Negra sementeira -
Alinhavam-se as palavras
Na página branca.
Entre os dedos frenéticos,
A pena esvai-se em poema.
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
30 de novembro de 2003
27 de novembro de 2003
26 de novembro de 2003
25 de novembro de 2003
24 de novembro de 2003
22 de novembro de 2003
21 de novembro de 2003
20 de novembro de 2003
18 de novembro de 2003
17 de novembro de 2003
16 de novembro de 2003
15 de novembro de 2003
13 de novembro de 2003
12 de novembro de 2003
Fim de dia: a luz sumida do crepúsculo. A brisa mal se faz notar, é quase um suspiro. O nevoeiro estende-se lentamente, como um véu gigantesco que tudo abafa. O seu abraço húmido e pardo confere um tom irreal à paisagem. Na berma da estrada, as árvores imóveis são vultos fantasmagóricos de braços estendidos. Vigiam a chegada da noite.
Espectros calados -
As oliveiras antigas
Na névoa de Outono.
Espectros calados -
As oliveiras antigas
Na névoa de Outono.
11 de novembro de 2003
Canto ao vinho novo
Canto o vinho novo
Gorgolejando das pipas
Ofegante na trasfega
Canto o suor da labuta
Misturado na dorna
Ao sangue das uvas tintas
Canto o odor da adega
Plena de ventres bojudos
De venerável madeira
Canto a memória dos cestos
Encostados à parede
Fantasiando a vindima
Canto o travo da terra
E o brilho vermelho do sol
Nos jarros de barro liso
Canto a dança dos copos
Tinindo saudações
Aos frutos da novel colheita
Canto e bebo um trago
Olhando a nudez da vinha
Aspirando o ar da tarde
Gorgolejando das pipas
Ofegante na trasfega
Canto o suor da labuta
Misturado na dorna
Ao sangue das uvas tintas
Canto o odor da adega
Plena de ventres bojudos
De venerável madeira
Canto a memória dos cestos
Encostados à parede
Fantasiando a vindima
Canto o travo da terra
E o brilho vermelho do sol
Nos jarros de barro liso
Canto a dança dos copos
Tinindo saudações
Aos frutos da novel colheita
Canto e bebo um trago
Olhando a nudez da vinha
Aspirando o ar da tarde
9 de novembro de 2003
8 de novembro de 2003
Tanka – Ursinho verde
Sentinela atenta
Da infância longínqua:
O ursinho verde.
Na mesa-de-cabeceira,
Uma migalha do tempo.
Da infância longínqua:
O ursinho verde.
Na mesa-de-cabeceira,
Uma migalha do tempo.
6 de novembro de 2003
Sob a acção do vento, o salgueiro que cresce encostado à ponte afaga a cabeça dos peões apressados que atravessam o rio, com os seus longos, finos e verdes ramos.
Verde agitação -
Os cabelos do salgueiro
Debruçado no rio.
Passeia o vento
Nos ramos em desalinho -
Amante inquieto.
Carícias maternas -
Na cabeça dos passantes
O afago da árvore.
Verde agitação -
Os cabelos do salgueiro
Debruçado no rio.
Passeia o vento
Nos ramos em desalinho -
Amante inquieto.
Carícias maternas -
Na cabeça dos passantes
O afago da árvore.
5 de novembro de 2003
3 de novembro de 2003
Chuva
Seio transparente
Deslizando na vidraça -
A gota de chuva.
Lágrima de amor?
Gota de água sensual
Na janela fechada.
Deslizando na vidraça -
A gota de chuva.
Lágrima de amor?
Gota de água sensual
Na janela fechada.
2 de novembro de 2003
Tanka
As musas do Lis*
Morreram assassinadas
Às portas da urbe.
Jazem no fundo do rio
Submersas pelos detritos.
*Líseas era o nome dado às ninfas inspiradoras do Lis, o rio que nasce (e morre) próximo de Leiria, transformado num esgoto imundo.
Morreram assassinadas
Às portas da urbe.
Jazem no fundo do rio
Submersas pelos detritos.
*Líseas era o nome dado às ninfas inspiradoras do Lis, o rio que nasce (e morre) próximo de Leiria, transformado num esgoto imundo.
Enxurrada
Do ventre da terra
Brotam as águas do rio -
Tímido regato.
O impulso da chuva
Açoita as águas do rio -
Cresce a enxurrada.
O bramir do vento
Excita as águas do rio -
Bicho acossado.
A curva da várzea
Acanha as águas do rio -
Irrompe das margens.
O beijo da terra
Tempera as águas do rio -
Fecunda a planície.
Um desejo ardente
Fustiga as águas do rio -
O abraço do mar.
Brotam as águas do rio -
Tímido regato.
O impulso da chuva
Açoita as águas do rio -
Cresce a enxurrada.
O bramir do vento
Excita as águas do rio -
Bicho acossado.
A curva da várzea
Acanha as águas do rio -
Irrompe das margens.
O beijo da terra
Tempera as águas do rio -
Fecunda a planície.
Um desejo ardente
Fustiga as águas do rio -
O abraço do mar.
1 de novembro de 2003
Depois do fogo

(Em memória do incêndio que devastou a Senhora do Monte, Cortes - Leiria, no final do Verão de 2003)
A chuva corrói
As chagas negras do fogo
Na encosta do monte.
Sob o aguaceiro,
Um longo traço a negro
Varre o horizonte.
Há cinza no chão,
Cinza no céu carregado,
Na água que corre…
No pranto da chuva,
A morte cruel das árvores.
Não mais vão florir.
Perdido no fumo,
O voo gracioso das aves.
Não mais vão cantar.
Fantasmas sem voz.
Os esqueletos calcinados
Da vegetação.
Sementeira de pedras.
Arrebatada na torrente,
A alma da terra.
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