chegam de madrugada
com suas vestes pálidas
desfraldadas ao sabor da brisa
cavalgando
o corpo sinuoso das ondas
como potros fumegantes
recolhem as asas
abertas
no limiar das águas
e adormecem extenuados
sobre as areias
os braços erguidos para o alto
Da tradição poética oriental recolhi as influências, necessariamente contaminadas pelo contexto cultural que me rodeia. E assim se desfia este «diário poético», feito com as miudezas do dia a dia. [Esta página é redigida em total desprezo pelo actual (des)acordo ortográfico]
28 de dezembro de 2004
25 de dezembro de 2004
à Alix de Carvalho
trajando o vestido azul e roxo
do crepúsculo
a lua sorridente
veio dar um beijo furtivo
ao sol poente
morta de ciúme
pelo que acabara de ver
a chuva cerrou o dossel das nuvens
e chorou até adormecer
devagarinho
a lua entreabriu a portada
e derramou os seus pálidos cabelos
sobre a campina prateada
trajando o vestido azul e roxo
do crepúsculo
a lua sorridente
veio dar um beijo furtivo
ao sol poente
morta de ciúme
pelo que acabara de ver
a chuva cerrou o dossel das nuvens
e chorou até adormecer
devagarinho
a lua entreabriu a portada
e derramou os seus pálidos cabelos
sobre a campina prateada
24 de dezembro de 2004
Natal
Os primeiros a chegar foram os pastores, acompanhados do balido dos rebanhos, guiados pelo brilho das estrelas. A eles se seguiram outras gentes de porte humilde, a pele tisnada pelo sol e pelo calor da forja, as mãos calejadas pelas ferramentas rudes. Só depois vieram os sábios com as suas vestes solenes e as suas ofertas preciosas. Mas a todos se amaciou o coração ao ver o sorriso precoce daquele menino iluminando a noite fria. E foi Natal.
É noite do galo -
no presépio da aldeia
sorri um menino
evocando o milagre
da vida que se renova
É noite do galo -
no presépio da aldeia
sorri um menino
evocando o milagre
da vida que se renova
20 de dezembro de 2004
19 de dezembro de 2004
a nostalgia dos poetas
(uma homenagem à lusofonia)
a nostalgia dos poetas
enche de ocultos sentidos
a língua que falo
a língua que falas
debatem-se os poetas
com as palavras que os habitam
escondidas debaixo da pele
como animais domésticos
à espera de um afago
e penteiam-nas meticulosamente
com o metal dos aparos
nesse delicado compromisso
entre o amargor da tinta
e a limpidez opaca do papel
folheiam
com os dedos manchados de azul
uma gramática ancestral
herdada da secreta errância dos povos
entre a dor e a alegria
e trazem na alma a compaixão
pelas difíceis coisas simples
que o sangue esconde
e a noite cala
acorrentados à sua impossível condição
nas brumosas masmorras deste país
que ao nascer da aurora se faz verde
e negro se torna ao poente de tanto esperar
todos os dias resistem os poetas
contra o medo e o olvido
e as palavras
libertas do seu quotidiano jugo
enchem o peito dorido dos poetas de desejo
de um destino para além da história
é o amor dos poetas pelas palavras
que torna possível
que as fronteiras desta pátria
se estendam entre a minha
e a tua língua
e que um dia o nosso abraço
se encontre
dos dois lados deste mar
a nostalgia dos poetas
enche de ocultos sentidos
a língua que falo
a língua que falas
debatem-se os poetas
com as palavras que os habitam
escondidas debaixo da pele
como animais domésticos
à espera de um afago
e penteiam-nas meticulosamente
com o metal dos aparos
nesse delicado compromisso
entre o amargor da tinta
e a limpidez opaca do papel
folheiam
com os dedos manchados de azul
uma gramática ancestral
herdada da secreta errância dos povos
entre a dor e a alegria
e trazem na alma a compaixão
pelas difíceis coisas simples
que o sangue esconde
e a noite cala
acorrentados à sua impossível condição
nas brumosas masmorras deste país
que ao nascer da aurora se faz verde
e negro se torna ao poente de tanto esperar
todos os dias resistem os poetas
contra o medo e o olvido
e as palavras
libertas do seu quotidiano jugo
enchem o peito dorido dos poetas de desejo
de um destino para além da história
é o amor dos poetas pelas palavras
que torna possível
que as fronteiras desta pátria
se estendam entre a minha
e a tua língua
e que um dia o nosso abraço
se encontre
dos dois lados deste mar
13 de dezembro de 2004
epidemia de natal
um bando de fogueiras aladas
atravessa os céus da avenida
e faz ninho nos postes de iluminação pública
estrelas carnívoras e gigantes cristais de gelo
apoderam-se das copas das árvores
donde escorrem longos pingentes de luz
uma miríade de seres eléctricos
toma conta dos mais improváveis recantos da cidade
e reinventa a claridade na longa noite invernosa
as gentes são tomadas de amnésia
e obliteram o quotidiano sobressalto da violência
feitas erráticas mariposas
esfregam os narizes no aquário das montras
como se disso dependesse a sua sobrevivência
sorvem avidamente o ar frio da noite
e suspiram
mergulhadas numa nostálgica felicidade
envenenada pela ideia de uma infância que nunca viveram
mas a chuva continua a ser tão húmida e viscosa como sempre
e fora do halo luminoso do consumismo
a noite continua a ser tão escura como todas as noites escuras
que estranhos fenómenos provoca a epidemia do natal
11 de dezembro de 2004
10 de dezembro de 2004
8 de dezembro de 2004
Caçada
é noite de lua nova
os homens reúnem-se
entre as estantes da biblioteca
para a grande caçada
ao verso branco
procuram todas as pistas
todos os rastos
no ventre
dos livros mais antigos
é aí que o bicho
provoca mais estragos
é aí que a sua existência
é mais insidiosa
mais repulsiva
mais nefasta
os caçadores espiolham
a palidez do papel
em busca dos traços
imperceptíveis da fera
com redobrada cautela
seguem a marca
das suas pegadas
e mal vislumbram
o vulto vago do animal
assestam as armas
apontam à cabeça
e desferem sucessivos disparos
até que este se estatele
inerte no solo
depois lavam as mãos
devagar
e bebem vinho tinto
até de madrugada
os homens reúnem-se
entre as estantes da biblioteca
para a grande caçada
ao verso branco
procuram todas as pistas
todos os rastos
no ventre
dos livros mais antigos
é aí que o bicho
provoca mais estragos
é aí que a sua existência
é mais insidiosa
mais repulsiva
mais nefasta
os caçadores espiolham
a palidez do papel
em busca dos traços
imperceptíveis da fera
com redobrada cautela
seguem a marca
das suas pegadas
e mal vislumbram
o vulto vago do animal
assestam as armas
apontam à cabeça
e desferem sucessivos disparos
até que este se estatele
inerte no solo
depois lavam as mãos
devagar
e bebem vinho tinto
até de madrugada
7 de dezembro de 2004
4 de dezembro de 2004
27 de novembro de 2004
da vida selvagem
na época do acasalamento
os garfos limícolas reúnem-se em bandos
e ensaiam elaborados cânticos
numa dança frenética e cega
exaltam as virtudes do sal marinho
e procedem então à desova:
um único ovo de metal dourado
que se recolhe no horizonte
quando a noite cai
os garfos limícolas reúnem-se em bandos
e ensaiam elaborados cânticos
numa dança frenética e cega
exaltam as virtudes do sal marinho
e procedem então à desova:
um único ovo de metal dourado
que se recolhe no horizonte
quando a noite cai
25 de novembro de 2004
24 de novembro de 2004
fábula vegetal
para o povo da floresta
não há cemitérios
nem culto dos mortos
quando alguém se fina
o seu corpo é devolvido à terra
e sobre ele é plantada
uma nova árvore
que recebe o nome do defunto
para o povo da floresta
não existe morte
mas uma mudança de estado
na sua metafísica
os homens são as árvores
e as árvores são os homens
e a si mesmo se chamam
freixo tília plátano faia
não há cemitérios
nem culto dos mortos
quando alguém se fina
o seu corpo é devolvido à terra
e sobre ele é plantada
uma nova árvore
que recebe o nome do defunto
para o povo da floresta
não existe morte
mas uma mudança de estado
na sua metafísica
os homens são as árvores
e as árvores são os homens
e a si mesmo se chamam
freixo tília plátano faia
23 de novembro de 2004
21 de novembro de 2004
19 de novembro de 2004
14 de novembro de 2004

