voz soa mais forte
quando há outras no caminho

Segunda-feira, Dezembro 3

degrau a degrau


FOTO: Carlos Fernandes

Umas vezes alegres e confiantes, cheios de vigor e convicção, outras resignados sob o peso das mágoas. Assim vamos nós trepando a escada, quase sempre sem saber onde nos levam os degraus. Há até quem tropece, esteja prestes a cair, para logo recuperar o equilíbrio e retomar a marcha… ora mais ligeira, ora mais serena. O jugo do tempo vai vergar-nos o corpo, queiramos ou não. Mas só de nós depende a intensidade do fogo cá dentro, até que a chama se apague e a escada se acabe.

degrau a degrau
se faz a espiral da vida
- ignorando o rumo

bebendo a seiva do sonho
ardendo num fogo sem fumo