(Diabo marinho - José Fagundes / 1000 imagens)
ó medusa de vidro
com escamas de alabastro
sustem teus candelabros
sobre o rio das trevas
que eu quero atravessar
com serapilheira
tábuas pregos e chapa
construí o meu batel
e lá vou agitando
às cegas
estas asas empalhadas
procurando no reverso
da sombra
a face oculta do desespero
11 de novembro de 2004
9 de novembro de 2004
8 de novembro de 2004

(Intimidades - José Fagundes / 1000imagens)
conta-me uma história
deixa-me encostar
a cabeça no teu regaço
e ouvir brotar em ti as palavras
como a água cristalina
das nascentes
conta-me uma história
e eu ignorarei
todas as calamidades
que hoje aconteceram
que hoje te aconteceram
que hoje me aconteceram
conta-me uma história
e eu partirei
nesse mesmo instante
em busca do maravilhoso cristal
que cura todos os males
e satisfaz todos os desejos
conta-me uma história
e eu adormecerei
embalado pela tua voz
esquecendo que amanhã
será talvez outro dia terrível
6 de novembro de 2004
mandala

ergueu a mão
traçou um círculo no ar
e uma ave sem nome
pousou no seu olhar
e disse:
pensar não é ser
o pensamento não é mais
que a sombra das coisas
à luz do luar
enquanto as trevas vêm e vão
a vida é como a água
que escorre por entre os dedos
e se some no chão
mesmo sem asas
é preciso viver
é preciso voar
4 de novembro de 2004
3 de novembro de 2004
o dedo de Galileu
.
.
den
tro d
e uma
redom
a de cr
istal o
dedo i
ndicad
or de G
alileu c
ontinua
a apont
ar o céu.
dos ven
eráveis i
nquisidor
es, nem pó.
Mais exactamente no Museo di Storia della Scienza em Florença
.
den
tro d
e uma
redom
a de cr
istal o
dedo i
ndicad
or de G
alileu c
ontinua
a apont
ar o céu.
dos ven
eráveis i
nquisidor
es, nem pó.
Mais exactamente no Museo di Storia della Scienza em Florença
2 de novembro de 2004
desdactilografia

(Elogio da Escrita - António Matias / 1000 imagens)
alinham-se imóveis
as letras as palavras
as frases e os parágrafos
contra a branca parede
do papel
há um curto silêncio
subitamente
os dedos martelam
furiosamente as teclas
e as teclas correspondem
enchendo o ar quieto
de estampidos secos
e o papel de negras marcas
letras palavras
frases e parágrafos
desfalecem sob
a violência do impacto
e caem moribundos
no fundo da página
1 de novembro de 2004
31 de outubro de 2004

(Foto de Carlos Fernandes)
As cantigas da passarada são por momentos abafadas por um outro chilrear mais estridente e vivo: o das crianças em volta de uma nova brincadeira. Correm e saltam. Agora desenham e pintam. Na longa tira de papel, uma sucessão de signos coloridos relata a alegria destes pardais sem asas. Embalados por um sonho sem limites, os seus olhos ingénuos esvoaçam no traço meticuloso do pincel. Brincam. E brincando projectam o futuro.
brincam os gaiatos
como pardais saltitando
de ramo em ramo
desenham um novo mundo
embalados pelo sonho
29 de outubro de 2004
28 de outubro de 2004
27 de outubro de 2004
26 de outubro de 2004
25 de outubro de 2004
24 de outubro de 2004
19 de outubro de 2004
18 de outubro de 2004
16 de outubro de 2004
no princípio era a mãe
a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno
e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias
e o coração se consumiu
em dor e lume
e o lume se fez pássaro
e o pássaro entardeceu
enigmático e só
e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras
o verbo
o verso
a rósea placidez do útero
a candura do peito
o aconchego do feno
e o arcano germinou
na carne translúcida
dos dias
e o coração se consumiu
em dor e lume
e o lume se fez pássaro
e o pássaro entardeceu
enigmático e só
e dele restam apenas
o legado do sangue
o frágil bafo das palavras
o verbo
o verso
12 de outubro de 2004
brancas são as pombas
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca
verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde
azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul
brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul
esvoaçando entre os
brancos castelos de nuvens
nesta mimosa tarde
branca
verdes são as folhas
agitando-se entre os
verdes braços das árvores
nesta viçosa tarde
verde
azuis são as horas
escoando-se entre os
azuis dedos do tempo
nesta ociosa tarde
azul
brancas verdes azuis
são também as palavras
que não é preciso dizeres-me
nesta gloriosa tarde
branca verde azul
11 de outubro de 2004
9 de outubro de 2004
imaginem
(a John Lennon)
imaginem
que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco
e não houvesse morte
e que a alma fosse verdade
e a memória do tempo
fosse eterna
e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos
imaginem
imaginem
imaginem
que o ódio não fosse mais
que um passageiro equívoco
e não houvesse morte
e que a alma fosse verdade
e a memória do tempo
fosse eterna
e que mesmo que o corpo
se dissipasse
e dele não restasse
mais que um rasto de cinza
continuássemos a viver
nos olhos daqueles que amamos
e nos olhos daqueles que amam
aqueles que amamos
imaginem
imaginem
8 de outubro de 2004
6 de outubro de 2004
3 de outubro de 2004
O sono da casa

Já nada fala do riso das crianças, do odor da lenha ardendo no borralho, da paciência do gado no curral, do sussurro da chuva no telhado. Que as telhas são, elas próprias, descompassada chuva a caminho do chão. E a madeira retoma a via da natural corrupção. E as paredes se conformam a devolver ao horizontal descanso as pedras que a terra emprestou para esta aventura de ser casa. E as ervas recuperam lentamente um território que é seu. Até que nova aventura se erga em seu lugar.
corpo adormecido
nos braços rudes do tempo
a casa se esvai
tornam as pedras às pedras
e o barro volta ao barro
2 de outubro de 2004
1 de outubro de 2004
26 de setembro de 2004
22 de setembro de 2004
21 de setembro de 2004
19 de setembro de 2004
16 de setembro de 2004
......................parábola
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião
........................pára a
......................... bola
........................disse o
...............senhor é preciso
...........que vos deixeis seduzir
...pela doce cintilação hipnótica da
palavra contingente para que possais
..permanecer agrestes e indiferentes
....e nada vos consinta distinção dos
....outros bichos da criação excepto
.......talvez na estúpida crueza da
..........vossa ferocidade e assim
..............vos mantenhais pelos
..............séculos dos séculos
.................sangue que sois
.......................e medula
.........................e osso
...........................diss
..............................e
..............................e
.............no ar girou como um pião
15 de setembro de 2004
12 de setembro de 2004
11 de setembro de 2004
9 de setembro de 2004
as moscas
(contra todas as violências)
heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes
esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina
fazem da morte seu alimento
as moscas
heréticas e impuras
como os metálicos insectos
cujo silvo escalda os ares
e retalha as carnes
esfregam as patas
alisam as asas
zumbem em surdina
fazem da morte seu alimento
as moscas
8 de setembro de 2004
oração perplexa
escuro fóssil
de carnívora qualidade
medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo
cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal
pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita
hemisférica ossatura
imune ao sexo
ora pro nobis
de carnívora qualidade
medusa errónea de sangue quente
afagando o marsupial abdómen
do tempo
cavalo em chamas
os cascos devorando o trópico
da aurora boreal
pulmão servil
esporo ancestral
ave translúcida
raiz atónita
hemisférica ossatura
imune ao sexo
ora pro nobis
6 de setembro de 2004
erguemos a nossa casa
(à Isabel)
erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte
erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara
erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem
erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego
e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor
erguemos a nossa casa
no dorso agreste da falésia
cravadas as raízes
no duro músculo da pedra
e os olhos das janelas
atentos ao brilho do horizonte
erguemos a nossa casa
no ventre fecundo da planície
cravadas as raízes
na plástica carne da argila
e os olhos das janelas
atentos ao mover da seara
erguemos a nossa casa
nas entranhas húmidas da floresta
cravadas as raízes
entre as tenras veias das árvores
e os olhos das janelas
atentos à comoção da folhagem
erguemos a nossa casa
no peito rude da cidade
cravadas as raízes
na estéril rigidez do betão
e os olhos das janelas
atentos ao frenesim do tráfego
e nem a audácia das ondas
nem o uivo dos ventos
nem a bofetada da chuva
nem a fúria dos homens
abalaram a sua frágil argamassa
amassada com o teu e o meu suor
2 de setembro de 2004
1 de setembro de 2004
29 de agosto de 2004
manifesto
entre as flores simples
do outeiro
o sussurro volátil da abelha
na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia
do outeiro
o sussurro volátil da abelha
na verdade mais singela
o sopro primordial
da poesia
26 de agosto de 2004
Bailado estival

(Foto de Carlos Fernandes)
Como numa dança lenta, ondulante e sensual, o calor torna lânguidas as criaturas e convida a um «pas-de-deux» com as ondas refrescantes. A brisa comanda o valsear das nuvens e anima o serpentear vertical das árvores. Em delírio, mar e céu se irmanam, saboreando o grande baile estival. Exalta-se o esplendor dos corpos maduros. É Verão.
no fervor da dança -
o devaneio dos corpos
celebra o estio
bulindo num vai e vem
igual às ondas na praia
24 de agosto de 2004
21 de agosto de 2004
17 de agosto de 2004
fim de estação
há um desassossego de alma
no clamor do vento
que reverbera
a grossa barreira das paredes
e faz estremecer a casa
uma fúria incontida
que desconjunta
o corpo flexível das árvores
e torna rastejantes
as ervas dos caminhos
como se
as vísceras da mãe terra
se amotinassem
num inconformado adeus
ao calor estival
no clamor do vento
que reverbera
a grossa barreira das paredes
e faz estremecer a casa
uma fúria incontida
que desconjunta
o corpo flexível das árvores
e torna rastejantes
as ervas dos caminhos
como se
as vísceras da mãe terra
se amotinassem
num inconformado adeus
ao calor estival
16 de agosto de 2004
13 de agosto de 2004
8 de agosto de 2004
5 de agosto de 2004
o poeta perguntou ao grilo
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração
e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta
e visse
sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos
sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens
entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas
e disse
- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso
e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão
onde arranjava ele
tanta energia
tanta inspiração
e o grilo pediu-lhe
que olhasse em volta
e visse
sob o oiro do sol
a amena curva dos montes
e o alegre saltitar dos rios
e riachos
sobre o rumor das árvores
o voo travesso dos pássaros
e o suave deslizar
das nuvens
entre as flores dos prados
a azáfama das abelhas
e a indecisa dança
das borboletas
e disse
- agora repara
como é tudo tão belo
tão precioso
e eu só tenho
para os cantar
o tempo de um Verão
3 de agosto de 2004
o poeta abriu
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal
umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores
outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu
algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos
tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas
excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu
o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema
a gaiola das palavras
e ficou a ver
a sua metamorfose
no contacto com o brilho
do sol matinal
umas tornaram-se
coloridas borboletas
e pousaram
na corola das flores
outras transformaram-se
em brancas pombas
formaram um bando
e desapareceram no céu
algumas houve
que se transformaram
em irrequietas libélulas
outras em velozes falcões
outras ainda
em sonolentos morcegos
tornadas insectos
aves
ou mamíferos voadores
todas partiram
batendo as asas
excepto uma
que pousou na mão do poeta
nela se aninhou
e adormeceu
o poeta acariciou-a
muito de mansinho
e iniciou com ela
um novo poema
2 de agosto de 2004
flutuam as palavras
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta
após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra
e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar
o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço
agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça
depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas
entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas
como bolas de sabão
à volta da cabeça do poeta
após um momento de fulgor
rebenta uma
e outra se desfaz
e outra e outra
e logo uma dúzia delas
novas coloridas brilhantes
grandes e pequenas
surge pairando no ar
o poeta pega na rede
uma fina rede de caçar palavras
e vai no seu encalço
agarra uma aprisiona outra
liberta a primeira
junta uma segunda e logo outra
solta-as todas de novo
e de novo recomeça
depois de um tempo
nesta efémera colheita
o poeta pega nas palavras
que capturou
e põe-as a dormir
no seu bloco de notas
entre estas escolherá
as que vai usar nos seus poemas
1 de agosto de 2004
Em Darfur

negra é a tua pele
negra a tua fome
negro o medo
que te obriga a fugir
negro o choro
do filho que apertas
no desespero de um abraço
negro o teu futuro
sem futuro
mas mais negro ainda
que a mais negra das noites
é o negro coração
de quem te atormenta
30 de julho de 2004
23 de julho de 2004
as tuas mãos
a Carlos Paredes
as tuas mãos
são como asas
voando
no azul luminoso
do entardecer
as tuas mãos
são como água
correndo
cristalina e fria
pelas encostas
as tuas mãos
são como brisa
dançando
entre as brancas dunas
da beira mar
as tuas mãos
são como ondas
embalando
a alma impura
deste povo marinheiro
que chora
na tua guitarra
porque partiram já
as tuas mãos
deixando
o travo amargo-doce
da saudade
21 de julho de 2004
20 de julho de 2004
O eco dos passos

Foto: Carlos Fernandes
Na penumbra da charola de Tomar, o eco dos passos acorda o eco de outros passos mais antigos, mais solenes; o som das vozes evoca o murmúrio de outras vozes mais profundas, mais austeras: os passos e as vozes dos monges cavaleiros que empenharam tudo na busca dos grandes segredos da fé. E por isso se perderam, aniquilados pela cupidez dos poderosos. Do longínquo Oriente nos legaram os símbolos, as formas e as cores, plasmados numa arquitectura de grande devoção. Aqui, o seu testemunho permanece vivo e inspirador.
Há vozes e passos
vibrando na luz coada
da capela mor.
São os ecos dos Templários
em busca de Santo Graal.
vibrando na luz coada
da capela mor.
São os ecos dos Templários
em busca de Santo Graal.
18 de julho de 2004
17 de julho de 2004
na candura obstinada do teu corpo surreal:
o delírio das horas
no sorriso das estátuas rasgado a cinzel:
a pele coriácea das horas
na urze benzida pelo orvalho de Abril:
o pingar das horas
na insónia da ave à espera do sol:
a interrogação das horas
na voz amotinada rasgando o azul:
o anseio das horas
o delírio das horas
no sorriso das estátuas rasgado a cinzel:
a pele coriácea das horas
na urze benzida pelo orvalho de Abril:
o pingar das horas
na insónia da ave à espera do sol:
a interrogação das horas
na voz amotinada rasgando o azul:
o anseio das horas
16 de julho de 2004
bates à porta
bates à porta. afagas as paredes com a língua do silêncio.
cravas as unhas na pele tenra da noite.
com mil anos de espera no sobrado dos olhos.
e a sede germinando oculta num vaso carmim.
bates à porta. para lá da entrada o ressoar das lajes.
o frémito da madeira. o gemido da cal.
o bocejo opaco da água. a claridade de um voo sem fim.
bates à porta. imitas o chilreio brando das aves pequenas.
as mãos que suplicam a submissão dos gonzos.
e adubas as asas com um braçado de lírios. antecipando o festim.
bates à porta. acendes a nudez da aurora com o teu corpo intacto.
sorris de mansinho. e como uma ladra profanas a porta fechada de mim.
cravas as unhas na pele tenra da noite.
com mil anos de espera no sobrado dos olhos.
e a sede germinando oculta num vaso carmim.
bates à porta. para lá da entrada o ressoar das lajes.
o frémito da madeira. o gemido da cal.
o bocejo opaco da água. a claridade de um voo sem fim.
bates à porta. imitas o chilreio brando das aves pequenas.
as mãos que suplicam a submissão dos gonzos.
e adubas as asas com um braçado de lírios. antecipando o festim.
bates à porta. acendes a nudez da aurora com o teu corpo intacto.
sorris de mansinho. e como uma ladra profanas a porta fechada de mim.
15 de julho de 2004
14 de julho de 2004
13 de julho de 2004
12 de julho de 2004
11 de julho de 2004
9 de julho de 2004
no palco
trémulo
com os olhos postos no abismo
o actor entrega-se
à vertigem do palco
e no âmago
da sua própria luz
de si mesmo se despoja
e se oferece
à volúpia do público
com quem reparte
o pão e o vinho
do seu corpo e da sua voz
na liturgia da cena
na comunhão do gesto
na comunhão da palavra
com os olhos postos no abismo
o actor entrega-se
à vertigem do palco
e no âmago
da sua própria luz
de si mesmo se despoja
e se oferece
à volúpia do público
com quem reparte
o pão e o vinho
do seu corpo e da sua voz
na liturgia da cena
na comunhão do gesto
na comunhão da palavra
8 de julho de 2004
7 de julho de 2004
4 de julho de 2004
3 de julho de 2004
Entardecer
(a Sophia de Mello Breyner Andresen)
pairando nos reflexos do poente
a face cristalina da poesia
abraça o horizonte num lamento
perdida numa estranha nostalgia
e um eco singular rasga a falésia
vibrando em dolente melodia
é o verde dos pinhais a voz do mar
chamando mansamente por Sophia
30 de junho de 2004
andorinhas
(à Beatriz)
afagando
a pele enrugada do rio
as andorinhas
matam a sede em pleno voo
vêm e vão com a brisa
que brinca nos teus cabelos
enquanto nadas
rasando as águas
como as andorinhas
afagando
a pele enrugada do rio
as andorinhas
matam a sede em pleno voo
vêm e vão com a brisa
que brinca nos teus cabelos
enquanto nadas
rasando as águas
como as andorinhas
27 de junho de 2004
serei eu o barco
serei eu o barco
abraçado à margem
que pergunta às nuvens
que passam
pela emoção da viagem
que nunca viu
na vastidão dos mares
senão uma miragem
que se contenta
com o sorriso da lua
sobre a quieta paisagem
e olha no espelho
das águas onde apodrece
procurando a sua imagem
serei eu o barco
ou uma sombra de passagem
abraçado à margem
que pergunta às nuvens
que passam
pela emoção da viagem
que nunca viu
na vastidão dos mares
senão uma miragem
que se contenta
com o sorriso da lua
sobre a quieta paisagem
e olha no espelho
das águas onde apodrece
procurando a sua imagem
serei eu o barco
ou uma sombra de passagem
25 de junho de 2004
Verão
São como lumes
crepitando
entre a folhagem.
Ó águas do rio:
mandai calar as cigarras.
A vós me entrego -
à míngua de frescura
à míngua de silêncio.
crepitando
entre a folhagem.
Ó águas do rio:
mandai calar as cigarras.
A vós me entrego -
à míngua de frescura
à míngua de silêncio.
23 de junho de 2004
22 de junho de 2004
21 de junho de 2004
20 de junho de 2004
À sesta

Foto: Carlos Fernandes
O calor de Junho debruça-se sobre os telhados, entranhando-se até nas mais acanhadas vielas. Em penumbra se emudecem as casas fechadas: tenta-se em vão conservar a frescura entre as grossas paredes. A quietude é apenas quebrada pelo zumbir dos insectos e pelo eco das horas na torre sineira. Nem o sussurro das rezas, nem o ladrar dos cães… A aldeia deixa-se mergulhar na modorra e dormita um sono breve.
No torpor da sesta -
O sol açoita os telhados
Das casas fechadas.
Só o zumbido das horas
Quebra o sossego da tarde.
19 de junho de 2004
Pregão
do ardor da carne
emerge a palavra
na ebulição do sangue
sublimada
disputando o vento
corre o horizonte
sorvendo o ar frio
na praia serena
reclina-se um pouco
sobre o areal
tomando alento
no beijo da espuma
e ao sol do crepúsculo
ateia o poema
18 de junho de 2004
16 de junho de 2004
15 de junho de 2004
alentejo

calam-se as aves
adormece na planura
o bafo do estio
só a água do regato
quebra o silêncio da tarde
e desmente a sede
14 de junho de 2004
10 de junho de 2004
A Camões

Chorai ninfas do Tejo
e do Mondego
que o fraco batel do Poeta
naufragou
quando em apagada
e vil tristeza
a pátria que ele amava
se afogou
caladas estão a lírica
e a epopeia
que um dia à gente surda
ele cantou
das lívidas mãos
tombaram já
a dura espada e a doce pena
que empunhou
chorai ninfas, chorai,
chorai bem alto,
que o fraco batel do Poeta
naufragou
9 de junho de 2004
8 de junho de 2004
6 de junho de 2004
5 de junho de 2004
3 de junho de 2004
Saturnal
descem pelas dunas
os ébrios ventos
o ardor do cio atiçando o olhar
nos lábios molhados
uma prece pagã
zunindo na areia à luz do luar
em louca folia
correm praia fora
fecundando a noite co'a espuma do mar
os ébrios ventos
o ardor do cio atiçando o olhar
nos lábios molhados
uma prece pagã
zunindo na areia à luz do luar
em louca folia
correm praia fora
fecundando a noite co'a espuma do mar
2 de junho de 2004
29 de maio de 2004
O espelho da eternidade

(Foto de Carlos Fernandes)
À sombra de um frondoso pinheiro, imóvel sobre a colina, o busto de bronze observa a paisagem polvilhada pela brancura das casas. Na esteira desse olhar, o íntimo declive dos montes abraça um horizonte sem nuvens. E o espelho quieto das águas reflecte o azul intemporal dos céus. Como se a eternidade fosse agora.
O busto contempla
- olhar cavado no bronze -
o vale soalheiro.
Nas águas quietas do tanque
o tempo adormeceu.
28 de maio de 2004
23 de maio de 2004
22 de maio de 2004
21 de maio de 2004
19 de maio de 2004
18 de maio de 2004
17 de maio de 2004
16 de maio de 2004
15 de maio de 2004
13 de maio de 2004
11 de maio de 2004
10 de maio de 2004
9 de maio de 2004
a palavra «azul»
não torna o arco-íris mais perene
a palavra «amanhã»
não torna a noite menos escura
a palavra «água»
não torna a sede mais suportável
a palavra «amor»
não torna a morte menos brutal
«azul», «amanhã», «água», «amor»
não são mais do que palavras
mas as palavras são o fermento do poema
não torna o arco-íris mais perene
a palavra «amanhã»
não torna a noite menos escura
a palavra «água»
não torna a sede mais suportável
a palavra «amor»
não torna a morte menos brutal
«azul», «amanhã», «água», «amor»
não são mais do que palavras
mas as palavras são o fermento do poema
8 de maio de 2004
7 de maio de 2004
5 de maio de 2004
o ventre da névoa
o ventre da névoa
regurgita lentamente
o perfil das árvores
e desvenda sem pudor
a curva ténue dos montes
4 de maio de 2004
30 de abril de 2004
a flor do nenúfar
a flor do nenúfar
lembra os lábios lívidos
de Ofélia
engolida pelas águas
de um amor cruel
e o som do regato
traz o suspiro da sua voz
29 de abril de 2004
verde mansão

(Foto de Carlos Fernandes)
Testemunha de uma história secular, a velha árvore estende a fronde sobre o bosque e abre os braços às gerações de aves, insectos e outros animais que nela buscam abrigo e alimento. Na sua vocação maternal, a todos tolera com a mesma brandura e generosidade.
Nos braços abertos
do carvalho secular
se aninham os bichos
como uma verde mansão
que a Primavera povoa.
28 de abril de 2004
27 de abril de 2004
25 de abril de 2004

A tarde ensolarada convida a um passeio a pé. Os campos estão já engalanados com as grinaldas da primavera. O ar rescende como uma donzela perfumada. Sob um renque de árvores frondosas, a sombra sugere uma pequena pausa. Os olhos depressa se habituam à penumbra. E descobrem uma massa escura entre os ramos de um arbusto baixo, fincado numa barreira do caminho: um ninho! Um segredo mal guardado, que a curiosidade tenta não perturbar, nem comprometer ...mas não resiste a uma espreitadela.
três ovos azuis
aguardam o calor da ave
ausente do ninho
a brisa da tarde vela
com cuidado maternal
15 de abril de 2004
14 de abril de 2004
13 de abril de 2004
[Em cada grão de poeira]
(À Isabel)
Em cada grão de poeira
volteando feito luz,
em cada praia desnuda,
em cada gesto, na sede,
evoco a tua memória,
meu amor, e emudeço.
Na flor da espuma rasgada,
nos teus olhos, meu amor,
nos gritos-ritos das mãos,
no beijo que se amotina,
nas cinzas do amor desfeito,
oiço o teu corpo sonhar,
oiço o meu sangue fluir,
meu amor, e emudeço.
É cada sorriso cheio
que desdobras nos meus braços
mais um sinal descerrando
o meu peito feito mar
É por ti o fôlego
é por ti a luz
é por ti a força
É por ti o amor
Carlos Alberto Silva
1984
Em cada grão de poeira
volteando feito luz,
em cada praia desnuda,
em cada gesto, na sede,
evoco a tua memória,
meu amor, e emudeço.
Na flor da espuma rasgada,
nos teus olhos, meu amor,
nos gritos-ritos das mãos,
no beijo que se amotina,
nas cinzas do amor desfeito,
oiço o teu corpo sonhar,
oiço o meu sangue fluir,
meu amor, e emudeço.
É cada sorriso cheio
que desdobras nos meus braços
mais um sinal descerrando
o meu peito feito mar
É por ti o fôlego
é por ti a luz
é por ti a força
É por ti o amor
Carlos Alberto Silva
1984
12 de abril de 2004
enches as mãos de terra
enches as mãos de terra
e dedicas-te ao milagre
da multiplicação das plantas
há em ti o mesmo enlevo
com que geraste os filhos
crianças e plantas
encontram abrigo
no teu regaço telúrico
11 de abril de 2004
era Abril e fazia frio
os corpos vergavam-se
ao rigor de um longo Inverno
tangia-se a tristeza
pelas vielas de um povo
de alma moribunda
novos e velhos
amordaçavam o desejo
e o sangue secava
enclausurado
na certeza do martírio
depois, um dia
soltou-se uma canção fraterna
o sol amanheceu sorrindo
e os rostos desabrocharam
e as espingardas floriram
era Abril
e a Primavera tinha saído à rua
10 de abril de 2004
9 de abril de 2004
8 de abril de 2004
movimento de câmara
o banco de jardim
a criança sentada no banco de jardim
bailam as pupilas da criança sentada no banco de jardim
no azul limpo da tarde bailam as pupilas da criança sentada no banco de jardim
no azul limpo da tarde bailam as pupilas da criança sentada
no azul limpo da tarde bailam as pupilas
o azul limpo da tarde
a criança sentada no banco de jardim
bailam as pupilas da criança sentada no banco de jardim
no azul limpo da tarde bailam as pupilas da criança sentada no banco de jardim
no azul limpo da tarde bailam as pupilas da criança sentada
no azul limpo da tarde bailam as pupilas
o azul limpo da tarde
7 de abril de 2004
6 de abril de 2004
5 de abril de 2004
4 de abril de 2004
3 de abril de 2004
2 de abril de 2004
1 de abril de 2004
31 de março de 2004
30 de março de 2004
29 de março de 2004
28 de março de 2004
27 de março de 2004
26 de março de 2004
25 de março de 2004
24 de março de 2004
21 de março de 2004
«a emergência livre da palavra*»
(no Dia Mundial da Poesia)
há quem se roje no chão em desespero
há quem erga as mãos ao céu e reze
há quem pinte quadros
há quem medite
há quem árvores plante
livros semeie
eu reservo apenas
em cada dia
um sítio para as palavras
em liberdade
e me entrego nú em suas mãos
sereno
assim enfrento
na exaltação da poesia
o desenlace incerto dos amanhãs
* Da mensagem de Koichiro Matsura, director-geral da UNESCO.
há quem se roje no chão em desespero
há quem erga as mãos ao céu e reze
há quem pinte quadros
há quem medite
há quem árvores plante
livros semeie
eu reservo apenas
em cada dia
um sítio para as palavras
em liberdade
e me entrego nú em suas mãos
sereno
assim enfrento
na exaltação da poesia
o desenlace incerto dos amanhãs
* Da mensagem de Koichiro Matsura, director-geral da UNESCO.
20 de março de 2004
Primavera
Enche-se de risos o bosque
Onde as ninfas festejam
O sol primaveril.
Em louca cavalgada
Sobre o dorso dos faunos
A nudez das musas
Evoca a inocência
Dos tempos antigos.
O sopro de Zéfiro
Vibra na flauta de Pã.
Incitando a arremetida
Selvagem dos sátiros
Dionísio acende
A loucura perene
No ventre das bacantes.
A brisa fecunda
As flores da Hélade
Com a memória do mito.
Onde as ninfas festejam
O sol primaveril.
Em louca cavalgada
Sobre o dorso dos faunos
A nudez das musas
Evoca a inocência
Dos tempos antigos.
O sopro de Zéfiro
Vibra na flauta de Pã.
Incitando a arremetida
Selvagem dos sátiros
Dionísio acende
A loucura perene
No ventre das bacantes.
A brisa fecunda
As flores da Hélade
Com a memória do mito.
19 de março de 2004
18 de março de 2004
17 de março de 2004
A Nau Catrineta nunca voltou
Ao poeta Joaquim Evónio
aprendiz de marinheiro
lanço meu repto ao mar
espero a Nau Catrineta
que um dia há-de voltar
meus olhos vogam nas ondas
mas não chego a embarcar
e sobre a areia da praia
fico sentado a sonhar
só me restam as palavras
com que teço o meu cantar
aprendiz de marinheiro
lanço meu repto ao mar
espero a Nau Catrineta
que um dia há-de voltar
meus olhos vogam nas ondas
mas não chego a embarcar
e sobre a areia da praia
fico sentado a sonhar
só me restam as palavras
com que teço o meu cantar
16 de março de 2004
15 de março de 2004
14 de março de 2004
Amanhece o sol
Sobre os galhos partidos
Pela tempestade
Tornam-se douradas
As flores do tojo
Os ternos salgueiros
Encostam as cabeleiras
Em longas carícias
Balançam suavemente
Os cachos dos lilases
O eco dos pássaros
Volta a encher o bosque
De alegres trinados
Árvores flores e aves
Entoam um hino à vida
Sobre os galhos partidos
Pela tempestade
Tornam-se douradas
As flores do tojo
Os ternos salgueiros
Encostam as cabeleiras
Em longas carícias
Balançam suavemente
Os cachos dos lilases
O eco dos pássaros
Volta a encher o bosque
De alegres trinados
Árvores flores e aves
Entoam um hino à vida
13 de março de 2004
12 de março de 2004
Os mártires de Guernica acordaram em Madrid
«El sueno de la razon produce monstruos»
(título de uma gravura de Francisco Goya)
Os mártires de Guernica acordaram
em Madrid
os corpos trucidados dão notícia da guerra
mesmo em tempo de paz
os carniceiros firmam as suas causas no desespero
na morte, no horror e no medo
e prestam culto ao grande bode do baile das bruxas
imolando as mesmas vítimas de sempre:
os inocentes.
Carlos Alberto Silva
11 Março 2004
(título de uma gravura de Francisco Goya)
Os mártires de Guernica acordaram
em Madrid
os corpos trucidados dão notícia da guerra
mesmo em tempo de paz
os carniceiros firmam as suas causas no desespero
na morte, no horror e no medo
e prestam culto ao grande bode do baile das bruxas
imolando as mesmas vítimas de sempre:
os inocentes.
Carlos Alberto Silva
11 Março 2004
11 de março de 2004
o vento arrasta o pólen
Ao rei trovador D. Dinis
Num ligeiro remoinho
o vento arrasta o pólen
das flores do verde pino.
E traz consigo a memória
do velho rei trovador:
- Ai flores do verde pino.
Quem suspira mansamente
pelos pinhais do litoral?
Será o vento ou o mar?
Ou serão ainda os ecos
duma cantiga de amigo?
- Ai flores do verde pino.
Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão
soa a mágoa do poeta:
- Ainda ouvis minha voz?
Ainda vos lembrais de mim
ó flores do verde pino?
Mas só responde o murmúrio
do vento que arrasta o pólen
das flores do verde pino.
Num ligeiro remoinho
o vento arrasta o pólen
das flores do verde pino.
E traz consigo a memória
do velho rei trovador:
- Ai flores do verde pino.
Quem suspira mansamente
pelos pinhais do litoral?
Será o vento ou o mar?
Ou serão ainda os ecos
duma cantiga de amigo?
- Ai flores do verde pino.
Perdida na bruma densa
do tempo sem remissão
soa a mágoa do poeta:
- Ainda ouvis minha voz?
Ainda vos lembrais de mim
ó flores do verde pino?
Mas só responde o murmúrio
do vento que arrasta o pólen
das flores do verde pino.
9 de março de 2004
8 de março de 2004
7 de março de 2004
6 de março de 2004
5 de março de 2004
4 de março de 2004
2 de março de 2004
29 de fevereiro de 2004
28 de fevereiro de 2004
27 de fevereiro de 2004
26 de fevereiro de 2004
24 de fevereiro de 2004
22 de fevereiro de 2004
Carnaval barroco

A máscara branca
da lua de Veneza
brinca nos canais.
Traz entre as mãos o
coração de Pierrot.
21 de fevereiro de 2004

(Foto de Carlos Fernandes)
Depois da devastação do fogo, vem a água fustigar as encostas do monte. Sem a protecção da cobertura vegetal, consumida pelo incêndio do final de Verão, a enxurrada galga as vertentes com devoradora fúria. Arrasta consigo tudo o que apanha pela frente, rasgando até o próprio ventre da terra. Uma crença antiga afirma que os pecados dos homens acirram a ira dos deuses. A verdade é que os erros dos humanos recaem muitas vezes sobre a própria natureza e, depois desta, em si próprios…
Após o fogo -
O monte é fustigado
Pela fúria das águas.
O ímpeto da enxurrada
Rasga o ventre da terra.
20 de fevereiro de 2004
19 de fevereiro de 2004
18 de fevereiro de 2004
17 de fevereiro de 2004
16 de fevereiro de 2004
angústia
...
agitas um punhal de lava
sonhas o golpe que rasga
a amargura cruel da carne
algo obscuro ferve
no mais íntimo do sangue
e te impede de respirar
como um animal acossado
...
agitas um punhal de lava
sonhas o golpe que rasga
a amargura cruel da carne
algo obscuro ferve
no mais íntimo do sangue
e te impede de respirar
como um animal acossado
...
15 de fevereiro de 2004
14 de fevereiro de 2004
13 de fevereiro de 2004
12 de fevereiro de 2004
11 de fevereiro de 2004
10 de fevereiro de 2004
9 de fevereiro de 2004
8 de fevereiro de 2004
7 de fevereiro de 2004
6 de fevereiro de 2004
5 de fevereiro de 2004
3 de fevereiro de 2004
2 de fevereiro de 2004
31 de janeiro de 2004
eu digo, tu dizes
eu digo:
o poema é uma espécie de sussurro
mordendo a carne do verbo.
tu dizes:
as aves da tarde rasgam a mordaça,
soltando as palavras adormecidas.
eu digo:
nas carícias da árvore, o vento rende-se
à melodia que enche as ruas de cinzas.
tu dizes:
sob a página líquida da névoa,
a quimera do sol refugia-se no sono das pedras.
eu digo:
a escova dos dedos
penteia os nervos da erva.
tu dizes:
com o palpitar dos sexos,
dissimula-se a indolência das papoilas.
eu digo:
o céu abre-se, pródigo de chuva mansa
e açoita ternamente o corpo dos amantes.
tu dizes:
na água que me escorre dos cabelos
ocultam-se as lágrimas que não chorei.
eu digo:
não beijes as sombras
que se escoam com o entardecer.
tu dizes:
não supliques, não confesses,
não perdoes.
eu digo:
deixa-me mergulhar os olhos
na areia quente das tuas pernas.
tu dizes:
a tua saliva é como o gelo
endurecido na alvura das pétalas.
eu digo:
da chaga das minhas mãos
verte-se o desejo cálido das manhãs.
tu dizes:
os teus beijos falam de ilhas
perdidas no oceano das palavras.
eu digo:
o teu corpo
é o meu poema ardente.
tu dizes:
a minha carne
é a tua carne.
eu digo:
partamos, embalados pelos odores
na espuma da maré baixa
tu dizes:
partamos, até que a alvorada
nos pese nas pálpebras.
o poema é uma espécie de sussurro
mordendo a carne do verbo.
tu dizes:
as aves da tarde rasgam a mordaça,
soltando as palavras adormecidas.
eu digo:
nas carícias da árvore, o vento rende-se
à melodia que enche as ruas de cinzas.
tu dizes:
sob a página líquida da névoa,
a quimera do sol refugia-se no sono das pedras.
eu digo:
a escova dos dedos
penteia os nervos da erva.
tu dizes:
com o palpitar dos sexos,
dissimula-se a indolência das papoilas.
eu digo:
o céu abre-se, pródigo de chuva mansa
e açoita ternamente o corpo dos amantes.
tu dizes:
na água que me escorre dos cabelos
ocultam-se as lágrimas que não chorei.
eu digo:
não beijes as sombras
que se escoam com o entardecer.
tu dizes:
não supliques, não confesses,
não perdoes.
eu digo:
deixa-me mergulhar os olhos
na areia quente das tuas pernas.
tu dizes:
a tua saliva é como o gelo
endurecido na alvura das pétalas.
eu digo:
da chaga das minhas mãos
verte-se o desejo cálido das manhãs.
tu dizes:
os teus beijos falam de ilhas
perdidas no oceano das palavras.
eu digo:
o teu corpo
é o meu poema ardente.
tu dizes:
a minha carne
é a tua carne.
eu digo:
partamos, embalados pelos odores
na espuma da maré baixa
tu dizes:
partamos, até que a alvorada
nos pese nas pálpebras.
30 de janeiro de 2004
28 de janeiro de 2004
27 de janeiro de 2004
26 de janeiro de 2004
25 de janeiro de 2004
24 de janeiro de 2004
23 de janeiro de 2004
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